quarta-feira, 10 de setembro de 2008

RIBEIRA QUENTE - ASPECTO CULTURAL 1



De uma forma geral, ainda na primeira metade do século passado, os jovens do meio rural estavam condicionados a uma só etapa do caminho da evolução cultural literária.
Atingir um diploma da 4.ª classe da instrução primária era o vértice que se tornava prémio para quem o obtinha, e uma grande satisfação para os pais que nunca o tiveram.
Escolas secundárias, então uma só em Ponta Delgada. As intermediárias também eram inacessíveis devido às mesmas dificuldades sociais de então.
Os pais mais futuristas, quando podiam desviar dos seus fracos recursos algumas economias, mandavam os filhos para o então grande meio que era Ponta Delgada, porque só ali estes podiam transpor a barreira do limitado, e ir mais além em busca de outros sonhos profissionais-culturais.
O ensino intermediário que despontava em Vila Franca do Campo, embora não fosse oficializado, foi parcialmente positivo mas não isento de encargos para os pais dos jovens que vinham de zonas distantes. É que as instituições religiosas também tinham barreiras estanques.
Para alguns jovens do meio rural, depois de concluída a instrução primária, a entrada no Seminário de Angra era uma grande alternativa quando haviam alguns recursos, vontades e auxílios, porque, mesmo falhando as vocações por razões de ordem diversa, os graus de relativa equivalência, embora ainda não igualitários, já permitiam a abertura de muitas portas de promoção.
Quando estavam fechados todos os condicionalismos de promoção social, os pais viam-se obrigados a ensinar as suas profissões aos filhos, por obrigação rotineira.
Os filhos viam-se obrigados a herdar a profissão dos pais, isto com pequenos desvios nas profissões liberais de não grande disparidade. Até mesmo quando os pais exerciam profissões de função pública, em alturas adequadas, estes preparavam os filhos - quando os mesmos possuíam o grau de instrução primária, o tal diploma da 4.ª classe (houve uma 5.ª não durável) - e colocavam-nos nos seus lugares, quando reformados. Para tal bastavam umas antecipadas bajulações e vénias que eram aceitas como formalidade normal.
Naquela altura em que não existiam concursos públicos fosse para o que fosse na função pública, apenas prevalecia o sentimento convicto do normal acto de locação hereditária. Por esta via não ficavam sensibilidades feridas nem sinais de imoralidades exacerbadas.
Como é facil de compreender, a Ribeira Quente era uma terra de pescadores e trabalhadores não classificados, por isso os filhos desta localidade sempre tiveram horizontes limitados.
Como já ficou atrás referido, quando o Padre José Jacinto da Costa conseguiu elevar o lugar da Ribeira Quente a freguesia, a oposição foi forte por parte dos intelectuais da Vila da Povoação, os quais não acreditavam que, na Ribeira Quente houvessem homens capazes de reger uma então simples Junta de Freguesia!
Historicamente, e independentemente de quaisquer dotes de inteligência, tanto Vila Franca como a Povoação entendiam que o povo desta localidade tinha de permanecer eternamente montano e êxul como o foi na sua forma primitiva, embora já fosse, nesta altura da década de quarenta do século XX, um povo capaz de ser gestor dos seus reduzidos recursos.
Mas, para que este período se torne mais elucidativo, é lógico que se mencione o seguinte:
As 4.ªs classes de então, continuadamente trabalhadas, produziam valores inegáveis quer no campo particular quer no oficial (função pública do meio rural). Por isso é que, ainda esta mencionada primeira metade do século passado, nas repartições públicas da Vila da Povoação, nomeadamente na Secretaria Notarial, Registo Civil e Conservatória do Registo Predial, os ajudantes - alguns a desempenhar em periodos longos, os lugares de conservadores - foram profissionais competentes, embora só possuíssem a instrução primária!
O primeiro ajudante do posto do Registo Civil da Ribeira Quente, só possuía essa habilitação literária.
Este posto foi extinto já no período do actual pároco, por se verificar que, por razões óbvias, o mesmo não era viável.
O Padre José Jacinto da Costa - mais conhecido na Povoação por Sr. Padre Mansinho mas, na Ribeira Quente, devido à linguagem idiomática do povo desta localidade, por O SIM PADRE MINSINHO procurou, naquela altura, alterar o curso histórico do anómalo comportamento deste povo subalterno quando posto perante situações de arrogância administrativa. Porém as mudanças foram notórias mas não substânciais devido à situação política prevalecente.
Foi nesta situação de fechado grau cultural, ou limitado grau cultural, que o então jovem Padre Silvino veio encontrar a comunidade da Ribeira Quente.
Embora já levemente melhorada por um edifício escolar do "PLANO CENTENÁRIO", ainda assim continuavam muitas crianças a não ir à escola porque a sua sobrevivência e dos seus familiares dependia mais do trabalho do que da escola - e isto não era por egoísmo dos pais mas sim por velada necessidade.
A abertura dos túneis, embora se julgasse que sim, não alterou certas situações - continuou a não haver transportes colectivos de passageiros para esta localidade porque o povo era muitíssimo pobre - por isso o mesmo continuou a ser um povo fechado no seu limitado espaço vivencial, a do mar largo e pouca terra que lhe não permitia mais do que os mesmos ressequidos lugares.
Historicamente, até então, nesta freguesia só haviam surgido depois da instrução primária, duas vocações sacerdotais; uma que se não completou por razões de força maior, e um professor de instrução primária.
Vendo esta situação de travamento sócio-económico e sócio-cultural, o Rev. Silvino procurou alterá-la.
Apostando numa visão sua, a qual veio a dar frutos positivos, começou a trabalhar a juventude da Ribeira Quente, incorporando-a no Corpo Nacional de Escutas através do Agrupamento 107 de Ponta Delgada - no concelho de Povoação depois do agrupamento da Mocidade Portuguesa fundada na década de 30 do século passado, (durou pouco) mais nada houve em matéria de acção cultural. por isso a Ribeira Quente ficou a ser, nessa altura de filiação escutista, a pioneira do primeiro grupo ecutista no mesmo.


A Acção Católica Rural foi outro passo dado pelo Padre Silvino, a fim de sacudir o pesado marasmo incultural de sempre. É que este sabia, dado os conhecimentos da sua formação, que a formação espiritual tem sempre uma linha paralela que deve ser colmatada, a formação cultural, porque só a partir desta se pode penetrar na vida de recursos materiais indispensáveis.
De referir neste trabalho que dos muitos grupos da Acção Católica Rural na Ilha de São Miguel, subsistiram até aos dias de hoje as Secções da Ribeira Quente, Ribeira das Tainhas e Vila de Rabo de Peixe. O Padre Silvino continua hoje a ser o Assistente Espiritual destas Secções. Não podemos também deixar de referir que em Outubro de 2004 em Assembleia de Ilha da Acção Católica Rural foi eleito para Presidente da Acção católica na Ilha de São Miguel o filho desta terra Márcio Paulo Pimentel Peixoto e reconduzido no mesmo cargo em Assembleia de Ilha realizada em Julho de 2007.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

MOINHOS DA RIBEIRA QUENTE



Moinho do Sr. Luis Linhares
Moinho do Tio Pexia
Moinho do Sr. Manuel Cidade
Moinho do Tio Apelador

RIBEIRA QUENTE, SUA ORIGEM E DESTINO


Como atrás já foi afirmado, e há que repeti-lo: Criado pela força da Natureza no período da formação desta ilha, e talvez modificado por outras razões antes destas ilhas serem conhecidas, o litoral da Ribeira Quente e suas encostas altaneiras, quando formado povoado não o foi por quaisquer pescadores.
A sua história - esta história que está a ser contada - tem fundamentalmente outra origem.
Segundo Gaspar Fructuoso no seu tempo e antes dele, aquele primitivo e mirífico lugar de encostas irregulares que se veio a chamar de Ribeira Quente, já não era virgem. Era sim um lugar onde nasceram algumas fajãs e existia uma longa praia que era utilizada pelos principais da terra, incluindo sacerdotes e outros religiosos, assim como nobres estrangeiros.
Esta classe de veraneantes e utentes da praia e das deliciosas águas térmicas - as da ribeira, as do fundo do mar e as da pequena casacata que nasce sobre a praia na zona da denominada "Rocha Secreta" - era, sem dúvida, uma classe social não miscível com gente de rude trabalho.
Porém, pôs um não longo interregno nos usos e costumes dessa classe privilegiada ou seus descendentes, porque podemos cerificar por dados já citados, que as fajãs tornaram a nascer em melhor qualidade e quantidade e, os veraneantes por isso voltaram.
Historicamente falando, a comunidade piscatória desta localidade só aparece superficialmente nos dados colhidos, passados que eram 160 anos.
Isto é: o predestinado lugar onde existia uma ribeira de águas mornas e praia amena, voltou a ser aquilo que já era anteriormente.
Porque Deus e a Natureza assim o destinaram, pela terceira vez volta a Ribeira Quente a entrar numa nova fase desse destino.
Os habituais veraneantes das Furnas continuavam a procurar, no estio, a amena Praia do Fogo, ao mesmo tempo que outros também o faziam.
A propalação da riqueza das suas areias então limpas e temperadas devido à fenomenal vida vulcânica que só se sente sob os pés dos banhistas quando estes metidos no mar, (na zona nascente do fundo mar), veio a contribuir para que, pela terceira vez na sua história, a Ribeira Quente entrasse no porquê da razão da sua existência como lugar sossegado e ameno, mais vocacionada para o turismo sazão do que para terra de homens do mar.
No começo da década de setenta do passado século já existia uma casa de veraneio alcandorada no princípio das rochas da falésia do atalho da Ponta do Garajau, pertencente à família Franco, velha proprietária de toda a vertente poente do lado da Ribeira do Agrião.
Por volta de 1972, uma família Viveiros de Ponta Delgada, compra na 1.ª Canada José Cruz uma das casas abandonadas por uma família emigrante e, logo depois, um familiar desta compra uma segunda mais acima, na parte poente da igreja. Ainda hoje esta propriedade é identificada com a "CASA DA SENHORA DE LISBOA".
Também aqui na Ribeira Quente, o fenómeno da aquisição de casas deixadas por quem, já há muito, as tinha abandonado por necessidades de sobrevivência, foi acontecendo muito lentamente.
Mas foi a década de oitenta do século XX, mais verdadeiramente a sua segunda metade, que veio revolucionar a vida de veraneio neste povoado.
As modestíssimas habitações passaram a ser procuradas e compradas por preços até exorbitantes; algumas eram adquiridas só pelo espaço que ocupavam, e onde eram erectas outras habitações apropriadas para fins de veraneio. Devido à falta de espaço para o estacionamento dos carros dos novos proprietários e banhistas, então já considerados muitos para tão pequeno espaço, o município da Povoação, com dinheiros comunitários, fez alguns parques de estacionamento sobre a Ponta da Golfeira, que só é conhecida como Ponta do Fogo, enriquecendo toda aquela zona balneária.
Este então grande empreendimento, ao tempo assim considerado, teve início depois do primeiro curso de artífices, designado por F.S.T.S.R.T., que havia começado nas Furnas a 3 de Janeiro de 1987, cujo um dos seus monitores, o de pedreiros, passou simultaneamente a desempenhar essa missão de ensino, ao mesmo tempo que ia construindo a actual muralha da Praia do Fogo, a escada de acesso à praia e os seus balneários mistos, ao cimo, isto já em 1988.
Foram Fundos Comunitários que deram origem a este então grande empreendimento, porque 85% do seu custo foi de origem comunitária. (O Municipio da Povoação custeou, por norma, os outros 15 %).

CANADAS, BECOS, RUAS E ESTRADA DA RIBEIRA QUENTE


Avenida 31 de Outubro
1.ª Canada José Cruz
1.ª Canada Trincheira
2.ª Canada José Cruz
2.ª Canada Trincheira
3.ª Canada José Cruz
Rua da Alegria
Rua Além Ribeira
Chã da Caldeira
Canada do Alexandre
Bairro Alto
Canada Barbosas
Canada Buraco
Bairro da Câmara
Largo Padre Silvino Amaral
Rua Castelo
Rua Comandante Tenreiro
Rua Direita
Rua Dr. Frederico Moniz Pereira
Caminho do Garajau
Adro da Igreja
Rua José de Sousa
Rua dos Moinhos
Rua do Rego D'Água
Rua Outeiro
Canada Padre António
Rua Ponte do Castelo
Avenida da Praia
Estrada Regional
Rua Rego D'Água
Beco da Rua Direita
Beco da Rua Torta
Rua Torta
Deapareceram na Catástrofe de 31 de Outubro de 1997: (Canada dos Tiburcios e Canada da Igreja Velha)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ASPECTO SÓCIO - PAISAGÍSTICO DA RIBEIRA QUENTE


Localizadas - e aqui o verdadeiro chamariz e ineditismo - em estreitos labirintos onde só o caminhar humano se sentia e o sossego era permanente nestes espaços os novos proprietários criavam facilidade de contactos e faziam rápidas amizades com os naturais. Tudo isto contribuíu para que o povoado da Ribeira Quente fosse procurado por ser um lugar atractivo de velado sossego e paz. Ainda ali se tinha a plena e absoluta certeza de que, deixando as chaves nas portas, as suas casas não seriam violadas.
Ao abrigo de uma então situação política, cujos partidos namoravam os habitantes das pequenas povoações como a Ribeira Quente, e sabedora dessa vocação partidária, a Junta de Freguesia de São Paulo desta localidade, resultante das primeiras eleições do após primeiro governo regional, sem dúvida composta por gente humilde mas inteligente que, sem dúvida, amava mais a sua terra do que os partidos políticos, foi, com certo orgulho, tentando melhorar o aspecto físico-social da sua terra de nascimento. Isto no percurso dos anos.
Os seus velhos labirintos e canadas foram, pomposamente, sendo toponimicamente alterados para ruas; por isso surgiram muitas novidades.
No lado mais recuado da zona do Fogo, a "CANADA DOS BARBOSAS" no sopé do Pico Pirâmide, uma das velhíssimas artérias do lugar, recebeu, pela primeira vez, uma placa em cerâmica com a mesma designação; mas, logo a seguir, com começo no litoral ou "RUA DO CASTELO", a curta canada em forma de esquadro, que logo ali acaba - onde a primeira Junta de Freguesia da Ribeira Quente construíu a sua primeira e grande obra monumental, os lavadouros do Fogo, para evitar que as mulheres daquela zona tivessem de calcorrear, de cesto na cabeça, cerca de um quilómetro para poder lavar as suas modestas roupas no único lugar onde então havia água suficiente, na ribeira da Ribeira - também foi promovida a "RUA REGO D'ÁGUA" e, logo mais adiante, uma outra canada foi elevada a "RUA NOVA DO RÊGO".
Mas a artéria mais espectacular da zona do Fogo ou Albufeira, é a "1.ª CANADA JOSÉ CRUZ", que logo se quebra após a sua entrada, e se ramifica em esquadrilhas de percurso relativamente apertados, ora subindo na direcção poente, norte e nascente, mas com uma só saída para a "RUA DA ALEGRIA"!
Este labirinto é o mais inédito.
Esta riqueza antiga mostra-nos o denodo com que foram procuradas pequenas parcelas irregulares de terrenos para se construir um refúgio quando o mar ia roubando a terra!
Também a "CANADA DA IGREJA VELHA" foi promovida a rua e, mais para o lado da Ribeira, a "CANADA DA CHARUTA" virou "RUA DA TRINCHEIRA" por alusão a algo que ali foi feito na Segunda Guerra Mundial.
A "RUA DO PADRE ANTÓNIO", ainda na década de quarenta era a "CANADA DAS PEIXOTAS", um quadricular e curto acesso que parte da "RUA DIREITA" para o litoral e que é mais um sinal de um passado de violenta simplicidade e pobreza.
Se se não pode chamar à "RUA DIREITA", porque esta também é estreita e irregular, de a melhor rua da zona da Ribeira, pois a que parte do porto para norte, junto à margem da ribeira é que o é, não se pode deixar de dizer que, na realidade, esta deve ter sido o primeiro troço de caminho que foi criado pelos pescadores da Ribeira Quente, no período da sua formação como homens do mar.
A riqueza da "RUA TORTA", quer pela sua designação quer pela sua estreiteza, mostra-nos também algo que transmite a razão da sua existência.
Todos estes antigos atalhos, cujas casas passaram a ter água e saneamento básico em data recente, formam o verdadeiro atractivo que prende os visitantes que aqui vêm.
(O casario do lado nascente da ribeira, em relação ao passado, é bastante destoante. Foi um recurso).
Como património social devia ter sido respeitado, naquele lado, o "MOINHO DO APELADOR".

terça-feira, 2 de setembro de 2008

PORTOS DE MAR DO CONCELHO DA POVOAÇÃO


Uma das razões da morte prematura do concelho de Povoação, além do abandono dos seus povoados, foi a falta de portos de mar, sempre evidente.
Historicamente encravada, como a Ribeira Quente e Faial da terra, a Vila da Povoação, a rasar o mar, nunca teve quaisquer estruturas portuárias.
A motorização dos seus barcos de pesca e a anteriro motorização do seu último barco de cabotagem, foram a razão do seu desaparecimento.
A Ribeira Quente, porque quase só vivia da pesca, ao motorizar os seus barcos de boca aberta, ficou perante o dilema de vir a ter graves problemas futuros, porque varar ou arriar um barco motorizado de já maior dimensão, não podia continuar como antes, ao sabor do incerto.
Os seus rogos nunca foram ouvidos por qualquer entidade governativa, embora algumas soubessem que a Ribeira Quente depois de identificada, como povoado, sempre havia sido, e era, uma zona da ilha que vivia quase exclusivamente da pesca.
Na Povoação, sede do seu concelho, todas as tentativas nesse sentido foram infrutíferas e desolantes para os pescadores da Ribeira Quente.
Mantinha-se ali, desde há muito, uma curta e pequena rampa de varagem de pedra rústica que, na maioria do tempo, ora se cobria com seixos de pedra roliça, ora com areia sazão.
Já dentro do período da Revolução de Abril, os pescadores desta localidade, também compreenderam que nos períodos de reboliço político, por vezes, se podem conseguir coisas que, em situações normais, nunca se conseguem.
Sob a orientação moral do seu pároco, o Padre Silvino, se constituíram uma Comissão Reivindicativa, a fim de aproveitar a então natural tendância revolucionária para concessões.
Esta comissão, sempre acompanhada de perto pelo seu prestigiado pastor, foi constituída em Setembro do ano de 1975.
Emcabeçada pelo então jovem professor das Lajes do Pico, Carlos Ávila, que ali leccionava o Ciclo Preparatório T. V. conhecido como telescola, foi este o escolhido devido ao seu fácil poder de comunicação e expressão, já que os pescadores, embora bastante maturos, logicamente, iam ter muitas dificuldades.
Cientes de que em Ponta Delgada se não conseguiria nada em matéria reivindicativa, depois de contactos tidos com o então Presidente da Junta Governativa dos Açores, general Altino de Magalhães, pensaram ir a Lisboa a fim de expôr a sua velha situação.
Esta Comissão Reivindicativa era composta por:
Carlos Ávila
João Vieira Melo Peixoto (João Balaia)
António Rita Amaral (Sacadura)
António do Rego Braga
José Francisco Gonçalo Lima (José Faia)
Carlos Manuel Couto
João Canhoto
José Baieta
e José Bezuguinho
Por razões óbvias, só foram a Lisboa: o professor Carlos Ávila, como cabeça da comissão, João Balaia, António Sacadura, António Braga e José Faia. Esta deslocação ocorreu em Julho de 1976.
Foram transportados em avião militar conseguido pelo general Magalhães, tendo sido este também, quem conseguiu que esta comissão fosse recebida em Lisboa pelo ao tempo Director Geral dos Portos, o Eng. Mulhõs de Oliveira.
A deslocação foi positiva visto que, nesta mesma altura, depois do projecto aprovado como previsto, a obra foi adjudicada à Firma Edimar de Setúbal pela importância de cerca de 12.000 contos, então valor muito significativo.
Esta obra foi iniciada neste mesmo ano, e concluída no ano seguinte, 1977.
Por determinação do Governo da Nação, depois do molhe concluído, este passou então a ser propriedade do Governo da República e da Direcção Geral dos Portos.
Embora não houvessem, naquela altura ou tempo, tantas facilidades telefónicas, como hoje, para a Ribeira Quente, houveram em quantidade suficiente para poder transmitir a alguns membros da Comissão Reivindicativa, saudações pouco amigáveis, muito próprias daquela época de ebulição.
A propalação da riqueza amena da Ribeira Quente continuava o seu curso, vindo esta a dar o grande impulso para o reajustamento de uma histórica fase enfática de um passado distante que havia morrido desde há muito, porque o mar, amigo e inimigo, assim havia desejado.
Lentamente, o fenómeno da compra de casas abandonadas foi crescendo: As modestíssimas habitações passaram a ser procuradas, inicialmente, por preços correspondentes ao seu real valor de casas em degradação, algumas destas apenas adquiridas pelo simples espaço que ocupavam, não pelo valor da sua construção, porque eram apenas um montão de pedras em paredes sem consistência alguma.
Mas a fenomenal e célebre mudança do aspecto sócio-paisagístico da freguesia da Ribeira Quente, não teria acontecido assim tão rapidamente, só pela existência da sua praia e das casas abandonadas. Houveram outras razões, como a de já alguns pescadores poderem dar um melhor aspecto às suas modestas habitações. Mas a razão mais forte foi a do aparecimento de uma população que se fez ambulante, por ter comprado as rudimentares e velhas habitações abandonadas por força da emigração.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

EMIGRAÇÃO E DESPOVOAMENTO DA RIBEIRA QUENTE


Devido ao fenómeno eruptivo ocorrido em 1957/58, na ilha do Faial, surgiu dentro da Comunidade Açoriana da América do Norte um grande movimento de solidariedade humana.
Este movimento não tinha, em primeiro plano, como finalidade, o costumeiro hábito de angariação de roupas, géneros alimentícios ou grande verbas em dinheiro, mas sim, procurar, dentro da sua limitada capacidade de influência sócio-política, fazer algo para que o então muito influente senador estadual pelo Estado de Massachusetts, John F. Kennedy - que viria a ser o malogrado 35.º Presidente dos Estados Unidos da América - fizesse passar na imensa câmara legislativa federal, no senado, uma Lei de Imigração Excepcional que permitisse aos atingidos pelos acontecimentos sismo-eruptivos do Faial, a concessão de um visto de entrada com fins permanentes nos Estados Unidos fora da quota que era atribuída anualmente a todo o território português incluindo o então colonial.
Dentro do contexto lógico das leis de imigração americanas, Portugal não era um país de concessão de vistos preferenciais, porque o emigrante português não era preferencialmente classificado, mas sim um emigrante que procurava recursos de sobrevivência não obtidos na sua pátria. Mas a Colónia Açoriana na América era relativamente grande, não por ter sido criada originalmente ao abrigo de leis legais, mas sim pela livre opção de fuga.
Note-se: ainda naquela altura da erupção, o número de vistos de emigração que eram concedidos anualmente a Portugal (para toda a sua extensão territorial, incluindo a colonial), era da ordem dos 300 vistos que logo eram absorvidos pelas primeiras preferências; cônjuges, pais e filhos menores, os quais, quando o chamamento não era feito por cidadão americano, natural ou naturalizado, a concessão de um visto de entrada podia levar alguns anos.
Mas, embora não sendo a Comunidade Açoriana da América uma grande comunidade de lingua portuguesa dentro do imenso espaço linguístico da América, na verdade, nas zonas de maior densidade de gente nossa como por exemplo nas cidades de New Bedford e Fall River, onde a comunidade mais se identificava, já existiam então algumas influências políticas de origem açoriana, ou mista, que abiam ir buscar ao lugar certo, uma mão caridosa para certas situações relevantes.
Os órgãos de comunicação social falada ou escrita, como o então diário "Portuguese Daily News", deram a necessária dimensão da tragédia e, de tal modo o fizeram, que atá o "Standard Times" - grande jornal que se publicava duas vezes diariamente, em New Bedford - também se envolveu no acontecimento por ester perfeitamente dentro daquilo que significava a comunidade de língua portuguesa naquela sua área.
Devido à intercessão do então senador John F. Kennedy, não só os sinistrados dos Capelinhos vieram a usufruir de fáceis vistos de entrada naquele imenso país americano, como também todos os cidadãos do território português. É que, dali avante, o número de vistos anuais não consumidos pelos países desenvolvidos da Europa, passaram a ser proporcionalmente divididos por nações como Portugal, Itália e Grécia, países nunca beneficiados pelas leis de imigração americanas.
Como já foi referido, desde há muito, ou pelo menos desde fins dó século XIX, existia em New Bedford, um número significativo de filhos da Ribeira Quente e descendentes destes, alguns já cruzados com gente de outras origens.
De certo modo estavam quase circunscritos à parte sul desta cidade americana, mais precisamente entre a Rua Rivet, a norte, a Cove Road (estrada) a sul, County Street a nascente e Crapo Street a poente.
Esta zona citadina ainda na década de 50 era uma zona profundamente delapidada, onde existiam muitas habitações em estado de ruína.
Porque o povo do lugar da Ribeira Quente de forma alguma vislumbrava algo que no futuro pudesse vir a alterar a sua difícil situação social, aproveitando a oportunidade da concessão de fáceis vistos para as antigas cartas de chamada, que jamais podiam ter sido váliadas se não tivessem acontecido as ocorrências do Faial, por essa razão foi emigrando, como o fizeram então muitos açorianos.
Notoriamente, a sua fização na América, foi sendo feita na zona atrás mencionada, mais precisamente nas ruas Independent, Katherine, Winsor, Mosher, Division, Jouvette e Nelson, ruas estas enquadradas nos quarteirões existentes entre as ruas e estrada atrás mencionadas.
Esta foi sendo lentamente recuperada; muitos dos imigrantes oriundos da Ribeira Quente fizeram-se proprietários de casas; alguns estabeleceram-se com comércio de produtos do mar, mas depois também de outros.
Nota curiosa: foram aparecendo nesta área alguns pequenos quintais que tinham sido jardins desde há muito abandonados. O pé de milho, a couve e a salsa, eram o bilhete de identificação de origem!
Como já foi referido, no ano de 1965 a população desta freguesia havia atingido o ponto culminante da sua história populacional, 2.421 habitante.
Era a maior densidade por quilometro quadrado nos açores.
Cinco anos depois, devido ao fluxo migratório, a sua população já era da ordem dos 1.861 habitantes. Tinha perdido, este pequeno meio, 560 pessoas.
Depois disto, e já no recenseamento feito no ano de 1991, aparece a população desta localidade drasticamente reduzida para apenas 998 pessoas.
Este vultuoso desmembramento do corpo social de modo algum prejudicou a vida económica desta comunidade; pelo contrário, tornou-se a correcção certa de uma coisa que estava humanamente mal, a de ter a Ribeira Quente, que era um restrito espaço, muitíssima gente a mais.
Materialmente nada perdeu este povoado. Socialmente, também não. Antes pelo contrário, como se veio a verificar, este acontecimento foi algo como um ajuste concedido por acção divina: quem partiu melhorou substancialmente a sua vida; quem ficou veio a verificar que, por razões óbvias, muita coisa se alterou significativamente em prol da Ribeira Quente por motivo da reocupação das casas abandonadas.
A Igreja de São Paulo perdendo paroquianos não os perdeu, porque nasceu um forte elo de ligação que deu continuidade ao apego dos ausentes ao seu padre e à sua igreja, mantendo esse laço de amizade sempre forte e indestrutível.
E isto é uma indesmentível característica do povo da Ribeira Quente.