Atingida duramente neste ano, a sempre flagelada pelo mar freguesia da Ribeira Quente, passa novamente por horas de amargura e ansiedade.
A 26 de Junho deste ano de 1952, uma forte catástrofe sísmica atinge fortemente este povoado. As moradias que já eram insuficientes, quer pela sua fraca construção quer pelos materiais até então usados, não resistiram ao forte baloiçar do solo e caíram parcialmente.
Só cerca de dois meses depois, a 2 de Agosto desse ano de tragédia, veio à Ribeira Quente o então Ministro do Interior, Trigo de Negreiros, a fim de observar localmente os já trabalhos em curso. É o sempre atento e oportuno Padre José Mansinho quem, de um modo vago e superficial, faz referências e essa vinda ministerial, dizendo no Livro de Assentos:
"E, assim terminou esta visita ministerial no meio das aclamações deste povo rude e bom".
Blog sobre a História da Freguesia da Ribeira Quente, Concelho da Povoação, Ilha de São Miguel - Açores.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
ANO DE 1950
Ao longo da sua história, só se notaram na Ribeira Quente duas vocações religiosas: uma foi a de João Vieira Jerónimo Junior que não chegou ao sacerdócio, e outra, a de Antero Jacinto de Melo, feito sacerdote neste ano de 1950 - no percurso do tempo, e já no findar do século passado, também se manifestaram outras vocações como a de Luis Manuel do Rego Miúdo, que chegou à Filosofia; Luis Miguel Lima, que atingiu o 5.º ano; João Linhares Costa, que atingiu só o segundo ano e Márcio Paulo Pimentel Peixoto que frequentou a Escola Apostolica Dominicana da Ordem dos Pregadores, concluindo o Secundário.
O Padre Antero foi então, depois da sua Missa Nova celebrada na sua Igreja de São Paulo, colocado no lugar da Covoada.
Depois de um longo interregno de 50 anos, neste ano de 1950 a Ribeira Quente volta a figurar nos Serviços Nacionais de Estatística, como povoado. A primeira vez ocorreu no ano de 1864, 1878, 1890, mas depois da estatística de 1900 desapareceu totalmente e só meio século depois voltou.
A 20 de Junho deste ano de 1950, desta vez como Ministro das Obras Públicas, o engenheiro José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, que sucedeu a Duarte Pacheco no cargo de ministro, visita a Ribeira Quente pela segunda vez. Tinha então esta freguesia 2.126 habitantes.
É o Pdre Mansinho quem descreve este acontecimento:
"Em 20 de Junho, visitou esta freguesia Sua Excelência o Ministro das Obras Públicas, Eng. José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, pelas dezassete horas, acompanhado de uma numerosa comitiva, por alguns engenheiros do seu ministério, tendo estudado demoradamente, "in loc", todas as necessidades desta terra: porto, bairro piscatório, muralha da ribeira do porto dos barcos e ainda a nova estrada para a praia de banhos do Fogo, certificando-se e atendendo com a melhor das atenções ao péssimo estado desta freguesia".
Esta linguagem, embora hoje nos pareça bajulatória, não o era, porque era uma linguagem quase convencional, cujo fecho redundava sempre em novas promessas por parte do lisonjeado, que raramente eram cumpridas.
Embora a necessidade de novas habitações fosse premente, nada resultou desta visita ministerial, isto é:
Não foi feito fosse o fosse no porto da Ribeira Quente; não foi feita nenhuma estrada nova entre a Ribeira e o Fogo, por isso o mar continuou a comer a terra neste percurso do litoral; não foi feito nenhum bairro piscatório nem nenhum paredão de protecção às águas da Ribeira. Por isso, foram as entidades locais, concelhias e de ilha, que deram seguros passos para que algo fosse feito em prol do povo da Ribeira Quente, porque já era grave a situação social em matéria de agregados famíliares, visto que muitos dos velhos e novos casais viviam aboletados em velhos casebres de uma só divisão.
Com dinheiros pedidos ao Fundo de Assistência, do Governo Civil, Junta Geral e Câmara Municipal da Povoação, foram contruídas oito modestas casas cuja empreitada foi adjudicada a um filho deste lugar da Ribeira Quente, ao carpinteiro Diniz de Melo Cidade.
Pouco experiente na matéria de avaliação, a sua proposta de 59.750$00 foi a mais baixa, por isso a empreitada lhe foi concedida.
Obrigado a cumprir com aquilo que estava preceituado no contrato, o mesmo teve de recorrer a um empréstimo de vinte e quatro mil escudos para poder concluir o trabalho, mas teve de emigrar para a Venezuela - ao tempo refúgio de quem ambicionava viver e sonhar - para poder satisfazer o seu grave compromisso.
Porque também o paredão da ribeira era impreterivelmente necessário, foi feito, o mesmo, neste mesmo ano. Embora rudimentar, porque a matéria ciclópica foi assenta sobre velhos alicerses de pedra e barro com mais de 50 anos de existência, este então monumental empreendimento foi adjudicado pela importância de trazentos e sessenta e oito contos (368.000$00), a um eventual empreiteiro das Capelas.
O Padre Antero foi então, depois da sua Missa Nova celebrada na sua Igreja de São Paulo, colocado no lugar da Covoada.
Depois de um longo interregno de 50 anos, neste ano de 1950 a Ribeira Quente volta a figurar nos Serviços Nacionais de Estatística, como povoado. A primeira vez ocorreu no ano de 1864, 1878, 1890, mas depois da estatística de 1900 desapareceu totalmente e só meio século depois voltou.
A 20 de Junho deste ano de 1950, desta vez como Ministro das Obras Públicas, o engenheiro José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, que sucedeu a Duarte Pacheco no cargo de ministro, visita a Ribeira Quente pela segunda vez. Tinha então esta freguesia 2.126 habitantes.
É o Pdre Mansinho quem descreve este acontecimento:
"Em 20 de Junho, visitou esta freguesia Sua Excelência o Ministro das Obras Públicas, Eng. José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, pelas dezassete horas, acompanhado de uma numerosa comitiva, por alguns engenheiros do seu ministério, tendo estudado demoradamente, "in loc", todas as necessidades desta terra: porto, bairro piscatório, muralha da ribeira do porto dos barcos e ainda a nova estrada para a praia de banhos do Fogo, certificando-se e atendendo com a melhor das atenções ao péssimo estado desta freguesia".
Esta linguagem, embora hoje nos pareça bajulatória, não o era, porque era uma linguagem quase convencional, cujo fecho redundava sempre em novas promessas por parte do lisonjeado, que raramente eram cumpridas.
Embora a necessidade de novas habitações fosse premente, nada resultou desta visita ministerial, isto é:
Não foi feito fosse o fosse no porto da Ribeira Quente; não foi feita nenhuma estrada nova entre a Ribeira e o Fogo, por isso o mar continuou a comer a terra neste percurso do litoral; não foi feito nenhum bairro piscatório nem nenhum paredão de protecção às águas da Ribeira. Por isso, foram as entidades locais, concelhias e de ilha, que deram seguros passos para que algo fosse feito em prol do povo da Ribeira Quente, porque já era grave a situação social em matéria de agregados famíliares, visto que muitos dos velhos e novos casais viviam aboletados em velhos casebres de uma só divisão.
Com dinheiros pedidos ao Fundo de Assistência, do Governo Civil, Junta Geral e Câmara Municipal da Povoação, foram contruídas oito modestas casas cuja empreitada foi adjudicada a um filho deste lugar da Ribeira Quente, ao carpinteiro Diniz de Melo Cidade.
Pouco experiente na matéria de avaliação, a sua proposta de 59.750$00 foi a mais baixa, por isso a empreitada lhe foi concedida.
Obrigado a cumprir com aquilo que estava preceituado no contrato, o mesmo teve de recorrer a um empréstimo de vinte e quatro mil escudos para poder concluir o trabalho, mas teve de emigrar para a Venezuela - ao tempo refúgio de quem ambicionava viver e sonhar - para poder satisfazer o seu grave compromisso.
Porque também o paredão da ribeira era impreterivelmente necessário, foi feito, o mesmo, neste mesmo ano. Embora rudimentar, porque a matéria ciclópica foi assenta sobre velhos alicerses de pedra e barro com mais de 50 anos de existência, este então monumental empreendimento foi adjudicado pela importância de trazentos e sessenta e oito contos (368.000$00), a um eventual empreiteiro das Capelas.
ANO DE 1947
Devido à perda da "Escola do Saraiva", o Padre José Mansinho havia solicitado aos governantes não só uma outra escola, mas também, o aumento de mais uma sala de aulas para o sexo feminino. Esta necessidade foi atendida e a mesma começou a funcionar em Abril deste ano. É que, segundo dados estatísticos feitos por este laborioso sacerdote, desde o ano transacto até ao fecho estatístico anual, a população havia aumentado 49 pessoas, mas das casas, sempre pobres, apenas foram feitas seis unidades!
Continuando a depender apenas do seu inseguro rendimento, sempre bastante pobre, era a Junta de Freguesia que ia, de uma forma bastante periclitante, tentando fazer alguma coisa que demonstrasse que, na realidade, algo se tentava fazer.
Foi por esta construído um lavadouro público na zona do Fogo - embora ainda não existisse água canalizada mas foi aproveitado um pequeno caudal de água insalubre - que o povo bastante louvou, porque realmente era um melhoramento.
Neste ano, a Câmara Municipal da Povoação, por razões óbvias, mandou abrir o ainda hoje actual caminho que liga as traseiras da igreja à praia do Fogo.
Com os túneis a funcionar e a experiência de alguns pescadores desta localidade na pesca industrial, nem por isso houveram notórias transformações nos rendimentos das famílias dos mesmos, porque a pesca então não criava qualquer riqueza, nem mesmo para os industriais.
Quer por efeitos traumáticos - o povo da Ribeira Quente sempre foi muito sensível aos graves acontecimentos - quer pelo não aparecimento nos mares dos Açores por um período de quase sete anos, do atum, o que deu origem a um descontentamento entre pescadores e industriais - a Corretora já possuía em 1947, sete lanchas, a Clara, a Columba, a Santo Cristo, a Santa Rita, a Bárbara Assunção, a Valentina e a Luís Costa, onde alguns pescadores da Ribeira Quente trabalhavam - logicamente sumiram-se neste período, muitos irrealizados sonhos.
Melhor estruturada, a Sociedade Corretora, que já vinha lançada desde 1940/41 em outras experiências sem ser as do mar, ao adquirir em 1944 a fábrica Dias & Dias de Vila Franca, a Salga e Salmoura, a Laurénio Tavares, quando se lançou, em 1944 à construção da fabrica de Rosto do Cão (S. Roque), fê-lo na esperança de ver crescer aquilo que já era promissor, mas que, na realidade, não foi.
Ainda assim foi a única empresa que se pôde equilibrar porque veio mais tarde a alargar a sua frota, desde 1953 até 1965, tendo comprado em 1963 a fábrica da firma Lopes, as fábricas Calheta e Santa Maria. Isto não assegurava o futuro dos pescadores da Ribeira Quente, mas deu origem a que alguns destes tivessem alternativas.
De 1947 a 1950 houve como que um interregno de não iniciativas.
Continuando a depender apenas do seu inseguro rendimento, sempre bastante pobre, era a Junta de Freguesia que ia, de uma forma bastante periclitante, tentando fazer alguma coisa que demonstrasse que, na realidade, algo se tentava fazer.
Foi por esta construído um lavadouro público na zona do Fogo - embora ainda não existisse água canalizada mas foi aproveitado um pequeno caudal de água insalubre - que o povo bastante louvou, porque realmente era um melhoramento.
Neste ano, a Câmara Municipal da Povoação, por razões óbvias, mandou abrir o ainda hoje actual caminho que liga as traseiras da igreja à praia do Fogo.
Com os túneis a funcionar e a experiência de alguns pescadores desta localidade na pesca industrial, nem por isso houveram notórias transformações nos rendimentos das famílias dos mesmos, porque a pesca então não criava qualquer riqueza, nem mesmo para os industriais.
Quer por efeitos traumáticos - o povo da Ribeira Quente sempre foi muito sensível aos graves acontecimentos - quer pelo não aparecimento nos mares dos Açores por um período de quase sete anos, do atum, o que deu origem a um descontentamento entre pescadores e industriais - a Corretora já possuía em 1947, sete lanchas, a Clara, a Columba, a Santo Cristo, a Santa Rita, a Bárbara Assunção, a Valentina e a Luís Costa, onde alguns pescadores da Ribeira Quente trabalhavam - logicamente sumiram-se neste período, muitos irrealizados sonhos.
Melhor estruturada, a Sociedade Corretora, que já vinha lançada desde 1940/41 em outras experiências sem ser as do mar, ao adquirir em 1944 a fábrica Dias & Dias de Vila Franca, a Salga e Salmoura, a Laurénio Tavares, quando se lançou, em 1944 à construção da fabrica de Rosto do Cão (S. Roque), fê-lo na esperança de ver crescer aquilo que já era promissor, mas que, na realidade, não foi.
Ainda assim foi a única empresa que se pôde equilibrar porque veio mais tarde a alargar a sua frota, desde 1953 até 1965, tendo comprado em 1963 a fábrica da firma Lopes, as fábricas Calheta e Santa Maria. Isto não assegurava o futuro dos pescadores da Ribeira Quente, mas deu origem a que alguns destes tivessem alternativas.
De 1947 a 1950 houve como que um interregno de não iniciativas.
ANO DE 1946 - PESCA DO ALTO MAR E TRAGÉDIA

Incentivados pelas boas perspectivas lançadas ao tempo pelo industrial Lori, e aproveitando não só a experiência alcançada por alguns velhos sábios pescadores do porto da Ribeira Quente, que estiveram ou estavam ao serviço de algumas embarcações de pesca do bonito e atum, do referido industrial dos lados de Santa Clara ou Nordela, mas também a certeza de que arranjariam facilmente tripulações na Ribeira Quente, dois comerciantes desta localidade investiram nesse tipo de embarcações motorizadas, porque o futuro parecia ser promissor.
António Inácio Flor de Lima, homem empreendedor, juntamdo-se a Manuel Pacheco de Medeiros Júnior, da Vila da Povoação, mandou fazer uma embarcação idêntica às do Lori, mesmo na Ribeira Quente, visto que já ali existiam dois valiosos carpinteiros-calafates, o Sousa e o Horácio, ambos com vastos conhecimentos de construcção de barcos de pesca artesanal.
O outro comerciante foi Luiz Linhares de Deus. Este, de parceria com o muito experiente lobo do mar da localidade, José Narciso, também se lançaram na mesma senda.
Este tipo de embarcações veio, de certo modo, revolucionar os velhos costumes dos pescadores da Ribeira Quente, porque lhes abria a porta para a pesca em mar largo.
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No ano de 1946, depois de já há muito exercerem este tipo de pesca industrial, mais chamada de pesca de alto mar, estando estas duas embarcações nas imediações da Ilha de Santa Maria, foram as mesmas apanhadas por uma tremenda tempestade - não existiam meios de comunicação a bordo porque a navegação ainda dependia mais do conhecimento dos mestres das embarcações do que da informação - que começou na noite de 4 para 5 de Outubro deste acima referido ano.
A "Lancha do Narciso" (sempre assim denominada), com este velho timoneiro ao leme, tentou fazer-se ao largo, mas foi impedida pela força do vento e vagas. Tendo sido arrastada na direcção do litoral, veio a despedaçar-se perto do "Calhau da Roupa", situado entre a Ponta do Marvão e o porto daquela ilha.
Por volta das dez horas da manhã do dia 5, a outra embarcação, depois de uma noite de odisseia, entrou espectacularmente na doca de Ponta Delgada.
Morreram dezassete pescadores no porto de Vila do Porto, entre os quais Júlio Bento do Couto, de 44 anos de idade, casado na Ribeira Quente.
No porto de Ponta Delgada, devido a esta tempestade, morreu esmagado entre a muralha e o barco do Anhanha, outro filho da Ribeira Quente, João Rita.
Também nessa noite de tempestade a escola mista conhecida como "Escola do Saraiva" foi levada pelo mar, assim como quase toda a muralha de protecção à mesma, que também protegia o acesso à Ponta do Garajau e dali avante.
A zona estre a Ribeira e o Fogo ficou profundamente cavada e a praia desapareceu porque o mar continuou a buscar o espaço que era seu.
Tinha então a Ribeira Quente uma população de 2070 almas distribuídas por 460 fogos que eram insuficientes, porque alguns dos edifícios não eram habitáveis.
Da visita feita no ano anterior pelo sub-secretário das Obras Públicas nada transpareceu além das tradicionais promessas. Porém, em Fevereiro desse ano trágico, o povo desta localidade recebeu a visita de uma viatura que andava pelos povoados dos Açores, a mostrar, através de uma câmara cinematográfica, a "Viagem Presidencial de Carmona aos Açores em 1941" e, simultaneamente, o filme trágico dos pescadores de Varzim, o "Ala-Arriba" de forte comoção!
E assim se respondia a prementes necessidades deste povo sempre a sofrer um rigoroso destino.
Foi do Livro de Assentos da paróquia que foi tirado este extracto:
"O pároco dirigiu a palavra ao povo pelo microfone, agradecendo ao Governo da Nação a sua amabilidade para tantos que só agora pela primeira vez viam cinema".
E era assim este modesto povo da Ribeira Quente, que nada recebia mas logo agradecia algo que não alterava a sua situação de miséria. Mas a linguagem do seu pároco não podia ser outra porque era assim a tradição...
ANO DE 1943 - AQUISIÇÃO DO PASSAL
Desde há muito que era uma ambição dos servidores da Igreja de São Paulo da Ribeira Quente, terem os párocos casa própria para seu alojamento a fim de não terem de recorrer a particulares, como sempre o fizeram desde que esta localidade passou a ter padre.
Já antes o Padre José Luiz Borges Vieira havia tentando erguer um passal; no entanto não foi possível, por razões óbvias.
Porque o Padre Mansinho, quando se propunha fazer algo de necessidade não se detinha; porque era insistente, embora não possuísse fundos necessários para tal empreendimento; porque a Igreja só havia atingido a importância de 6.923$43 da qual foram subtraídas as percentagens de 769$67 para o fundo diocesano e 360$50 para os indultos Pios, restou apenas para seu fundo de maneio o total de 5.793$67 que não podiam ser tocados, o Padre Mansinho deu a conhecimento ao povo da sua intenção, tendo este resolvido contribuir além dos 3% do valor do pescado que já entregava à Igreja, que era uma importância de manutenção, contribuir com os seus braços para a consecução desse empreendimento.
É do Livro de Assentos da paróquia que foi tirada esta rica passagem:
"Em 10 de Janeiro começou a desterrar-se o lugar do Passal, apareceram 150 mulheres, muitos rapazes, o que tem continuado em vários domingos".
Esta muito evidente nota de amor do povo da Ribeira Quente mostra que a par da pobreza, existia também no mesmo uma profunda riqueza na alma.
A madeira para o Passal, por rogo desse incansável sacerdote, foi oferecida pelos latifundiários das grandes propriedades que cercavam a parte montanhosa do povoado, onde abundavam a acácia, o pinho, o carvalho e o castanho. A criptoméria vinha das matas da zona da "Seladinha".
Depois de ser serrada, toda a madeira foi transportada às costas e à cabeça dos homens, crianças e mulheres da Ribeira Quente, mas tudo isto feito aos domingos.
Mas esta obra não chegou a ser levada a cabo visto que, embora o pároco já tivesse angariado dez mil escudos para a mão-de-obra necessária, o projecto gratuito e os materiais, apareceu a oportuna venda da casa do Dr. João Correia da Silva, que era de veraneio, mas muito apropriada para Passal. Por essa razão esta casa foi adquirida pela Igreja e povo, pela importância de 25.000$00.
Por consentimento diocesano foi autorizada a venda da madeira já adquirida ao então Director Escolar do distrito, professor Moniz Morgado.
Com os dinheiros excedentários foram feitas alterações neste edifício, de modo a este poder servir futuramente como passal.
Já antes o Padre José Luiz Borges Vieira havia tentando erguer um passal; no entanto não foi possível, por razões óbvias.
Porque o Padre Mansinho, quando se propunha fazer algo de necessidade não se detinha; porque era insistente, embora não possuísse fundos necessários para tal empreendimento; porque a Igreja só havia atingido a importância de 6.923$43 da qual foram subtraídas as percentagens de 769$67 para o fundo diocesano e 360$50 para os indultos Pios, restou apenas para seu fundo de maneio o total de 5.793$67 que não podiam ser tocados, o Padre Mansinho deu a conhecimento ao povo da sua intenção, tendo este resolvido contribuir além dos 3% do valor do pescado que já entregava à Igreja, que era uma importância de manutenção, contribuir com os seus braços para a consecução desse empreendimento.
É do Livro de Assentos da paróquia que foi tirada esta rica passagem:
"Em 10 de Janeiro começou a desterrar-se o lugar do Passal, apareceram 150 mulheres, muitos rapazes, o que tem continuado em vários domingos".
Esta muito evidente nota de amor do povo da Ribeira Quente mostra que a par da pobreza, existia também no mesmo uma profunda riqueza na alma.
A madeira para o Passal, por rogo desse incansável sacerdote, foi oferecida pelos latifundiários das grandes propriedades que cercavam a parte montanhosa do povoado, onde abundavam a acácia, o pinho, o carvalho e o castanho. A criptoméria vinha das matas da zona da "Seladinha".
Depois de ser serrada, toda a madeira foi transportada às costas e à cabeça dos homens, crianças e mulheres da Ribeira Quente, mas tudo isto feito aos domingos.
Mas esta obra não chegou a ser levada a cabo visto que, embora o pároco já tivesse angariado dez mil escudos para a mão-de-obra necessária, o projecto gratuito e os materiais, apareceu a oportuna venda da casa do Dr. João Correia da Silva, que era de veraneio, mas muito apropriada para Passal. Por essa razão esta casa foi adquirida pela Igreja e povo, pela importância de 25.000$00.
Por consentimento diocesano foi autorizada a venda da madeira já adquirida ao então Director Escolar do distrito, professor Moniz Morgado.
Com os dinheiros excedentários foram feitas alterações neste edifício, de modo a este poder servir futuramente como passal.
PADRE JOSÉ JACINTO DA COSTA
No ano de 1940 deu entrada na Paróquia de São Paulo desta localidade o mais eficiente pároco até então ali entrado em matéria de auxílio social-burocrático, isto a 1 de Dezembro. O Rev. Padre José Jacinto da Costa, tinha sido nos últimos três anos Vigário Cooperador do Padre Ernesto Jacinto Raposo, pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus da Vila da Povoação e Ouvidor Eclesiástico do Concelho.
Como tem sido dito ao longo deste trabalho histórico, o povo da Ribeira Quente sempre esteve sociologicamente dependente dos seus párocos a fim de resolver certas situações burocráticas, não só pela razão do seu isolamento mas também. por outras razões óbvias. Por essa razão, os padres nomeados para esta paróquia, autónoma ou não, geralmente vinham da Povoação.
Metódico e grande observador, este sacerdote não só se dedicou aos trabalhos das suas obrigações espirituais, mas sim, também e, de uma maneira muito acentuada, à imperiosa missão de ajudar o povo da Ribeira Quente a safar-se da sua maneira de ser profundamente subserviente e conformado.
Pelo modo do seu comportamento, pela maneira como o povo aceitava a sua acção de solidariedade, este sacerdote logo passou a ser estimado pelo povo.
Embora não há muito colocado nesta localidade, o Padre José Jacinto da Costa que o povo da mesma chamava de O SENHOR PADRE "MINSINHO" (Mansinho dos Mansinhos de Vila Franca), logo reparou que estava perante um povo pobre, modesto, mas de forte sentimento religioso-humano que necessitava ser esclarecido acerca não só das suas obrigações sociais mas também dos seus direitos sociais-humanos. Por essa razão, ao tomar conhecimento de uma arbitrariedade imposta pelo município da Povoação, o de pagar 7% sobre todo o peixe apanhado, com a taxa de ocupação do barracão da discórdia, já antes mencionado, mas que nunca havia sido usado pelos pescadores desde o ano de 1936 porque o seu sistema tradicional de venda continuava a ser, como sempre o foi historicamente, feito à beira dos barcos, o Padre Mansinho deslocou-se propositadamente a Ponta Delgada, onde contactou no Governo Civil o seu então Secretário, Dr. José Bruno Carreiro, o qual pôs a par de férulo imposto que desde a data atrás mencionada agravava muito substancialmente a vida dos pescadores, que já arcavam com o tradicional dizimo estatal de 10%.
Posto pelo Dr. Bruno o assunto ao então Governador Civil do Distrito, o Capitão Rafael Sérgio Vieira, este achou que o mesmo assunto devia ser oficialmente feito pelos pescadores ao Ministério da Administração Interna.
Em nome dos lesados, foi o Padre Mansinho quem fez a exposição que seguiu para Lisboa, a qual era encabeçada com a assinatura de António Inácio Flor de Lima, um dos homens conceituados da Ribeira Quente.
Depois do andamento do processo o Dr. Bruno para confirmar a recepção, escreve:
"Janeiro de 1941. - Exm.º Snr. Acusando a recepção da carta de V. Ex.ª de 24 do corrente, venho comunicar-lhe o caso da exigência de taxa aos pescadores pelas áreas ocupadas pelo peixe que são obrigados a levar aos Mercados Municipais foi submetida à apreciação do Ministro do Interior. Logo que seja recebida informação, comunicá-la-ei ao senhor Padre José da Costa, que veio a este Governo Civil tratar este assunto. Julgo por isso desnecessário apresentar neste momento reclamações às Câmaras".
Visto tratar-se de um rendimento que os municípios bem necessitavam, fossem estes de carácter férulo ou não, o município ressentiu-se, mas os pescadores deixaram de pagar o imposto, não só porque não necessitavam do referido barracão, mas porque, por ironia, desde há muito este estava a servir de caserna aos militares ali aquartelados (estávamos no período da II Guerra Mundial).
Nesse mesmo ano de 1941, porque o povo da Ribeira Quente continuava a fazer parte da Freguesia de Nossa Senhora Mãe de Deus da Vila da Povoação, os eleitores deste povoado tiveram de ir cumprir a sua obrigação de votantes políticos àquela sede de concelho. Porque não haviam transportes nem públicos nem particulares na localidade e o mar não estava de feição, foi o Padre Mansinho quem resolveu a situação recorrendo ao já citado Governador Civil, o Capitão Sérgio Vieira, o qual conseguiu que uma camioneta militar ali fosse buscar, em desdobramento, os 250 eleitores da Ribeira Quente e, de volta trazê-los, depois de cumprido o dever de votantes.
Por sua vez, como sempre, a mulher da mala do correio, a já cansada Maria Arraia do "Caminho do Redondo" e, depois de entregue o saco da correspondência na camioneta dos transportes públicos que passava lá na apertada curva, descia o mesmo caminho, sempre de pé nu.
Inconformado com esta e outras situações, o metódico e activo Padre Mansinho pensou em dar uma volta a toda esta inaceitável situação de falta de humanismo e civismo como era tratado o povo da Ribeira Quente, não só pelos governantes da nação como pelos governantes de ilha e do seu próprio concelho.
Pondo-se em contacto com o Rverendo Dr. Caetano José Travassos de Lima, que então era o Conservador da Conservatória do Registo Predial da Povoação - o qual tinha muita simpatia pelo povo da Ribeira Quente devido à sua religiosidade e simplicidade - estes dois sacerdotes deram essa grande volta na mediocridade governativa.
Como homem das leis, o Padre Dr. Travassos, depois de adquiridos todos os dados indispensáveis, redigiu o requerimento necessário para ser enviado ao Ministério do Interior feito em nome do povo da Ribeira Quente, o qual pedia que este povoado já com 396 fogos e uma população de cerca de 1800 habitantes, fosse feito ferguesia por justa posição e rendimento.
O Padre Mansinho encarregou-se das necessárias assinaturas e da concordância da Junta Geral do Distrito que achou justo o requerimento, o qual foi enviado ao já referido ministério a 18 de Junho desse ano de transformações, 1941.
Anos 60 - Na foto o Padre José Jacinto da Costa (Padre José Mansinho) encontra-se a segurar o Báculo (bordão de pastor) do Bispo D. Manuel.
INAUGURAÇÃO DOS TÚNEIS - 1940

Embora já a 22 de Junho de 1939 se tivesse inaugurado com pompa e circunstância a galeria de avanço do segundo túnel de acesso à Ribeira Quente, onde não faltou o BEM VINDO para os que desciam do lado norte e o VIVA SALAZAR, do lado oposto onde estava concentrada uma massa humana do povo desta localidade que, na realidade, era quem sentia a verdadeira alegria de ver serem demolidos os últimos centmetros de terras verticais que a separava do livre acesso à mesma galeria, a verdadeira inauguração de todo o ramal, que partia da bifurcação formada por este mesmo e a estrada Furnas-Povoação, só foi feita dez meses depois, a 11 de Agosto de 1940.
E assim se pôs termo a um doloroso isolamento a que o povo da localidade da Ribeira Quente estava sujeito há cerca de 260 anos!
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