quarta-feira, 10 de setembro de 2008

RIBEIRA QUENTE - ASPECTO CULTURAL 2


Mas porque haviam muitas mais metas a atingir, muitas vertentes para subir e descer, veio a nascer um centro social na Ribeira Quente que foi a pedra fundamental para a grande transformação social que se veio a verificar nesta localidade.
Embora inicialmente improvisado, o hoje verdadeiro Centro Social foi feito no ano de 1996 com auxílios da Câmara Municipal da Povoação, Instituto de Acção Social e Santa Casa da Misericórdia da Povoação.
Este Centro Social - que é a maior obra de vulto depois da Igreja Paroquial - é, na realidade, um valioso marco histórico onde assenta uma sã vida social e cultural abrangente.
A Revolução de Abril não foi o mote visto que já antes havia trabalho feito, mas foi mais uma pedra que veio alicerçar algo que depois foi feito e tornado realidade condicionada: o Porto de mar desta terra esquecida.
Novamente recuando no tempo, vamos verificar que a criação na Vila da Povoação, da "Escola Preparatória Maria Isabel do Carmo Medeiros", instituida, como já foi dito, devido à imensa benemerência de um sacerdote filho desta Vila, e à incansável força de vontade de um outro sacerdote também filho da mesma, que havia sonhado um dia poder ver na sua Vila algo mais do que escolas primárias, foi e é a mais relevante estrutura de sempre que contribuíu para a formação dos jovens do concelho, incluso os da Ribeira Quente.
Como sempre, oportuno e incansável, o Padre Silvino veio a tirar também desta escola, valores que lhe foram incomensuráveis: os das promoções da mocidade ao seu cuidado.
(O Serviço Regional de Estatística do ano de 1991, diz que, naquele ano, a população da Ribeira Quente, que era de 998 habitantes, tinha 496 com a instrução primária, 190 com o Ensino Preparatório, 53 com o Ensino Secundário e dois com outros graus de ensino, que denota um elevado grau de aproveitamento).
O Padre Silvino pertenceu a uma equipa sacerdotal, G.R.P. (Grupo de Reflexão e Acção Pastoral) desde a sua fundação. Serviu-se deste Grupo para reciclar e manter sempre actual a informação sobre problemas de Pastoral.
As múltiplas actividades de ordem pastoral, através de vários movimentos de apostolado existentes na paróquia, fizeram do pároco uma pessoa bastante ocupada.
Em 1994 foi nomeado Ouvidor Eclesiástico da Ouvidoria de Povoação.
Na qualidade de pároco está-lhe inerente a Presidência do Centro Social Paroquial da Ribeira Quente, que ele próprio constituíu como resposta aos múltiplos problemas sociais, bem manifestos na comunidade que oferecia uma imagem de abandono.
Este Centro, em 1986 e 1987, candidatou-se a dois projectos do Fundo Comunitário Europeu (F.S.E.) para Agentes de Desenvolvimento e Animadores Sócio-Culturais, atingindo formandos de todo o concelho.
Em 1995 é Promotor da Iniciativa NOW I e de 1996 a 1999 tem a NOW II de nome PRATIKAS, atingindo vários concelhos da Ilha.
Ainda neste Centro nasce a TERRA-MAR, Associação Para o Desenvolvimento Local.
Em Setembro de 1997 o Centro foi promotor de um Projecto de Luta Contra a Pobreza, para todo o Concelho de Povoação, o qual tomou o nome de VALORIZAR e que se estenderá até ao fim de 1999.
Como consequência de toda esta dinâmica, os Agentes de Desenvolvimento e Animadores Sócio-Culturais, depois de se dirigirem à Câmara Municipal, arrancavam com as Festas Culturais do Concelho, realçando-se na Ribeira Quente as "Festas do Chicharro"; a NOW I implantou no mesmo o "Grupo Folclórico de São Paulo" que hoje tem a sua autonomia bem vinculada; a TERRA-MAR faz um grande festival para o Desenvolvimento Local no Concelho de Povoação, concentrando na Vila a maior parte das forças de expressão económica e cultural, envolvendo todas as freguesias do concelho; cria um balcão de artesanato no Sol-Mar em Ponta Delgada, e candidata-se ao LEADER II com um projecto de nome MADRE, que foi aprovado para atingir a Ribeira Quente na dinâmica de Desenvolvimento Integrado; os Escuteiros que animavam o desporto, permitiram fundar-se a Associação Cultural Desportiva de nome MARÉ - VIVA, que liderou muitos anos as "Festas do Chicharro" e torneios de desporto que movimentaram e ainda hoje movimentam centenas de jovens.

RIBEIRA QUENTE - ASPECTO CULTURAL 1



De uma forma geral, ainda na primeira metade do século passado, os jovens do meio rural estavam condicionados a uma só etapa do caminho da evolução cultural literária.
Atingir um diploma da 4.ª classe da instrução primária era o vértice que se tornava prémio para quem o obtinha, e uma grande satisfação para os pais que nunca o tiveram.
Escolas secundárias, então uma só em Ponta Delgada. As intermediárias também eram inacessíveis devido às mesmas dificuldades sociais de então.
Os pais mais futuristas, quando podiam desviar dos seus fracos recursos algumas economias, mandavam os filhos para o então grande meio que era Ponta Delgada, porque só ali estes podiam transpor a barreira do limitado, e ir mais além em busca de outros sonhos profissionais-culturais.
O ensino intermediário que despontava em Vila Franca do Campo, embora não fosse oficializado, foi parcialmente positivo mas não isento de encargos para os pais dos jovens que vinham de zonas distantes. É que as instituições religiosas também tinham barreiras estanques.
Para alguns jovens do meio rural, depois de concluída a instrução primária, a entrada no Seminário de Angra era uma grande alternativa quando haviam alguns recursos, vontades e auxílios, porque, mesmo falhando as vocações por razões de ordem diversa, os graus de relativa equivalência, embora ainda não igualitários, já permitiam a abertura de muitas portas de promoção.
Quando estavam fechados todos os condicionalismos de promoção social, os pais viam-se obrigados a ensinar as suas profissões aos filhos, por obrigação rotineira.
Os filhos viam-se obrigados a herdar a profissão dos pais, isto com pequenos desvios nas profissões liberais de não grande disparidade. Até mesmo quando os pais exerciam profissões de função pública, em alturas adequadas, estes preparavam os filhos - quando os mesmos possuíam o grau de instrução primária, o tal diploma da 4.ª classe (houve uma 5.ª não durável) - e colocavam-nos nos seus lugares, quando reformados. Para tal bastavam umas antecipadas bajulações e vénias que eram aceitas como formalidade normal.
Naquela altura em que não existiam concursos públicos fosse para o que fosse na função pública, apenas prevalecia o sentimento convicto do normal acto de locação hereditária. Por esta via não ficavam sensibilidades feridas nem sinais de imoralidades exacerbadas.
Como é facil de compreender, a Ribeira Quente era uma terra de pescadores e trabalhadores não classificados, por isso os filhos desta localidade sempre tiveram horizontes limitados.
Como já ficou atrás referido, quando o Padre José Jacinto da Costa conseguiu elevar o lugar da Ribeira Quente a freguesia, a oposição foi forte por parte dos intelectuais da Vila da Povoação, os quais não acreditavam que, na Ribeira Quente houvessem homens capazes de reger uma então simples Junta de Freguesia!
Historicamente, e independentemente de quaisquer dotes de inteligência, tanto Vila Franca como a Povoação entendiam que o povo desta localidade tinha de permanecer eternamente montano e êxul como o foi na sua forma primitiva, embora já fosse, nesta altura da década de quarenta do século XX, um povo capaz de ser gestor dos seus reduzidos recursos.
Mas, para que este período se torne mais elucidativo, é lógico que se mencione o seguinte:
As 4.ªs classes de então, continuadamente trabalhadas, produziam valores inegáveis quer no campo particular quer no oficial (função pública do meio rural). Por isso é que, ainda esta mencionada primeira metade do século passado, nas repartições públicas da Vila da Povoação, nomeadamente na Secretaria Notarial, Registo Civil e Conservatória do Registo Predial, os ajudantes - alguns a desempenhar em periodos longos, os lugares de conservadores - foram profissionais competentes, embora só possuíssem a instrução primária!
O primeiro ajudante do posto do Registo Civil da Ribeira Quente, só possuía essa habilitação literária.
Este posto foi extinto já no período do actual pároco, por se verificar que, por razões óbvias, o mesmo não era viável.
O Padre José Jacinto da Costa - mais conhecido na Povoação por Sr. Padre Mansinho mas, na Ribeira Quente, devido à linguagem idiomática do povo desta localidade, por O SIM PADRE MINSINHO procurou, naquela altura, alterar o curso histórico do anómalo comportamento deste povo subalterno quando posto perante situações de arrogância administrativa. Porém as mudanças foram notórias mas não substânciais devido à situação política prevalecente.
Foi nesta situação de fechado grau cultural, ou limitado grau cultural, que o então jovem Padre Silvino veio encontrar a comunidade da Ribeira Quente.
Embora já levemente melhorada por um edifício escolar do "PLANO CENTENÁRIO", ainda assim continuavam muitas crianças a não ir à escola porque a sua sobrevivência e dos seus familiares dependia mais do trabalho do que da escola - e isto não era por egoísmo dos pais mas sim por velada necessidade.
A abertura dos túneis, embora se julgasse que sim, não alterou certas situações - continuou a não haver transportes colectivos de passageiros para esta localidade porque o povo era muitíssimo pobre - por isso o mesmo continuou a ser um povo fechado no seu limitado espaço vivencial, a do mar largo e pouca terra que lhe não permitia mais do que os mesmos ressequidos lugares.
Historicamente, até então, nesta freguesia só haviam surgido depois da instrução primária, duas vocações sacerdotais; uma que se não completou por razões de força maior, e um professor de instrução primária.
Vendo esta situação de travamento sócio-económico e sócio-cultural, o Rev. Silvino procurou alterá-la.
Apostando numa visão sua, a qual veio a dar frutos positivos, começou a trabalhar a juventude da Ribeira Quente, incorporando-a no Corpo Nacional de Escutas através do Agrupamento 107 de Ponta Delgada - no concelho de Povoação depois do agrupamento da Mocidade Portuguesa fundada na década de 30 do século passado, (durou pouco) mais nada houve em matéria de acção cultural. por isso a Ribeira Quente ficou a ser, nessa altura de filiação escutista, a pioneira do primeiro grupo ecutista no mesmo.


A Acção Católica Rural foi outro passo dado pelo Padre Silvino, a fim de sacudir o pesado marasmo incultural de sempre. É que este sabia, dado os conhecimentos da sua formação, que a formação espiritual tem sempre uma linha paralela que deve ser colmatada, a formação cultural, porque só a partir desta se pode penetrar na vida de recursos materiais indispensáveis.
De referir neste trabalho que dos muitos grupos da Acção Católica Rural na Ilha de São Miguel, subsistiram até aos dias de hoje as Secções da Ribeira Quente, Ribeira das Tainhas e Vila de Rabo de Peixe. O Padre Silvino continua hoje a ser o Assistente Espiritual destas Secções. Não podemos também deixar de referir que em Outubro de 2004 em Assembleia de Ilha da Acção Católica Rural foi eleito para Presidente da Acção católica na Ilha de São Miguel o filho desta terra Márcio Paulo Pimentel Peixoto e reconduzido no mesmo cargo em Assembleia de Ilha realizada em Julho de 2007.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

MOINHOS DA RIBEIRA QUENTE



Moinho do Sr. Luis Linhares
Moinho do Tio Pexia
Moinho do Sr. Manuel Cidade
Moinho do Tio Apelador

RIBEIRA QUENTE, SUA ORIGEM E DESTINO


Como atrás já foi afirmado, e há que repeti-lo: Criado pela força da Natureza no período da formação desta ilha, e talvez modificado por outras razões antes destas ilhas serem conhecidas, o litoral da Ribeira Quente e suas encostas altaneiras, quando formado povoado não o foi por quaisquer pescadores.
A sua história - esta história que está a ser contada - tem fundamentalmente outra origem.
Segundo Gaspar Fructuoso no seu tempo e antes dele, aquele primitivo e mirífico lugar de encostas irregulares que se veio a chamar de Ribeira Quente, já não era virgem. Era sim um lugar onde nasceram algumas fajãs e existia uma longa praia que era utilizada pelos principais da terra, incluindo sacerdotes e outros religiosos, assim como nobres estrangeiros.
Esta classe de veraneantes e utentes da praia e das deliciosas águas térmicas - as da ribeira, as do fundo do mar e as da pequena casacata que nasce sobre a praia na zona da denominada "Rocha Secreta" - era, sem dúvida, uma classe social não miscível com gente de rude trabalho.
Porém, pôs um não longo interregno nos usos e costumes dessa classe privilegiada ou seus descendentes, porque podemos cerificar por dados já citados, que as fajãs tornaram a nascer em melhor qualidade e quantidade e, os veraneantes por isso voltaram.
Historicamente falando, a comunidade piscatória desta localidade só aparece superficialmente nos dados colhidos, passados que eram 160 anos.
Isto é: o predestinado lugar onde existia uma ribeira de águas mornas e praia amena, voltou a ser aquilo que já era anteriormente.
Porque Deus e a Natureza assim o destinaram, pela terceira vez volta a Ribeira Quente a entrar numa nova fase desse destino.
Os habituais veraneantes das Furnas continuavam a procurar, no estio, a amena Praia do Fogo, ao mesmo tempo que outros também o faziam.
A propalação da riqueza das suas areias então limpas e temperadas devido à fenomenal vida vulcânica que só se sente sob os pés dos banhistas quando estes metidos no mar, (na zona nascente do fundo mar), veio a contribuir para que, pela terceira vez na sua história, a Ribeira Quente entrasse no porquê da razão da sua existência como lugar sossegado e ameno, mais vocacionada para o turismo sazão do que para terra de homens do mar.
No começo da década de setenta do passado século já existia uma casa de veraneio alcandorada no princípio das rochas da falésia do atalho da Ponta do Garajau, pertencente à família Franco, velha proprietária de toda a vertente poente do lado da Ribeira do Agrião.
Por volta de 1972, uma família Viveiros de Ponta Delgada, compra na 1.ª Canada José Cruz uma das casas abandonadas por uma família emigrante e, logo depois, um familiar desta compra uma segunda mais acima, na parte poente da igreja. Ainda hoje esta propriedade é identificada com a "CASA DA SENHORA DE LISBOA".
Também aqui na Ribeira Quente, o fenómeno da aquisição de casas deixadas por quem, já há muito, as tinha abandonado por necessidades de sobrevivência, foi acontecendo muito lentamente.
Mas foi a década de oitenta do século XX, mais verdadeiramente a sua segunda metade, que veio revolucionar a vida de veraneio neste povoado.
As modestíssimas habitações passaram a ser procuradas e compradas por preços até exorbitantes; algumas eram adquiridas só pelo espaço que ocupavam, e onde eram erectas outras habitações apropriadas para fins de veraneio. Devido à falta de espaço para o estacionamento dos carros dos novos proprietários e banhistas, então já considerados muitos para tão pequeno espaço, o município da Povoação, com dinheiros comunitários, fez alguns parques de estacionamento sobre a Ponta da Golfeira, que só é conhecida como Ponta do Fogo, enriquecendo toda aquela zona balneária.
Este então grande empreendimento, ao tempo assim considerado, teve início depois do primeiro curso de artífices, designado por F.S.T.S.R.T., que havia começado nas Furnas a 3 de Janeiro de 1987, cujo um dos seus monitores, o de pedreiros, passou simultaneamente a desempenhar essa missão de ensino, ao mesmo tempo que ia construindo a actual muralha da Praia do Fogo, a escada de acesso à praia e os seus balneários mistos, ao cimo, isto já em 1988.
Foram Fundos Comunitários que deram origem a este então grande empreendimento, porque 85% do seu custo foi de origem comunitária. (O Municipio da Povoação custeou, por norma, os outros 15 %).

CANADAS, BECOS, RUAS E ESTRADA DA RIBEIRA QUENTE


Avenida 31 de Outubro
1.ª Canada José Cruz
1.ª Canada Trincheira
2.ª Canada José Cruz
2.ª Canada Trincheira
3.ª Canada José Cruz
Rua da Alegria
Rua Além Ribeira
Chã da Caldeira
Canada do Alexandre
Bairro Alto
Canada Barbosas
Canada Buraco
Bairro da Câmara
Largo Padre Silvino Amaral
Rua Castelo
Rua Comandante Tenreiro
Rua Direita
Rua Dr. Frederico Moniz Pereira
Caminho do Garajau
Adro da Igreja
Rua José de Sousa
Rua dos Moinhos
Rua do Rego D'Água
Rua Outeiro
Canada Padre António
Rua Ponte do Castelo
Avenida da Praia
Estrada Regional
Rua Rego D'Água
Beco da Rua Direita
Beco da Rua Torta
Rua Torta
Deapareceram na Catástrofe de 31 de Outubro de 1997: (Canada dos Tiburcios e Canada da Igreja Velha)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ASPECTO SÓCIO - PAISAGÍSTICO DA RIBEIRA QUENTE


Localizadas - e aqui o verdadeiro chamariz e ineditismo - em estreitos labirintos onde só o caminhar humano se sentia e o sossego era permanente nestes espaços os novos proprietários criavam facilidade de contactos e faziam rápidas amizades com os naturais. Tudo isto contribuíu para que o povoado da Ribeira Quente fosse procurado por ser um lugar atractivo de velado sossego e paz. Ainda ali se tinha a plena e absoluta certeza de que, deixando as chaves nas portas, as suas casas não seriam violadas.
Ao abrigo de uma então situação política, cujos partidos namoravam os habitantes das pequenas povoações como a Ribeira Quente, e sabedora dessa vocação partidária, a Junta de Freguesia de São Paulo desta localidade, resultante das primeiras eleições do após primeiro governo regional, sem dúvida composta por gente humilde mas inteligente que, sem dúvida, amava mais a sua terra do que os partidos políticos, foi, com certo orgulho, tentando melhorar o aspecto físico-social da sua terra de nascimento. Isto no percurso dos anos.
Os seus velhos labirintos e canadas foram, pomposamente, sendo toponimicamente alterados para ruas; por isso surgiram muitas novidades.
No lado mais recuado da zona do Fogo, a "CANADA DOS BARBOSAS" no sopé do Pico Pirâmide, uma das velhíssimas artérias do lugar, recebeu, pela primeira vez, uma placa em cerâmica com a mesma designação; mas, logo a seguir, com começo no litoral ou "RUA DO CASTELO", a curta canada em forma de esquadro, que logo ali acaba - onde a primeira Junta de Freguesia da Ribeira Quente construíu a sua primeira e grande obra monumental, os lavadouros do Fogo, para evitar que as mulheres daquela zona tivessem de calcorrear, de cesto na cabeça, cerca de um quilómetro para poder lavar as suas modestas roupas no único lugar onde então havia água suficiente, na ribeira da Ribeira - também foi promovida a "RUA REGO D'ÁGUA" e, logo mais adiante, uma outra canada foi elevada a "RUA NOVA DO RÊGO".
Mas a artéria mais espectacular da zona do Fogo ou Albufeira, é a "1.ª CANADA JOSÉ CRUZ", que logo se quebra após a sua entrada, e se ramifica em esquadrilhas de percurso relativamente apertados, ora subindo na direcção poente, norte e nascente, mas com uma só saída para a "RUA DA ALEGRIA"!
Este labirinto é o mais inédito.
Esta riqueza antiga mostra-nos o denodo com que foram procuradas pequenas parcelas irregulares de terrenos para se construir um refúgio quando o mar ia roubando a terra!
Também a "CANADA DA IGREJA VELHA" foi promovida a rua e, mais para o lado da Ribeira, a "CANADA DA CHARUTA" virou "RUA DA TRINCHEIRA" por alusão a algo que ali foi feito na Segunda Guerra Mundial.
A "RUA DO PADRE ANTÓNIO", ainda na década de quarenta era a "CANADA DAS PEIXOTAS", um quadricular e curto acesso que parte da "RUA DIREITA" para o litoral e que é mais um sinal de um passado de violenta simplicidade e pobreza.
Se se não pode chamar à "RUA DIREITA", porque esta também é estreita e irregular, de a melhor rua da zona da Ribeira, pois a que parte do porto para norte, junto à margem da ribeira é que o é, não se pode deixar de dizer que, na realidade, esta deve ter sido o primeiro troço de caminho que foi criado pelos pescadores da Ribeira Quente, no período da sua formação como homens do mar.
A riqueza da "RUA TORTA", quer pela sua designação quer pela sua estreiteza, mostra-nos também algo que transmite a razão da sua existência.
Todos estes antigos atalhos, cujas casas passaram a ter água e saneamento básico em data recente, formam o verdadeiro atractivo que prende os visitantes que aqui vêm.
(O casario do lado nascente da ribeira, em relação ao passado, é bastante destoante. Foi um recurso).
Como património social devia ter sido respeitado, naquele lado, o "MOINHO DO APELADOR".

terça-feira, 2 de setembro de 2008

PORTOS DE MAR DO CONCELHO DA POVOAÇÃO


Uma das razões da morte prematura do concelho de Povoação, além do abandono dos seus povoados, foi a falta de portos de mar, sempre evidente.
Historicamente encravada, como a Ribeira Quente e Faial da terra, a Vila da Povoação, a rasar o mar, nunca teve quaisquer estruturas portuárias.
A motorização dos seus barcos de pesca e a anteriro motorização do seu último barco de cabotagem, foram a razão do seu desaparecimento.
A Ribeira Quente, porque quase só vivia da pesca, ao motorizar os seus barcos de boca aberta, ficou perante o dilema de vir a ter graves problemas futuros, porque varar ou arriar um barco motorizado de já maior dimensão, não podia continuar como antes, ao sabor do incerto.
Os seus rogos nunca foram ouvidos por qualquer entidade governativa, embora algumas soubessem que a Ribeira Quente depois de identificada, como povoado, sempre havia sido, e era, uma zona da ilha que vivia quase exclusivamente da pesca.
Na Povoação, sede do seu concelho, todas as tentativas nesse sentido foram infrutíferas e desolantes para os pescadores da Ribeira Quente.
Mantinha-se ali, desde há muito, uma curta e pequena rampa de varagem de pedra rústica que, na maioria do tempo, ora se cobria com seixos de pedra roliça, ora com areia sazão.
Já dentro do período da Revolução de Abril, os pescadores desta localidade, também compreenderam que nos períodos de reboliço político, por vezes, se podem conseguir coisas que, em situações normais, nunca se conseguem.
Sob a orientação moral do seu pároco, o Padre Silvino, se constituíram uma Comissão Reivindicativa, a fim de aproveitar a então natural tendância revolucionária para concessões.
Esta comissão, sempre acompanhada de perto pelo seu prestigiado pastor, foi constituída em Setembro do ano de 1975.
Emcabeçada pelo então jovem professor das Lajes do Pico, Carlos Ávila, que ali leccionava o Ciclo Preparatório T. V. conhecido como telescola, foi este o escolhido devido ao seu fácil poder de comunicação e expressão, já que os pescadores, embora bastante maturos, logicamente, iam ter muitas dificuldades.
Cientes de que em Ponta Delgada se não conseguiria nada em matéria reivindicativa, depois de contactos tidos com o então Presidente da Junta Governativa dos Açores, general Altino de Magalhães, pensaram ir a Lisboa a fim de expôr a sua velha situação.
Esta Comissão Reivindicativa era composta por:
Carlos Ávila
João Vieira Melo Peixoto (João Balaia)
António Rita Amaral (Sacadura)
António do Rego Braga
José Francisco Gonçalo Lima (José Faia)
Carlos Manuel Couto
João Canhoto
José Baieta
e José Bezuguinho
Por razões óbvias, só foram a Lisboa: o professor Carlos Ávila, como cabeça da comissão, João Balaia, António Sacadura, António Braga e José Faia. Esta deslocação ocorreu em Julho de 1976.
Foram transportados em avião militar conseguido pelo general Magalhães, tendo sido este também, quem conseguiu que esta comissão fosse recebida em Lisboa pelo ao tempo Director Geral dos Portos, o Eng. Mulhõs de Oliveira.
A deslocação foi positiva visto que, nesta mesma altura, depois do projecto aprovado como previsto, a obra foi adjudicada à Firma Edimar de Setúbal pela importância de cerca de 12.000 contos, então valor muito significativo.
Esta obra foi iniciada neste mesmo ano, e concluída no ano seguinte, 1977.
Por determinação do Governo da Nação, depois do molhe concluído, este passou então a ser propriedade do Governo da República e da Direcção Geral dos Portos.
Embora não houvessem, naquela altura ou tempo, tantas facilidades telefónicas, como hoje, para a Ribeira Quente, houveram em quantidade suficiente para poder transmitir a alguns membros da Comissão Reivindicativa, saudações pouco amigáveis, muito próprias daquela época de ebulição.
A propalação da riqueza amena da Ribeira Quente continuava o seu curso, vindo esta a dar o grande impulso para o reajustamento de uma histórica fase enfática de um passado distante que havia morrido desde há muito, porque o mar, amigo e inimigo, assim havia desejado.
Lentamente, o fenómeno da compra de casas abandonadas foi crescendo: As modestíssimas habitações passaram a ser procuradas, inicialmente, por preços correspondentes ao seu real valor de casas em degradação, algumas destas apenas adquiridas pelo simples espaço que ocupavam, não pelo valor da sua construção, porque eram apenas um montão de pedras em paredes sem consistência alguma.
Mas a fenomenal e célebre mudança do aspecto sócio-paisagístico da freguesia da Ribeira Quente, não teria acontecido assim tão rapidamente, só pela existência da sua praia e das casas abandonadas. Houveram outras razões, como a de já alguns pescadores poderem dar um melhor aspecto às suas modestas habitações. Mas a razão mais forte foi a do aparecimento de uma população que se fez ambulante, por ter comprado as rudimentares e velhas habitações abandonadas por força da emigração.