quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ASPECTO SÓCIO - PAISAGÍSTICO DA RIBEIRA QUENTE


Localizadas - e aqui o verdadeiro chamariz e ineditismo - em estreitos labirintos onde só o caminhar humano se sentia e o sossego era permanente nestes espaços os novos proprietários criavam facilidade de contactos e faziam rápidas amizades com os naturais. Tudo isto contribuíu para que o povoado da Ribeira Quente fosse procurado por ser um lugar atractivo de velado sossego e paz. Ainda ali se tinha a plena e absoluta certeza de que, deixando as chaves nas portas, as suas casas não seriam violadas.
Ao abrigo de uma então situação política, cujos partidos namoravam os habitantes das pequenas povoações como a Ribeira Quente, e sabedora dessa vocação partidária, a Junta de Freguesia de São Paulo desta localidade, resultante das primeiras eleições do após primeiro governo regional, sem dúvida composta por gente humilde mas inteligente que, sem dúvida, amava mais a sua terra do que os partidos políticos, foi, com certo orgulho, tentando melhorar o aspecto físico-social da sua terra de nascimento. Isto no percurso dos anos.
Os seus velhos labirintos e canadas foram, pomposamente, sendo toponimicamente alterados para ruas; por isso surgiram muitas novidades.
No lado mais recuado da zona do Fogo, a "CANADA DOS BARBOSAS" no sopé do Pico Pirâmide, uma das velhíssimas artérias do lugar, recebeu, pela primeira vez, uma placa em cerâmica com a mesma designação; mas, logo a seguir, com começo no litoral ou "RUA DO CASTELO", a curta canada em forma de esquadro, que logo ali acaba - onde a primeira Junta de Freguesia da Ribeira Quente construíu a sua primeira e grande obra monumental, os lavadouros do Fogo, para evitar que as mulheres daquela zona tivessem de calcorrear, de cesto na cabeça, cerca de um quilómetro para poder lavar as suas modestas roupas no único lugar onde então havia água suficiente, na ribeira da Ribeira - também foi promovida a "RUA REGO D'ÁGUA" e, logo mais adiante, uma outra canada foi elevada a "RUA NOVA DO RÊGO".
Mas a artéria mais espectacular da zona do Fogo ou Albufeira, é a "1.ª CANADA JOSÉ CRUZ", que logo se quebra após a sua entrada, e se ramifica em esquadrilhas de percurso relativamente apertados, ora subindo na direcção poente, norte e nascente, mas com uma só saída para a "RUA DA ALEGRIA"!
Este labirinto é o mais inédito.
Esta riqueza antiga mostra-nos o denodo com que foram procuradas pequenas parcelas irregulares de terrenos para se construir um refúgio quando o mar ia roubando a terra!
Também a "CANADA DA IGREJA VELHA" foi promovida a rua e, mais para o lado da Ribeira, a "CANADA DA CHARUTA" virou "RUA DA TRINCHEIRA" por alusão a algo que ali foi feito na Segunda Guerra Mundial.
A "RUA DO PADRE ANTÓNIO", ainda na década de quarenta era a "CANADA DAS PEIXOTAS", um quadricular e curto acesso que parte da "RUA DIREITA" para o litoral e que é mais um sinal de um passado de violenta simplicidade e pobreza.
Se se não pode chamar à "RUA DIREITA", porque esta também é estreita e irregular, de a melhor rua da zona da Ribeira, pois a que parte do porto para norte, junto à margem da ribeira é que o é, não se pode deixar de dizer que, na realidade, esta deve ter sido o primeiro troço de caminho que foi criado pelos pescadores da Ribeira Quente, no período da sua formação como homens do mar.
A riqueza da "RUA TORTA", quer pela sua designação quer pela sua estreiteza, mostra-nos também algo que transmite a razão da sua existência.
Todos estes antigos atalhos, cujas casas passaram a ter água e saneamento básico em data recente, formam o verdadeiro atractivo que prende os visitantes que aqui vêm.
(O casario do lado nascente da ribeira, em relação ao passado, é bastante destoante. Foi um recurso).
Como património social devia ter sido respeitado, naquele lado, o "MOINHO DO APELADOR".