sexta-feira, 29 de agosto de 2008

ANO DE 1955 / PADRE ANTERO JACINTO MELO

Depois de uma demorada mas benéfica permanência, e de um profícuo trabalho na defesa do povo da Ribeira Quente, paralelamente com a sua obrigação de pastor da Igreja de São Paulo, da Freguesia da Ribeira Quente, por obediência (as transferências não eram facultativas), ao então Chefe da Igreja nos Açores, D. Manuel Afonso de Carvalho, é colocado o Padre José Jacinto da Costa na freguesia das Feteiras do Sul desta ilha de São Miguel.
Este 36.º Bispo dos Açores, numa altura de transferências sacerdotais, colocou este grande servidor da sua diocese nesta paróquia quase com população idêntica à da Ribeira Quente. Foram 15 anos de insistentes canseiras em prol de um povo secularmente esquecido e abandonado.
Ficou o povo da freguesia a dever-lhe o ter passado o seu lugar a freguesia; a findar de uma injustiça que se estava a praticar contra os pescadores da Ribeira Quente (a do barracão); 3 novas salas de aulas; o posto de Registo Civil e um muito disciplinado arquivo paroquial.
O Padre "Minsinho" (na então linguagem do povo simples do lugar), não só era insistente quando procurava desfazer injustiças, mas também penetrante e oportuno de modo a desmantelar certas situações negativas.
Ele, Padre José, também sentia no seu coração o sentir profundo dos homens do mar.
Filho de um também José Jacinto da Costa que foi afoito armador de cabotagem em Vila Franca do Campo, proprietário do "São Pedro Gonçalves" mais conhecido por o "Barco do Mansinho", não desconhecia o pastor da Ribeira Quente, que aquele povo bom e simples precisava de permanente ajuda social-burocrática, porque a maioria das vezes não era acarinhado por quem dele tirava proveito sem se arriscar no mar.
Também devemos ser realistas e devemos reconhecer, se não tivesse existido o meticuloso Padre Mansinho, não teriam existido preciosos dados acerca do passado da Ribeira Quente, mormente a partir de 1900.
Por ordem desse sistema rotineiro de transferências de sacerdotes, deu-se pela primeira vez um acontecimento antes nunca ocorrido:
Para substituir o atrás mencionado padre, é colocado na paróquia de São Paulo da Ribeira Quente um sacerdote filho nativo desta localidade, o Padre Antero Jacinto de Melo (primeiro histórico).
O povo ressentiu-se com a transferência do seu amigo Padre Mansinho mas rejubilou de alegria quando soube que era o seu conterrâneo, o Padre Antero, quem dali avante passaria, dentro do espaço e do conhecimento zelar não só pelos seus interesses religiosos como sociais - porque foram sempre os sacerdotes colocados na Ribeira Quente, quem o representava em quase todas as circunstâncias delicadas.
Tendo tomado posse desta sua nova paróquia na sua velha terra, a 14 de Setembro deste ano de 1955, coube-lhe então, como homem da Igreja e filho da terra, ser o organizador dos festejos desse ano em honra do seu Senhor São Paulo.
Como se vai ver, não foi demorada a permanência do Padre Antero na sua terra natal.

ANO DE 1953

Porque a situação, após o sismo, se tornou muito grave em matéria de habitações, visto que algumas das casas demolidas não eram recuperáveis, não só pela sua péssima construção notoriamente improvisada, como também por as mesmas se situarem em estreitas veredas inclinadas, a Junta de Freguesia da Ribeira Quente insistiu com as autoridades para que fossem construídas algumas novas casas.
De um modo pouco urbano, foram projectadas vinte habitações para a zona nascente da foz da ribeira. Só seis foram erectas devido a uma comparticipação da Junta Central da Casa dos Pescadores.
Cada um dos moradores a quem foram atribuídas as casas, tiveram de entrar com uma parte do valor da obra, pagando quatro destes cinco mil escudos e, os outros dois, quatro mil escudos.
Por sua vez também a Câmara Municipal da Povoação mandou fazer mais dez casas mais a norte destas primeiras, mas na mesma margem da ribeira.
É o meticuloso Padre Mansinho que nos transmite esse acontecimento:
"Esta empreitada foi adjudicada aos Senhores José Duarte (José da Chica), Júlio Pacheco Simões e Ângelo Dâmaso Vasconcelos da Vila da Povoação no valor de cento e setenta e cimco mil escudos (175.000$00), sendo estas dez casas comparticipadas pelas seguintes repartições de Estado...?"
As retcências ou omissão, mostram-nos que este ilustre servidor da Igreja e do povo da Ribeira Quente, não completou aquilo que tinha para dizer, mas deixou-nos perceber que havia algo que não estava bem: a falta de conexão entre as entidades responsáveis.
Nenhum dos empreiteiros tinha qualquer conhecimento de construção ou urbanização e, só um destes possuía limitados recursos financeiros.
Eram assim, ao tempo, as adjudicações de empreitadas.
Já eram decorridos cerca de sete anos desde que o paredão de protecção da zona litoral entre o porto e o prédio das Vieiras, havia sido parcialmente demolido. É que, não só tinha sido duramente atingido no ano de 1946, mas, também: pela tempestade de 27 de Fevereiro de 1952.
Embora documentalmente se fale em reconstrução na verdade o que foi feito foi uma nova construção mais entrada no lado do mar, porque o primeiro levantado no ano de 1927, desde a zona do porto ao prédio das vieiras, era pobre e sem parapeito.
Esta obra foi feita pelo mesmo empreiteiro das Capelas que construiu o paredão da margem da ribeira depois de feitas as primeiras casas. A partir do porto para poente, a sua extensão ficou com 193 metros.
Continuando neste ano de 1953 a mesma monótona vida de labor em terra e no mar, o povo deste localidade quase não sentia alteração alguma no seu dia-a-dia de sempre. A abertura dos túneis não lhe trouxe as regalias sonhadas. Continuaram a não ter transportes públicos; não havia população flutuante. Apenas em alturas de melhor sorte, maior abundância de pescado (geralmente o sazão chicharro) dava origem a que houvesse um pouco de euforia por parte dos próprios pescadores e os vendilhões locais.
Os habitués vendilhões com seirão e burro, vindos da banda do norte da ilha, também ajudavam a quebrar a monotonia de sempre.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ANO DE 1952

Atingida duramente neste ano, a sempre flagelada pelo mar freguesia da Ribeira Quente, passa novamente por horas de amargura e ansiedade.
A 26 de Junho deste ano de 1952, uma forte catástrofe sísmica atinge fortemente este povoado. As moradias que já eram insuficientes, quer pela sua fraca construção quer pelos materiais até então usados, não resistiram ao forte baloiçar do solo e caíram parcialmente.
Só cerca de dois meses depois, a 2 de Agosto desse ano de tragédia, veio à Ribeira Quente o então Ministro do Interior, Trigo de Negreiros, a fim de observar localmente os já trabalhos em curso. É o sempre atento e oportuno Padre José Mansinho quem, de um modo vago e superficial, faz referências e essa vinda ministerial, dizendo no Livro de Assentos:
"E, assim terminou esta visita ministerial no meio das aclamações deste povo rude e bom".

ANO DE 1950

Ao longo da sua história, só se notaram na Ribeira Quente duas vocações religiosas: uma foi a de João Vieira Jerónimo Junior que não chegou ao sacerdócio, e outra, a de Antero Jacinto de Melo, feito sacerdote neste ano de 1950 - no percurso do tempo, e já no findar do século passado, também se manifestaram outras vocações como a de Luis Manuel do Rego Miúdo, que chegou à Filosofia; Luis Miguel Lima, que atingiu o 5.º ano; João Linhares Costa, que atingiu só o segundo ano e Márcio Paulo Pimentel Peixoto que frequentou a Escola Apostolica Dominicana da Ordem dos Pregadores, concluindo o Secundário.
O Padre Antero foi então, depois da sua Missa Nova celebrada na sua Igreja de São Paulo, colocado no lugar da Covoada.
Depois de um longo interregno de 50 anos, neste ano de 1950 a Ribeira Quente volta a figurar nos Serviços Nacionais de Estatística, como povoado. A primeira vez ocorreu no ano de 1864, 1878, 1890, mas depois da estatística de 1900 desapareceu totalmente e só meio século depois voltou.
A 20 de Junho deste ano de 1950, desta vez como Ministro das Obras Públicas, o engenheiro José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, que sucedeu a Duarte Pacheco no cargo de ministro, visita a Ribeira Quente pela segunda vez. Tinha então esta freguesia 2.126 habitantes.
É o Pdre Mansinho quem descreve este acontecimento:
"Em 20 de Junho, visitou esta freguesia Sua Excelência o Ministro das Obras Públicas, Eng. José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, pelas dezassete horas, acompanhado de uma numerosa comitiva, por alguns engenheiros do seu ministério, tendo estudado demoradamente, "in loc", todas as necessidades desta terra: porto, bairro piscatório, muralha da ribeira do porto dos barcos e ainda a nova estrada para a praia de banhos do Fogo, certificando-se e atendendo com a melhor das atenções ao péssimo estado desta freguesia".
Esta linguagem, embora hoje nos pareça bajulatória, não o era, porque era uma linguagem quase convencional, cujo fecho redundava sempre em novas promessas por parte do lisonjeado, que raramente eram cumpridas.
Embora a necessidade de novas habitações fosse premente, nada resultou desta visita ministerial, isto é:
Não foi feito fosse o fosse no porto da Ribeira Quente; não foi feita nenhuma estrada nova entre a Ribeira e o Fogo, por isso o mar continuou a comer a terra neste percurso do litoral; não foi feito nenhum bairro piscatório nem nenhum paredão de protecção às águas da Ribeira. Por isso, foram as entidades locais, concelhias e de ilha, que deram seguros passos para que algo fosse feito em prol do povo da Ribeira Quente, porque já era grave a situação social em matéria de agregados famíliares, visto que muitos dos velhos e novos casais viviam aboletados em velhos casebres de uma só divisão.
Com dinheiros pedidos ao Fundo de Assistência, do Governo Civil, Junta Geral e Câmara Municipal da Povoação, foram contruídas oito modestas casas cuja empreitada foi adjudicada a um filho deste lugar da Ribeira Quente, ao carpinteiro Diniz de Melo Cidade.
Pouco experiente na matéria de avaliação, a sua proposta de 59.750$00 foi a mais baixa, por isso a empreitada lhe foi concedida.
Obrigado a cumprir com aquilo que estava preceituado no contrato, o mesmo teve de recorrer a um empréstimo de vinte e quatro mil escudos para poder concluir o trabalho, mas teve de emigrar para a Venezuela - ao tempo refúgio de quem ambicionava viver e sonhar - para poder satisfazer o seu grave compromisso.
Porque também o paredão da ribeira era impreterivelmente necessário, foi feito, o mesmo, neste mesmo ano. Embora rudimentar, porque a matéria ciclópica foi assenta sobre velhos alicerses de pedra e barro com mais de 50 anos de existência, este então monumental empreendimento foi adjudicado pela importância de trazentos e sessenta e oito contos (368.000$00), a um eventual empreiteiro das Capelas.

ANO DE 1947

Devido à perda da "Escola do Saraiva", o Padre José Mansinho havia solicitado aos governantes não só uma outra escola, mas também, o aumento de mais uma sala de aulas para o sexo feminino. Esta necessidade foi atendida e a mesma começou a funcionar em Abril deste ano. É que, segundo dados estatísticos feitos por este laborioso sacerdote, desde o ano transacto até ao fecho estatístico anual, a população havia aumentado 49 pessoas, mas das casas, sempre pobres, apenas foram feitas seis unidades!
Continuando a depender apenas do seu inseguro rendimento, sempre bastante pobre, era a Junta de Freguesia que ia, de uma forma bastante periclitante, tentando fazer alguma coisa que demonstrasse que, na realidade, algo se tentava fazer.
Foi por esta construído um lavadouro público na zona do Fogo - embora ainda não existisse água canalizada mas foi aproveitado um pequeno caudal de água insalubre - que o povo bastante louvou, porque realmente era um melhoramento.
Neste ano, a Câmara Municipal da Povoação, por razões óbvias, mandou abrir o ainda hoje actual caminho que liga as traseiras da igreja à praia do Fogo.
Com os túneis a funcionar e a experiência de alguns pescadores desta localidade na pesca industrial, nem por isso houveram notórias transformações nos rendimentos das famílias dos mesmos, porque a pesca então não criava qualquer riqueza, nem mesmo para os industriais.
Quer por efeitos traumáticos - o povo da Ribeira Quente sempre foi muito sensível aos graves acontecimentos - quer pelo não aparecimento nos mares dos Açores por um período de quase sete anos, do atum, o que deu origem a um descontentamento entre pescadores e industriais - a Corretora já possuía em 1947, sete lanchas, a Clara, a Columba, a Santo Cristo, a Santa Rita, a Bárbara Assunção, a Valentina e a Luís Costa, onde alguns pescadores da Ribeira Quente trabalhavam - logicamente sumiram-se neste período, muitos irrealizados sonhos.
Melhor estruturada, a Sociedade Corretora, que já vinha lançada desde 1940/41 em outras experiências sem ser as do mar, ao adquirir em 1944 a fábrica Dias & Dias de Vila Franca, a Salga e Salmoura, a Laurénio Tavares, quando se lançou, em 1944 à construção da fabrica de Rosto do Cão (S. Roque), fê-lo na esperança de ver crescer aquilo que já era promissor, mas que, na realidade, não foi.
Ainda assim foi a única empresa que se pôde equilibrar porque veio mais tarde a alargar a sua frota, desde 1953 até 1965, tendo comprado em 1963 a fábrica da firma Lopes, as fábricas Calheta e Santa Maria. Isto não assegurava o futuro dos pescadores da Ribeira Quente, mas deu origem a que alguns destes tivessem alternativas.
De 1947 a 1950 houve como que um interregno de não iniciativas.

ANO DE 1946 - PESCA DO ALTO MAR E TRAGÉDIA




Incentivados pelas boas perspectivas lançadas ao tempo pelo industrial Lori, e aproveitando não só a experiência alcançada por alguns velhos sábios pescadores do porto da Ribeira Quente, que estiveram ou estavam ao serviço de algumas embarcações de pesca do bonito e atum, do referido industrial dos lados de Santa Clara ou Nordela, mas também a certeza de que arranjariam facilmente tripulações na Ribeira Quente, dois comerciantes desta localidade investiram nesse tipo de embarcações motorizadas, porque o futuro parecia ser promissor.


António Inácio Flor de Lima, homem empreendedor, juntamdo-se a Manuel Pacheco de Medeiros Júnior, da Vila da Povoação, mandou fazer uma embarcação idêntica às do Lori, mesmo na Ribeira Quente, visto que já ali existiam dois valiosos carpinteiros-calafates, o Sousa e o Horácio, ambos com vastos conhecimentos de construcção de barcos de pesca artesanal.


O outro comerciante foi Luiz Linhares de Deus. Este, de parceria com o muito experiente lobo do mar da localidade, José Narciso, também se lançaram na mesma senda.


Este tipo de embarcações veio, de certo modo, revolucionar os velhos costumes dos pescadores da Ribeira Quente, porque lhes abria a porta para a pesca em mar largo.




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No ano de 1946, depois de já há muito exercerem este tipo de pesca industrial, mais chamada de pesca de alto mar, estando estas duas embarcações nas imediações da Ilha de Santa Maria, foram as mesmas apanhadas por uma tremenda tempestade - não existiam meios de comunicação a bordo porque a navegação ainda dependia mais do conhecimento dos mestres das embarcações do que da informação - que começou na noite de 4 para 5 de Outubro deste acima referido ano.


A "Lancha do Narciso" (sempre assim denominada), com este velho timoneiro ao leme, tentou fazer-se ao largo, mas foi impedida pela força do vento e vagas. Tendo sido arrastada na direcção do litoral, veio a despedaçar-se perto do "Calhau da Roupa", situado entre a Ponta do Marvão e o porto daquela ilha.


Por volta das dez horas da manhã do dia 5, a outra embarcação, depois de uma noite de odisseia, entrou espectacularmente na doca de Ponta Delgada.


Morreram dezassete pescadores no porto de Vila do Porto, entre os quais Júlio Bento do Couto, de 44 anos de idade, casado na Ribeira Quente.


No porto de Ponta Delgada, devido a esta tempestade, morreu esmagado entre a muralha e o barco do Anhanha, outro filho da Ribeira Quente, João Rita.


Também nessa noite de tempestade a escola mista conhecida como "Escola do Saraiva" foi levada pelo mar, assim como quase toda a muralha de protecção à mesma, que também protegia o acesso à Ponta do Garajau e dali avante.


A zona estre a Ribeira e o Fogo ficou profundamente cavada e a praia desapareceu porque o mar continuou a buscar o espaço que era seu.


Tinha então a Ribeira Quente uma população de 2070 almas distribuídas por 460 fogos que eram insuficientes, porque alguns dos edifícios não eram habitáveis.


Da visita feita no ano anterior pelo sub-secretário das Obras Públicas nada transpareceu além das tradicionais promessas. Porém, em Fevereiro desse ano trágico, o povo desta localidade recebeu a visita de uma viatura que andava pelos povoados dos Açores, a mostrar, através de uma câmara cinematográfica, a "Viagem Presidencial de Carmona aos Açores em 1941" e, simultaneamente, o filme trágico dos pescadores de Varzim, o "Ala-Arriba" de forte comoção!


E assim se respondia a prementes necessidades deste povo sempre a sofrer um rigoroso destino.


Foi do Livro de Assentos da paróquia que foi tirado este extracto:


"O pároco dirigiu a palavra ao povo pelo microfone, agradecendo ao Governo da Nação a sua amabilidade para tantos que só agora pela primeira vez viam cinema".


E era assim este modesto povo da Ribeira Quente, que nada recebia mas logo agradecia algo que não alterava a sua situação de miséria. Mas a linguagem do seu pároco não podia ser outra porque era assim a tradição...

ANO DE 1943 - AQUISIÇÃO DO PASSAL

Desde há muito que era uma ambição dos servidores da Igreja de São Paulo da Ribeira Quente, terem os párocos casa própria para seu alojamento a fim de não terem de recorrer a particulares, como sempre o fizeram desde que esta localidade passou a ter padre.
Já antes o Padre José Luiz Borges Vieira havia tentando erguer um passal; no entanto não foi possível, por razões óbvias.
Porque o Padre Mansinho, quando se propunha fazer algo de necessidade não se detinha; porque era insistente, embora não possuísse fundos necessários para tal empreendimento; porque a Igreja só havia atingido a importância de 6.923$43 da qual foram subtraídas as percentagens de 769$67 para o fundo diocesano e 360$50 para os indultos Pios, restou apenas para seu fundo de maneio o total de 5.793$67 que não podiam ser tocados, o Padre Mansinho deu a conhecimento ao povo da sua intenção, tendo este resolvido contribuir além dos 3% do valor do pescado que já entregava à Igreja, que era uma importância de manutenção, contribuir com os seus braços para a consecução desse empreendimento.
É do Livro de Assentos da paróquia que foi tirada esta rica passagem:
"Em 10 de Janeiro começou a desterrar-se o lugar do Passal, apareceram 150 mulheres, muitos rapazes, o que tem continuado em vários domingos".
Esta muito evidente nota de amor do povo da Ribeira Quente mostra que a par da pobreza, existia também no mesmo uma profunda riqueza na alma.
A madeira para o Passal, por rogo desse incansável sacerdote, foi oferecida pelos latifundiários das grandes propriedades que cercavam a parte montanhosa do povoado, onde abundavam a acácia, o pinho, o carvalho e o castanho. A criptoméria vinha das matas da zona da "Seladinha".
Depois de ser serrada, toda a madeira foi transportada às costas e à cabeça dos homens, crianças e mulheres da Ribeira Quente, mas tudo isto feito aos domingos.
Mas esta obra não chegou a ser levada a cabo visto que, embora o pároco já tivesse angariado dez mil escudos para a mão-de-obra necessária, o projecto gratuito e os materiais, apareceu a oportuna venda da casa do Dr. João Correia da Silva, que era de veraneio, mas muito apropriada para Passal. Por essa razão esta casa foi adquirida pela Igreja e povo, pela importância de 25.000$00.
Por consentimento diocesano foi autorizada a venda da madeira já adquirida ao então Director Escolar do distrito, professor Moniz Morgado.
Com os dinheiros excedentários foram feitas alterações neste edifício, de modo a este poder servir futuramente como passal.