quinta-feira, 11 de setembro de 2008

ANO DE 1959 - VISITA PASTORAL DE D. MANUEL AFONSO DE CARVALHO

É com o mais vivo reconhecimento que agradecemos a apoteótica homenagem que Ribeira Quente nos quis prestar. Realmente é uma terra onde há fogo, onde a fé está bem ardente. Tudo se encontra na melhor ordem e pedimos ao Divino Espírito Santo que sempre nos ilumina, vivifica e ampara, que habite nas nossas almas e nos acompanhe através da nossa existência.
Deixamos uma benção especial, penhor das bençãos divinas, dum modo particular, para os bons marítimos, pedindo que nunca nos esqueçam nas suas orações, quando se dedicam á faina da pesca.
Parabéns ao bom povo da Ribeira Quente e felicidades ao Reverendo Vigário, Padre Antero Jacinto de Melo, pelos êxitos obtidos.

Ribeira Quente, 16 de Março de 1959
Manuel Afonso de Carvalho, Bispo de Angra

- ANO DE 1955 - TOMADA DE POSSE DO PADRE ANTERO JACINTO DE MELO COMO PÁROCO DA RIBEIRA QUENTE

Aos catorze dias do mês de Setembro do ano de mil novecentos e cinquenta e cinco tomei posse desta paroquial de São Paulo da Ribeira Quente, lugar da minha naturalidade. Nesta paroquial que ora me foi confiada, fui eu baptizado, nela pela primeira vez subi ao altar do Todo-Poderoso, e nela agora vou continuar como pároco próprio, a acção desenvolvida pelos meus antecessores que, desde o grande Padre Angelo de Amaral até ao Padre José Jacinto da Costa, foram incansáveis no seu engrandecimento espiritual, e até material.
Sei portanto que é árdua a tarefa que me espera, mas confio na protecção do Senhor e na ajuda do meu muito querido padroeiro São Paulo. É difícil ser-se alguém, quando após alguém que o soube ser, e de maneira tão evidente como todos os párocos que por aqui passaram.

"Jesus Coepit Facere et Docere", eis o que Ele de mim exige - primeiro o trabalho e a seguir o ensinar.

"Facere et Docere". Já vim, aqui estou Senhor! E agora... Vou começar.

Ribeira Quente, 14 de Setembro de 1955
Padre Antero Jacinto de Melo

- ANO DE 1955 - COMPRA DO HARMÓNIO E SANEFAS / MUDANÇA DE CLERO

Deve ficar registado neste livro a aquisição de um harmónio fixo, em segunda mão, mas quase novo, que foi comprado ao Vigário de São Pedro de Vila Franca do Campo, Padre Lucindo Teixeira Mendes Andrade, por sete mil escudos (7.000$00). Muito se esforçou para esta aquisição o digno seminarista João Vieira Jerónimo desta freguesia, bem como os elementos da Capela, percorrendo várias vezes os paroquianos e pescadores deste porto, que da melhor vontade deram a sua esmola - bem haja pos a todos.
Também acabou de vestir-se esta Igreja com sanefas nas janelas, bem como cortinas oferecidas pelo senhor José Azeredo e sua esposa, vindos da América. As sanefas importaram na quase totalidade em cinco mil escudos (5.000$00).
Como epílogo tenho a acrescentar que no dia 14 de Setembro de 1955, saí para a Paróquia de Santa Luzia das Feteiras de Ponta Delgada, conforme nomeação feita pelo senhor Bispo Coadjutor D. Manuel Afonso de Carvalho. Para me substituir vem o Padre Antero Jacinto de Melo, natural desta freguesia, ordenado à seis anos e que paroquiava no lugar da Covoada, Concelho de Ponta Delgada. Vou substituir o Padre Carlos Lopes que foi transferido para a freguesia do Raminho da Ilha Terceira e que com agrado pastoreou aquela freguesia das Feteiras durante oito anos. O Padre Laudalino de Sousa Duarte Frazão, cura da Povoação, foi transferido para a Lomba da Maia.
Deus abençoe o bom povo da Ribeira Quente e a mim me ajude a levar a cruz sacerdotal.

Ribeira Quente e Arquivo Paroquial, aos 14 de Setembro de 1955

O Pároco
Padre José Jacinto da Costa

REQUERIMENTO DIRIGIDO AO MINISTRO DO INTERIOR PARA A ELEVAÇÃO DO LUGAR DA RIBEIRA QUENTE A FREGUESIA

Senhor Ministro do Interior,
Excelência

Os abaixo assinados constituindo a maioria absoluta dos chefes de família eleitores neste lugar da Ribeira Quente, freguesia da Mãe de Deus da Vila da Povoação, Distrito de Ponta Delgada e com residência habitual ali, requerem a Vossa Excelência se digne criar uma freguesia neste lugar nos termos do artigo 9º do Código Administrativo e com os fundamentos que passam a expor:

1º- Tem a Ribeira Quente 1768 habitantes pelos resultados provisórios do requerimento de 1940.
2º- Conta obter receita ordinária anual de cerca de 2.000$00, a qual é suficiente para ocorrer aos seus encargos.
3º- Dista da sede de Freguesia (Vila da Povoação) 15 quilómetros e da freguesia mais próxima (Furnas) 8 quilómetros.
4º- Para registos de nascimento e casamentos sofrem os interessados grandes despesas e demoras para irem ao Registo Civil daquela Vila, e tratando-se de óbitos mais dispendiosa e morosa se torna, por isso, quem tem de ir à Vila obter certificado de óbito e às Furnas para chamar o médico assistente para vir verificar o óbito. Além disso é frequente precisar esta população de atestados do Regedor e de certificados da Conservatória do Registo Civil e para isso tem de percorrer trinta quilómetros, ida e volta, com a agravante de não haver carreira de camionetas, nem possibilidade de a estabelecer.
5º- É indispensável haver na Ribeira Quente autoridade judicial, Juiz de paz, além da polícia para manter a ordem, e Casa de Pescadores, visto na Ribeira Quente a maioria dos homens viverem da pesca.
6º- Com a criação desta freguesia não fica a freguesia de origem (Povoação) privada dos recursos indispensáveis à sua manutenção.
7º- Existem neste lugar pessoas aptas ao desempenho das funções administrativas em vigor suficientes para assegurar a renovação da Junta de Freguesia.
8º- Todas as vantagens e comodidades se conseguiriam e os incovenientes, despesas e aborrecimentos desapareceriam com a criação desta Freguesia, que os abaixo assinados confiadamente esperam por ver a sua principal aspiração, que certamente o Estado Novo satisfará atento o interesse que sempre tem tomado pelo bem dos povos e da Nação.
A Bem da Nação.

Ribeira Quente, 18 de Junho de 1941

COMPLEMENTO HISTÓRICO

A Ribeira Quente nasceu de forma identificada, por volta da segunda metade do século 17.
Mas, afinal, quem foram aqueles que formaram a comunidade sedentária deste lugar?
Qualquer tentativa para encontrar esta enigmática origem não pode passar além do campo das suposições, a não ser que, por mero atrevimento ou veleidade, alguém possa tirar algumas ilações daquilo que neste trabalho já foi dito.
O povo desta comunidade, posta de parte a faceta veraneante, surgiu pobre e viveu pobre no percurso da sua história agora largamente contada.
Se entrarmos no campo das suposições, baseando-nos em aparências físico-fisionómicas, podemos dizer que o segundo maior grupo étnico da Ribeira Quente, (os Regos) quer pelo seu moreno escuro, quer pelo seu comportamento e compleição, podiam ter tido algo a ver com os Sousas, Arrudas e Monteiros de Santa Maria; com os Botelhos e Bentos de Vila Franca e Povoação Velha, ou mesmo com os Resendes e Bentos do Faial da Terra.
Mas os PEIXOTOS DA RIBEIRA QUENTE, aquele imenso clã que sempre se identificou com o mar e só com o mar?...
Da compleição física entre o mediano e o alto, de temperamento arrebatado e de abarroada discussão que logo se tornava pacífica, era uma gente muito bonita, tanto homens como mulheres.
Com uma pele sardento-rosa-avermelhada, de olhos de um azul vivo e, muito demarcados de qualquer outro tipo de gente - como aquela que se fixou entre a Relva e a Bretanha, mas que nenhum historiador mencionou ou identificou para não ferir a susceptibilidade histórica - os Peixotos da Ribeira Quente eram prolíferos e bravos no mar.
As mulheres daquele clã eram uma espécie de mulheres guerreira, por vezes de altura desmarcada. Quer no trabalho doméstico, quer no do campo ou outros, pelo seu poder físico chamavam-nas de bestas de carga!
Fundamentalmente, os Peixotos da Ribeira Quente foram o protótipo perfeito de gente nórdica.

EMIGRANTES DA RIBEIRA QUENTE NO HAWAII / 1879 - 1883


Passport Records Index
Immigrants from Ribeira Quente to Hawaii, 1879-1883

Joaquim d'Arruda e sua esposa Maria de Jesus
João de Melo Barbosa
João Cabral e sua esposa Maria Josefa
Francisco Cardoso e sua esposa Ana Joana
Joaquim da Costa
António Jacinto
Manoel Leite e sua esposa Maria José
João Vieira Linhaus e sua esposa Maria Rosa
Manuel Linhares
Maria da Conceição Bonito
Manoel de Medeiros e sua esposa Maria Julia
Francisco de Melo e sua esposa Jacinta de Jesus
Manuel Moniz e Antonia Jacinta
Manuel do Rego e sua esposa Ana Emilia
José de Melo Seradio e sua esposa Rosa Emilia Carlota
João da Silva e Mariana de Jesus, Francisca de Jesus e Maria Rosa

Compiled by Melody Lassalle from the book,"Portuguese Immigrants from Azores to Sandwich Isles, 1879-1883: Passport Index", by Robert DeMello. Honolulu : De Mello Publishing Co.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

TRAGÉDIA DE 31 DE OUTUBRO DE 1997


Neste ano de muitas calamidades públicas por todos o Mundo, devido a acções provocadas pela Natureza, esta Ilha de São Miguel sofreu um dos mais longos períodos de chuvas de sempre.
Os solos encharcados foram cuspindo terras que se soltavam, daí os muitos descorrimentos que se deram, alguns de muita gravidade.
Também na Ribeira Quente, na noite de 31 de Outubro de 1997, entre as 3 e as 3 horas e 30 minutos, desprenderam-se das rochas altas volumosos bocados de terras encharcadas que, deslisando vertiginosamente encosta abaixo, vieram arrasar zonas da parte antiga desta localidade, soterrando sob as mesmas, 29 pessoas que dormiam nos seus lares.
Quer pela grandeza das matérias descidas, quer pelas mortes e prejuízos causados, depois do ano de 1630 este foi o mais trágico acontecimento histórico ocorrido na Ribeira Quente.
Os órgãos de informação moderna, como a televisão, deram-lhe a dimensão necessária e muita mais, por isso se criou um imenso movimento de solidariedade humana jamais igualado nos Açores e, por via disso, foram nascendo outros actos de solidariedade humana até mesmo fora dos Açores e país.
Do outro lado do Atlântico, como não podia deixar de ser, os açorianos criaram outros movimentos de angariação de auxílios porque, na realidade, o nível de vida por lá (América e Canadá) era de poder equilibrado, os auxílios foram crescendo de uma forma relativa e muita válida.
Vinte e nove mortes num pequeno aglomerado como a Ribeira Quente, foi algo de muito dramático e chocante.
Entre os vinte e nove mortos, contaram-se:

César Furtado Carvalho, de 76 anos e sua esposa Maria da Glória Pimentel Rego, de 71 anos;

João Vieira de Melo Peixoto, de 67 anos, sua esposa Idalina Cardoso de Melo, de 63 e o filho Helder de 22 anos;

Maria Elvira Correia Pimentel Pacheco, de 36 anos, e seus filhos Magno Filipa, de 16, Carla Patrícia de 18, Leandra Sofia de 7, e Hugo André de 10 anos;

Maria Helena de Melo Peixoto, viúva de 39 anos, morreu juntamente com seus filhos Pedro Miguel de 13, Milton César de 14 e Diogo Alexandre de 8, e ainda um sobrinho desta viúva, que residia em sua companhia, de nome Paulo José da Silva Costa, de 33 anos de idade;

Maria Gilda Costa Vieira, de 62 anos, seu marido José Tavares Ferramenta, de 64 e seu filho Fernando Luís Costa Tavares, de 24, estes últimos, ambos coveiros da freguesia da Ribeira Quente;

Ângelo Couto Linhares, de 64 anos;

António Leite Medeiros, de 50 anos;

Maria de Jesus Linhares Cardoso, de 31 anos e suas filhas Sofia Linhares Cardoso, de 6 anos e Alexandra de apenas 3 semanas;

Aida Maria Amaral Xavier Rosonina, de 26 anos e sua filha Simone Xavier Rosonina, de 2 anos;

Manuel Rosonina e sua esposa Zulmira Oliveira Silva, ambos de 59 anos de idade;

Ilda de Jesus Gonçalo, de 75 anos e sua neta Tatiana Barbosa Vieira.

Porque era noite fechada e tudo se havia consumado em fracções de minutos e nada indicava estar iminente qualquer acontecimento de tamanha natureza, visto que a zona dos corrimentos, no percurso de 367 anos históricos, nunca tinha sido considerada zona de perigo - embora o perigo e os riscos estejam em toda a parte - quaiquer socorros prestados não podiam ser imediatos nem obstariam a que fosse consumada tamanha desgraça.
Completamente isolado, o povoado da Ribeira Quente por efeitos da tempestade, quer por terra quer por mar - visto que os taludes que suportam a modesta estrada (única) de acesso assentam parcialmente sobre o leito da ribeira - tanto os corrimentos de barreiras descidos sobre esta, como os cortes feitos pela mesma devido à força do caudal, contribuiram para que parte destes socorros fossem insuficientes e demorados.
O paredão feito no porto de pescas da Ribeira Quente devido a pressões e aproveitamentos já mencionados, embora fosse insuficiente para quaisquer auxílios vindos do mar, havia cedido a uma tempestade ocorrida a 25 de Dezembro de 1996.
Sem estrada, sem porto de mar, sem telefones nem luz, numa altura tão alucinante, ficou o povo desta localidade em muito mais abandono do que aquele que sofria antes de 1940.