No ano de 1936, sem razão aparente que o justificasse, a Câmara Municipal da Povoação mandou construir na zona sul do "Espraiado", quase a tocar no porto natural da Ribeira Quente, um mercado de peixe que ficou conhecido por o BARRACÃO.
O edifício, que embora não fosse uma obra de grande vulto ainda assim se destacava com sobranceria dos casebres dos moradores que lhe ficavam nas redondezas e ao lado - todos de pescadores - foi uma obra realmente desnecessária.
Perfeitamente desnecessária aceitando a lógica de que na Ribeira Quente o peixe era quase um bem comum que todos usufriam, não só os que o apanhavam, como os que, como consumidores e não pescadores, o tinham facilmente à sua volta. Os vendilhões (alguns pescadores), só o adquiriam à beira dos barcos. Por essa razão a construção deste mercado não foi aceite como melhoramento mas como agravamento das dificuldades de sobrevivência desta gente, visto que o município lhes impôs um imposto de 7% sobre o pescado que já sofria do tradicional dízimo (imposto) de 10% que o governo nacional arrecadava de cada barco, através do seu fiscal directo, o histórico guarda fiscal.
Esta situação ficou por algum tempo, até que, por força de uma obrigação de colaboração, um servidor do povo no espiritual e no material, o fez desaparecer.
No ano seguinte a este acontecimento, o então pároco da Igreja de São Paulo, o Padre João de Medeiros a quem o povo chamava de "O PADRE JOÃO COUCÃO", partia em Dezembro desse ano de 1937 para os Estados Unidos.
O Vale da Povoação não só era criador de trabalhadores para exportação, como também de ministros da Igreja.
Para o substituir, veio logo depois, mas já no começo de 1938, o Padre Cristóvão de Melo Garcia, natural da então Vila da Ribeira Grande, que durante os últimos três anos havia sido Vigário Cooperador do Ouvidor Eclesiástico do Concelho, o Padre Ernesto Jacinto Raposo.
É no período de permanência do Padre Cristóvão que a Igreja de São Paulo é electrificada, porque até então, desde a sua erecção, os serviços religiosos nocturnos eram feitos à luz de lanternas a petróleo, que foram depois a acetilene, até àquele trabalho de electrificação. O custo deste empreendimento atingiu o montante de três mil setenta e um escudos e cinquenta centavos. Foi mais um sacrifício imposto ao povo da Ribeira Quente, que o recebeu com gosto, visto que desta forma enriquecia o seu templo.
Continuava a crescer proporcionalmente o número de habitantes neste povoado, por isso também a imperiosa necessidade de serem feitas mais habitações mesmo que fossem rudimentares, para fugir à miscível caldeação e acumulação de mais de um casal a viver no mesmo quarto, situação esta sempre susceptível de acontecer em povoados bastante pobres. Também a necessidade de mais embarcações era premente.
Por ironia, se era o mar que mais facultava os meios de sobrevivência desta população, também era este quem ia aos poucos roubando a terra, o espaço vital para as suas necessidades sociais de expansão!
No ano de 1939, num dia de grande tempestade que fez crescer descomunais vagas, estas vieram atingir as terras que ainda restavam desde o começo da sua absorção pelo mar e, de tal modo que pouco ficaram destas na zona compreendida entre a chamada "Zona das Vieiras" e o começo da Ponta da Albufeira ou Fogo, porque esta parte litoral continuava desportogida e sem qualquer quebra-mar.
Nesta altura, foi a família de João Vieira Jerónimo a mais atingida por ter perdido a quase totalidade do seu terreno, incluindo a sua casa de moradia que serviu parcialmente de igreja provisória cerca de dezasseis anos, após a derrocada do segundo templo de São Paulo no ano de 1900.
Nunca existiu, relativamente aos primitivos tempos da criação de um povoado piscatório na Ribeira Quente, algo que nos elucidasse acerca do tipo de embarcações então usadas. Porém, tudo nos leva a crer que fossem muito rudimentares e ali mesmo improvisadas visto que todo o espaço montanhoso desta localidade sempre foi abundante de vegetação espontânea apropriada para a construção de pequenas embarcações. Ainda na primeira metade do século XX não só a bacia ou vale da Povoação Velha possuia madeiras de cavername, como o cedro do mato, a urze e o sanguinho (planta ramnácea), como também quase toda a área do seu concelho, incluindo a Ribeira Quente. No século XIX estas embarcações eram simples e idênticas a todas as embarcações da costa sul, mas já no começo do século XX as mesmas eram de tamanho superior às embarcações de pesca da Vila da Povoação e Faial da Terra e em maior quantidade.
Foram filhos da Ribeira Quente os primeiros a possuir e a usar redes-de-arrasto para caçar cardumes de sardinha que eram muito abundantes (na altura própria), no espaço de mar entre a Ponta da Lobeira e a da Pedreira do Nordeste, mais propriamente dito no mar da Fajã do Calhau. Por vezes, devido à grande distância entre a Ribeira Quente e esta referida fajã, os pescadores e barcos pernoitavam neste lugar de então praia permanente.
Três dos proprietários deste tipo de redes (foram 5 os proprietários) foram-se fizar, dois na Vila da Povoação, e um no Faial da Terra.
O primeiro, João Peixoto, foi mais tarde fixar-se com sete filhos no lugar do Morro da Vila da Povoação, de onde deu origem a uma familia grande e prolífera que se ramificou não só nesta vila como nas suas Lombas, Faial da Terra e América do Norte.
O segundo, João Inácio, permaneceu no seu povoado de origem, onde singrou relativamente, quer social quer economicamente.
Mas o diversificado tipo de pesca então praticado, mais acentuadamente a pesca do chicharro, sardinha, cavala ou outra, mesmo quando era abundante, não alterava substancialmente o curso de vida das famílias da Ribeira Quente ligadas ao mar, porque o produto do seu trabalho só tinha uma única saída, a do tradicional sistema de venda intermediária aos vendilhões locais ou os de fora que, por sua vez iam vender o peixe fora da localidade.
Este sistema rotineiro era inalterável porque quase não havia pesca industrial. Só em Vila Franca do campo existia uma pequena fábrica conserveira da Sociedade Dias & Dias que pouco pescado absorvia e, quando absorvia, fazia-o a preços por si estipulados.
Na Vila da Povoação existiam duas firmas com tamques de salgação só para recursos de inverno, enquanto em Ponta Delgada, na Rua da Vila Nova, existia uma pequena unidade pertencente à Firma de Laurénio Tavares & Filho que praticava a salgação em salmoura, peixe que depois exportava para o chamado mercado da saudade (América do Norte), em pequenas quantidades.
Na Rua do Calhau havia uma outra pequena fabriqueta que procedia da mesma forma. Por essa razão, e porque Ponta Delgada lhes ficava distante, colocados nesta situação, os bravos homens de mar da Ribeira Quente continuavam a sobreviver com muita dificuldade, como sempre, por não terem outra alternativa.
Blog sobre a História da Freguesia da Ribeira Quente, Concelho da Povoação, Ilha de São Miguel - Açores.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
OS TÚNEIS

O tão almejado acesso ou ramal para o lugar da Ribeira Quente, simbolicamente começado, como já foi dito, aquando da passagem do Rei D. carlos pelo lugar dos Tambores, isto em 1901, só veio a ser aprovado a 23 de Maio de 1902 e começado em Novembro de 1903, porque, ironicamente, só começou a ser notado 34 anos depois, quando em fins do mês de Outubro de 1935 foi dado início à perfuração da primeira barreira sob a qual foi plantado o primeiro troço do túnel fraccionado que ligou o velho povoado ao resto do mundo que lhe era desconhecido, devido à falta de humanismo por parte de quem não sentia que ali havia um povo. Esta primeira fracção do túnel quando completa, ficou ao atingir a ponte de ligação sobre a "Grota Suja", com o comprimento de 84 metros.
Obra então empolgante para seu tempo - hoje bastante desnecessária porque a perfuração foi feita em duas barreiras já quase no fim do seu percurso descendente nas proximidades da ribeira - começou numa altura em que o meio rural do Concelho da Povoação atravessava uma das maiores crises de falta de trabalho de sempre, porque os seus artífices e auxiliares sempre estiveram parcialmente dependentes das economias que os nossos emigrantes iam amealhar fora da ilha. Por essa razão, estando a América do Norte ainda sob os efeitos da sua maior depressão histórica, a de 1929, os seus reflexos colidiram com uma já grave situação que mais a agravou. Por isso, é lógico que se diga que a abertura dos túneis da estrada de acesso ao povoado da Ribeira Quente, veio propositadamente numa altura oportuna, mas não deixou de ser uma obra de exploração humana.
Continuando a sua faina no mar, sempre que este lhes permitia, os pescadores viam na abertura do t'unel o sonho que os seus antepassados sempre acalentaram, o de usufruir uma mais valia par o fruto do seu trabalho sempre condicionado à velha tradição do vendilhão de cestos e palanca, o qual, por não ter caminhos de saída, só lhe era permitido usar o velho caminho de acesso ao "Redondo", de onde derivava para o vale da Povoação.
Poucos filhos de pescadores iam à escola improvisada na propriedade do Saraiva, porque as necessidades dos meios de sobrevivência estavam acima das de uma educação fechada e limitada. Por essa razão o túnel foi a escola das infelizes crianças que ali sol-a-sol, iam acarretando, em cestos de dois alqueires, as terras que lhes iam pondo no dorso, as quais, durante a perfuração do primeiro túnel, iam descarregar nas margens da ribeira, e depois, as trazidas do segundo túnel, depositavam-nas por cima do parapeito da ponte de ligação dos mesmos para o fundo da "Grota Suja".
Mas a missão das crianças não se circunscrevia apenas à obrigação de acarretar em cestos ou simples carriolas, inventadas pelas mesmas para aliviar o dorso já cansado, as terras que iam sendo removidas do furo e do alargamento a abobadar. Também tinham por missão serem serventes de argamassas, de irem buscar às grotas água potável para dar de beber a todo o pessoal, da recolha das ferramentas usadas pelos pedreiros, isto muitas vezes feito sob a ameaça de um improvisado chicote!
Ainda hoje existem, tanto na Ribeira como no Fogo, na mente de velhos cansados, reminiscências desse desumano passado de abiofilia.
Não só as crianças mas sim todos os trabalhadores não contratados (a esmagadora maioria), não usufruiam de quaisquer direitos de seguro das suas vidas.
Foi sob a orientação de um pedreiro das Furnas que a pedra lavrada pelos canteiros ia sendo assenta sobre os cimbres de madeira para fechamento da abóbada dos túneis, feitos pelo valioso carpinteiro também das Furnas, o Mestre Manuel Vieira Galante - depois da perfuração este trabalho de carpintaria era o mais importante.
O livro "TÚNEIS DA LIBERDADE", da autoria de Maria de Deus Raposo Medeiros Costa, publicado em 1996, baseado em imformações colhidas de alguns idosos que nesta obra trabalharam quando crianças, retrata substancialmente alguns factos verdadeiros.
É deste livro esta elucidante passagem:
"Toda esta perseverança dos homens e da ajuda prestimosa das crianças na obra, revelam uma necessidade desmedida de trabalhar para o sustento da casa".
E depois:
"Um dos apontadores da obra dos t'uneis foi..., caracterizado como sendo um empregado zeloso, activo e competente, que cumpria as ordens recebidas e as fazia cumprir rigorosamente".
Isto, segundo o critério de uma notícia veiculada por um jornal de Ponta Delgada de 19 de Agosto de 1940, só manifestava o retumbante trabalho de quem pouco trabalhava, porque só mandava quem trabalhava!
O rigorosomente expresso caracteriza perfeitamente a acção e personaliade de quem, talvez assente numa possível confortável cadeira, mandava escravizar crianças!
Como espelho desse relevante trabalho, ainda se lê nesse livro:
"Do relato dos trabalhadores, bastantes vezes as crianças foram mandadas trabalhar ao ritmo do 'vime' para apressar o serviço. Unânime é também a opinião de que este trabalho fora um trabalho de escravidão".
esta radiografia superficial de uma obra que teve raízes no ano de 1901, como já foi dito, no longo percurso de 34 anos não só causou ansiedade a quem sofria e se queria libertar, como depois de feita, se tornou pobre e insuficiente porque, se os túneis ficaram como algo de positivo, todo o traçado fora destes nunca passou de um ziguezagueante atalho por vezes colocado sob perigosas barreiras que deram forma ao curso da ribeira que por si alinhou a estrada!
Desde sempre insuficiente e incapaz, por isso desde há muito a necessitar de correcções, só no começo da década de setenta, a Junta Geral adjudicou uma empreitada de correcção desse ramal a uma firma que não correspondeu ao determinado porque faliu. Por isso, foi esta Junta que, em molde de trabalho apressado, o completou e continuou a chamar-lhe de Ramal da Estrada Nacional N.º 11 que, depois de regionalizado, se chama de Estrada Regional 2-2.
No extenso período de governação do primeiro Governo Regional dos Açores, embora o trânsito para a Praia do Fogo da Ribeira Quente aumentasse visivelmente, nada de substancial foi feito para o facilitar nem diminuir o perigo que esta estrada sempre representou.
Retomando o curso cronológico da história como vinha sendo feita, pouco se alterou no comportamento do povo da Ribeira Quente ao saber do começo da abertura do primeiro túnel, mais acima do povoado, a não ser a sensação de que havia uma obra em curso para a abertura dos túneis de acesso a este, e que gente sua estava a trabalhar na mesma. Mas é lógico que a expectativa era permanente, visto que se tratava de um empreendimento desde há muito desejado porque ia, quando concluído, por fim a um martírio secular.
No entanto, como sempre, o mar ia comendo a terra em dias de vendaval, solo postiço que a Mãe Natureza havia colocado sobre os fundos que lhe pertenciam. Por isso a orla marítima, entre a Ribeira e a Ponta da Golfeira ia aumentando ano a ano, dando lugar a uma pequena baía que se ia criando à custa do desaparecimento daquilo que ainda restava do primitivo povoadao ou lugar de veraneio.
A "Escola do Saraiva", assim denominada porque era uma escola improvisada numa casa de um natural local, estava situada no extremo da sua propriedade junto à praia da foz da ribeira, onde se esperava que o mar um dia chegasse, por isso houve que alertar o município da Povoação para esta realidade.
Presidindo, ao tempo, aos destinos daquele município o Dr. António do Espírito Santo Lopes - que foi um dos presidentes com mais iniciativa que este conheceu no tempo em que o mesmo vivia em permanente penúria - para protecção da escola e caminho de acesso, foi feito um paredão no lado nascente da boca da ribeira, que partia da velha ponte de madeira até ao começo do atalho para a banda da "Ponta do Garajau".
Porque se tratou de uma obra relativamente modesta, embora bem feita mas não muito consistente porque os materiais usados foram os tradicionais barro, cal e água, logicamente, um dia viria a desaparecer, mas ficou a contar para a história da Ribeira Quente.
Foi mais uma obra em que esteve em evidência a necessidade humana, desta vez do sexo oposto, gente desta localidade e extremamente necessitada de meios de subsistência.
A pedra par o paredão foi arrancada de uma pedreira que se situava ao cimo da propriedade do mesmo dono da escola.
Procurando possíveis curvas de nível para suavisar o acesso à pedreira, ainda assim o atalho feito não permitia, devido à sua muita inclinação, que fosse qualquer animal de quatro patas a acarretar as ainda brutas e pessadas pedras de amarração para o estaleiro que ficava situado no lugar do futuro paredão.
Sem alternativa, o mestre da obra veio a saber que determinadas mulheres da hoje "Rua do Padre António", podiam bem resolver esta situação.
Gente de forte compleição, embora faminta, essas mulheres habituadas a serem besta-de-carga, a troco de uma miséria, passaram a subir diariamente, vezes sem conta, o íngreme atalho da pedreira alcandorada no cimo das rochas, de onde traziam sobre o pequeno biscoito-rodilhão posto na cabeça, as citadas pedras que vieram a formar o paredão.
Porque ali perto não havia argila e a que havia só existia na zona do Velho cemitério, alternando de vez em quando o percurso, eram elas, as mulheres, que iam de cesto de dois alqueires à cabeça, buscar o desejado barro para a argamassa, subindo e descendo um caminho tão inclinado como o primeiro, mas já a distância de muitas centenas de metros!
Continuando a ser uma comunidade fechada por princípios de pouca comunicabilidade a que sempre esteve sujeita, e de certo modo muito dependente do seu guia espiritual, quer este fosse de demorada permanência ou não, já iam despontando alguns elementos na sua sociedade, que não sendo nem pescadores por tradição, nem trabalhadores rurais, se tornaram elementos de contacto em momentos de diálogo. Eram o começo de algo que havia de acontecer mais cedo ou mais tarde.
ANO DE 1931
Em Janeiro deste ano de 1931, veio substituir o Padre José Luiz Borges Vieira na paróquia, o Padre João de Medeiros, natural da Vila da Povoação.
Profundamente ciente das necessidades do povo da Ribeira Quente, como os seus antecessores, teve de procurar minimizar o sofrimento desta gente ainda na mesma situação de sempre - o padre era o directo e indirecto interlocutor entre as autoridades governativas e o povo, porque fazia parte das suas obrigações humanas.
No campo espírito-material, é no percurso do seu tempo como pároco, que o templo de São Paulo passa pelas maiores transformações desde a sua bênção e inauguração em 1917.
Foi alargada a sacristia do lado nascente, que era estreita, dando origem à, ainda hoje larga sacristia, seu acesso posterior e cave.
A bancada foi totalmente alargada por toda a nave da igreja, porque antes, além de ser modesta, só cobria parte da mesma.
A Capela-Mór não tinha cadeiral, mas foi feito, como também foi feito um altar do lado epistolar - que só veio a receber a sua primeira imagem no ano de 1949.
Além da escadaria de acesso à sacristia, exteriormente foi feito o revestimento em argamassa de cimento e areia dos dois alçados laterais, porque, até àquela altura, as suas paredes não eram revestidas mas sim, na linguagem do povo, paredes cruas.
Segundo documentação comprovativa, foram os pescadores, desta vez com meio quinhão dos barcos, embora fossem bastante pobres, quem pagou estes empreendimentos, à medida que, por ironia, o povoado ia empobrecendo devido ao crescimento da população e à falta de recursos de subsistência de que o lugar padecia.
Nessa altura a população da Ribeira Quente já era superior à da do Faial da Terra e da de Água Retorta mas ainda não possuía quaisquer caminhos de acesso para fora do povoado, além dos rudimentares já citados; nem água potável nem iluminação pública, embora a central produtora lhe ficasse logo mais acima na "Ribeira dos Tambores"!
Só tinha uma escola primária improvisada numa casa particular do lado nascente da ribeira e, já no começo da falésia da "Ponta do Garajau", um posto de correio também improvisado num pequeno estabelecimento comercial junto do litoral, cujo vencimento do seu proprietário era uma pequena percentagem que lhe era concedida pela venda de selos; mas cabia-lhe também, por imposição, ter de fazer chegar o saco do correio, ou mala do correio, como o povo a chamava, à curva da estrada onde nascia o "Caminho do Redondo", a fim de ali apanhar a carreira regular que por ali passava todas as manhãs, por volta das sete e pouco da manhã.
Esse doloroso trabalho era feito por uma pobre mulher casada, com filhos, a troco de meia dúzia de escudos mensais, visto que seu marido, pescador (António Fanha ou António Povoação), nem sempre tinha sorte no mar.
Foi nesta situação de atrofiamento e miséria que o povo da Ribeira Quente foi atingido por uma das maiores catástrofes sísmicas de sempre.
A 5 do mês de Agosto do ano seguinte, 1932, toda esta ilha de São Miguel foi sacudida, devido a um abalo de origem tectónica - falha Açores-Gilbraltar, hoje muito conhecida pela ciência - de tão forte magnitude, que fez ruir, a partir do estremo de Ponta Garça, todas as casas da Lomba do Cavaleiro, muitas da Lomba do Carro e outras na faixa entre aquela localidade de Ponta Garça e Faial da terra. A Ribeira Quente, embora de permeio, estatisticamente não é mencionadaembora tivesse sido bastante atingida.
Profundamente ciente das necessidades do povo da Ribeira Quente, como os seus antecessores, teve de procurar minimizar o sofrimento desta gente ainda na mesma situação de sempre - o padre era o directo e indirecto interlocutor entre as autoridades governativas e o povo, porque fazia parte das suas obrigações humanas.
No campo espírito-material, é no percurso do seu tempo como pároco, que o templo de São Paulo passa pelas maiores transformações desde a sua bênção e inauguração em 1917.
Foi alargada a sacristia do lado nascente, que era estreita, dando origem à, ainda hoje larga sacristia, seu acesso posterior e cave.
A bancada foi totalmente alargada por toda a nave da igreja, porque antes, além de ser modesta, só cobria parte da mesma.
A Capela-Mór não tinha cadeiral, mas foi feito, como também foi feito um altar do lado epistolar - que só veio a receber a sua primeira imagem no ano de 1949.
Além da escadaria de acesso à sacristia, exteriormente foi feito o revestimento em argamassa de cimento e areia dos dois alçados laterais, porque, até àquela altura, as suas paredes não eram revestidas mas sim, na linguagem do povo, paredes cruas.
Segundo documentação comprovativa, foram os pescadores, desta vez com meio quinhão dos barcos, embora fossem bastante pobres, quem pagou estes empreendimentos, à medida que, por ironia, o povoado ia empobrecendo devido ao crescimento da população e à falta de recursos de subsistência de que o lugar padecia.
Nessa altura a população da Ribeira Quente já era superior à da do Faial da Terra e da de Água Retorta mas ainda não possuía quaisquer caminhos de acesso para fora do povoado, além dos rudimentares já citados; nem água potável nem iluminação pública, embora a central produtora lhe ficasse logo mais acima na "Ribeira dos Tambores"!
Só tinha uma escola primária improvisada numa casa particular do lado nascente da ribeira e, já no começo da falésia da "Ponta do Garajau", um posto de correio também improvisado num pequeno estabelecimento comercial junto do litoral, cujo vencimento do seu proprietário era uma pequena percentagem que lhe era concedida pela venda de selos; mas cabia-lhe também, por imposição, ter de fazer chegar o saco do correio, ou mala do correio, como o povo a chamava, à curva da estrada onde nascia o "Caminho do Redondo", a fim de ali apanhar a carreira regular que por ali passava todas as manhãs, por volta das sete e pouco da manhã.
Esse doloroso trabalho era feito por uma pobre mulher casada, com filhos, a troco de meia dúzia de escudos mensais, visto que seu marido, pescador (António Fanha ou António Povoação), nem sempre tinha sorte no mar.
Foi nesta situação de atrofiamento e miséria que o povo da Ribeira Quente foi atingido por uma das maiores catástrofes sísmicas de sempre.
A 5 do mês de Agosto do ano seguinte, 1932, toda esta ilha de São Miguel foi sacudida, devido a um abalo de origem tectónica - falha Açores-Gilbraltar, hoje muito conhecida pela ciência - de tão forte magnitude, que fez ruir, a partir do estremo de Ponta Garça, todas as casas da Lomba do Cavaleiro, muitas da Lomba do Carro e outras na faixa entre aquela localidade de Ponta Garça e Faial da terra. A Ribeira Quente, embora de permeio, estatisticamente não é mencionadaembora tivesse sido bastante atingida.
1917 A 1928
Embora se não saiba com rigor qual seria o número populacional da Ribeira Quente na altura da bênção e inauguração do seu terceiro templo, podemos aceitar a ideia de que a mesma não seria inferior a mil e setecentas pessoas, visto que, aparecendo pela primeira vez documentalmente uma estatística abrangente que inclui o lugar da Ribeira Quente, a mesma lhe dê nesse ano de 1864 uma população de 1065, para depois, já no ano de 1900 lhe ser dada uma população de 1463 pessoas. Por isso é lógico que dezassete anos depois, no ano da inauguração, no mínimo o número de pessoas acima relativamente mencionadas fosse uma aproximação da verdade.
De 1911 a 1949 não existem números estatísticos que mencionem qualquer censo acerca da Ribeira Quente, visto a população desta localidade estar anexada à da Igreja Matriz da Povoação, por ter passado a ser parte integrante da mesma depois de perder o direito de ser paróquia autónoma. Por isso, estatisticamente falando, só no ano de 1950 aparece oficialmente a Ribeira Quente já feita freguesia e com uma população de 2126 almas.
Fosse como fosse, a igreja então ao tempo inaugurada naquele ano de 1917, foi definitivamente dimensionada para o futuro, visto o lugar da Ribeira Quente por justa posição geográfica, ser um lugar encravado e financeiramente limitado.
No percurso da sua existência até ao presente, este templo de São Paulo jamais foi alterado no seu aspecto de igreja de uma só nave. Só as suas duas sacristias laterais sofreram algumas transformações que vão ser mencionadas.
Com um alçado principal alegre e leve porque a sua cantaria é pobre, no entanto a sua situação sobranceira dá-lhe um aspecto de imponência.
A sua torre sineira antes era um pequeno museu do passado porque encerrava dentro de si um grande pedaço de história. Esta história encontra-se agora com os Sinos em exposição no Baptistério da Igreja.
O Sino que anteriormente estava do lado nascente, quer pelo seu aspecto de fabrico tosco muito rudimentar, quer pela corrosão causada pelas salseiradas do mar, logo nos mostra ter sido o único sino que veio da primitiva Ermida de São Paulo, e que tudo indica ter sido fabricado nesta ilha.
O Sino que anteriormente estava na janela sineira do lado poente confunde-nos por serem reais mas enigmáticos os dizeres que nele se lêem em nítido relevo:
"SSmo. DE SAO PAULO OFERECIDO POR I. (?) M. NOGUEIRA, BELLAS V FEZ LISBA 1489"
Na parte superior esterior tem o mesmo uma imagem do Apóstolo São Paulo em relevo bastante vivo.
Oferecido pela mesma família que ofereceu os outros dois sinos em datas bastante posteriores, tudo nos leva a crer que a data de 1489 foi uma ESMERALDA de enfeite apropriado.
O sino que estava do lado sul, que é o mais rico no tamanho e nos dizers, ao cimo, na parte virada para o interior da torre, tem uma quadrícula moldada e no centro da mesma em letra relevante:
De 1911 a 1949 não existem números estatísticos que mencionem qualquer censo acerca da Ribeira Quente, visto a população desta localidade estar anexada à da Igreja Matriz da Povoação, por ter passado a ser parte integrante da mesma depois de perder o direito de ser paróquia autónoma. Por isso, estatisticamente falando, só no ano de 1950 aparece oficialmente a Ribeira Quente já feita freguesia e com uma população de 2126 almas.
Fosse como fosse, a igreja então ao tempo inaugurada naquele ano de 1917, foi definitivamente dimensionada para o futuro, visto o lugar da Ribeira Quente por justa posição geográfica, ser um lugar encravado e financeiramente limitado.
No percurso da sua existência até ao presente, este templo de São Paulo jamais foi alterado no seu aspecto de igreja de uma só nave. Só as suas duas sacristias laterais sofreram algumas transformações que vão ser mencionadas.
Com um alçado principal alegre e leve porque a sua cantaria é pobre, no entanto a sua situação sobranceira dá-lhe um aspecto de imponência.
A sua torre sineira antes era um pequeno museu do passado porque encerrava dentro de si um grande pedaço de história. Esta história encontra-se agora com os Sinos em exposição no Baptistério da Igreja.
O Sino que anteriormente estava do lado nascente, quer pelo seu aspecto de fabrico tosco muito rudimentar, quer pela corrosão causada pelas salseiradas do mar, logo nos mostra ter sido o único sino que veio da primitiva Ermida de São Paulo, e que tudo indica ter sido fabricado nesta ilha.
O Sino que anteriormente estava na janela sineira do lado poente confunde-nos por serem reais mas enigmáticos os dizeres que nele se lêem em nítido relevo:
"SSmo. DE SAO PAULO OFERECIDO POR I. (?) M. NOGUEIRA, BELLAS V FEZ LISBA 1489"
Na parte superior esterior tem o mesmo uma imagem do Apóstolo São Paulo em relevo bastante vivo.
Oferecido pela mesma família que ofereceu os outros dois sinos em datas bastante posteriores, tudo nos leva a crer que a data de 1489 foi uma ESMERALDA de enfeite apropriado.
O sino que estava do lado sul, que é o mais rico no tamanho e nos dizers, ao cimo, na parte virada para o interior da torre, tem uma quadrícula moldada e no centro da mesma em letra relevante:
MANUEL ANTONIO MARTINS O FES
e logo mais abaixo:
CONSTRUIDO EM LISBOA NA FÁBRICA DA RUA AUGUSTA NO ANO DE 1839
JOZE MATHEUS NOGUEIRA O MANDOU FAZER PARA A IGREJA DE SÃO PAULO DA RIBEIRA QUENTE
O mais pequeno dos sinos, o que estava na janela do lado norte tem na parte superior exposta uma Cruz da Natividade bastante relevante, mas os dizeres não são, como os dois anteriores, em relevo mas sim gravados na parte baixa do mesmo:
JOZE MATHEUS NOGUEIRA O MANDOU FAZER EM 1854 P'A IGREJA DE S. PAULO NA RB' QUENTE
Estes dados que se lêem nestes três sinos que pertenceram à segunda Igreja de São Paulo e hoje fazem parte do património da igreja actual, não só identificam o seu benemérito doador, como marcam a data do começo de uma grande viragem na vida religiosa do povo da Ribeira Quente, porque, como já foi dito, depois da construção do primeiro Sacrário feito por doação desse proprietário e médico José Mateus Nogueira, o lugar da Ribeira Quente se emancipou ou soltou das peias que o travavam a Ponta Garça, devido à sua subserviência religiosa.
Depois de ter paroquiado a Igreja de São Paulo durante nove anos, o seu maior mentor, o Padre Ângelo Amaral partiu para a América do Norte onde permaneceu e veio a falecer. Do livro de Assentos desta paróquia e da autoria de um pároco que veio a falar dele decorridos que eram catorze anos, lê-se:
"... a quem se ficou devendo o seu levantamento (da Igreja), pois era daqueles de quem se costuma dizer - 'antes quebrar que torcer' - arrostando contra todas as dificuldades etc.",
conseguiu não só levantar este templo, como buscou para o seu interior aquilo que então o povo da Ribeira Quente lhe não podia dar e que é sempre uma das obras mais dispendiosas de um templo: o retábulo.
Na realidade, sabendo o Padre Ângelo que, depois da implantação da República os energúmenos haviam despejado a Igreja da Graça de Ponta Delgada para ali implantar um tribunal, este sacerdote ultrapassou muitos obstáculos e conseguiu que o retábulo desta igreja fosse oferecido à da nova igreja que depois veio a inaugurar, como já foi dito, levando da mesma, também uma imagem de Nossa Senhora do Leite, a de Santa Teresinha, a de São Pedro Gonçalves - que havia sido Patrono dos pescadores da Calheta e de Santa Clara, que se desavieram por causa desta imagem quando a mesma foi trazida do seu primitivo altar, que existia naquela que veio a ser a Igreja de São José de Ponta Delgada, para a da Graça - assim como as imagens de Santo Agostinho, Senhor Morto, São João Evangelista e São Nicolau de Tolentino.
Para substituir o Padre Ângelo veio da mesma ouvidoria o Padre José Luiz Borges Vieira, natural de Água de Pau, que na altura deixou de ser pároco da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios da Lomba do Loução.
Foi no seu tempo que foi feita a balaustrada que circunda o adro da actual igreja da Ribeira Quente, como foi no tempo deste que se tentou construir uma casa paroquial que não havia nesta localidade, a qual, por razões óbvias, nunca foi além de meias paredes.
Sem ser a forte vertente mar e igreja, mais nada constava acerca da Ribeira Quente, até que, no ano de 1927 veio a ser quebrada esta monotonia, com a construção de uma pequena muralha de protecção que partia da zona chamada "Prédio das Vieiras", até ao porto. Simples mas útil não como muralha de protecção, mas sim porque além dessa obrigação, permitia que antes de se entrar nas areias da praia que o mar ia repondo, houvesse umas dezenas de metros de caminho propriamente dito.
No ano seguinte, 1928, uma forte tempestade cortou quase totalmente este acesso, por isso foi aberto o caminho que o povo passou a chamar de estrada, conforme consta de um extracto paroquial:
"ANO DE 1928 - Neste ano há a registar nesta freguesia a abertura da nova estrada junto à rocha desde o princípio da freguesia até à igreja paroquial porque o mar já quase levou o antigo caminho junto à praia".
Já eram então decorridos, nessa altura, mais de 260 anos desde que a Ribeira Quente se havia tornado povoado, conforme consta dos apanhados históricos já mencionados acerca da suposta visita feita por D. Frei Lourenço de Castro. No entanto este lugar ainda não era freguesia.
As palavras acima referidas, "nesta freguesia" e "nova estrada", foram uma simples expressão então adequada para mencionar o acontecimento.
A "nova estrada", não era sinónimo de haver outra estrada, porque até àquela altura só havia sido feito (não pelo município), o pequeno paredão que ia da zona do actual porto para poente, o qual acabava, como já foi dito, no "Prédio das Vieira" ou logo pouco mais além da Rua Direita, e que servia só para pedestres antes de entrar na praia a parte da barreira composta por terras que o mar ia deixando e o povo da zona da Ribeira pisava para poder atingir a sua igreja.
ORIGEM DAS FESTAS DE SÃO PAULO
No livro do Tombo da igreja paroquial da Ribeira Quente encontra-se registada a: «notícia circunstanciada da estadia do Senhor Bispo nesta freguesia», por ocasião de uma visita pastoral que integrou a Bênção da Nova Igreja, Festa de São Paulo, ordenação de Presbítero e Unção de Via-Sacra, nos dias 22,23 e 24 de Setembro do ano 1917.
A narrativa é bastante longa e pormenorizada, mas podemos sintetizá-la no essencial.
Começa por descrever a maneira solene como 12 embarcações bastante engalanadas foram à Vila da Povoação receber o Sr. Bispo D. Manuel Damasceno da Costa.
É recebido triunfalmente na Ribeira Quente com todos os requintes solenes de uma Visita Pastoral, que iniciava no dia 22 com a Bênção da nova Igreja Paroquial do Apóstolo São Paulo “que levara seis anos a construir”.
Na tarde daquele dia “foram administrados crismas a 600 pessoas.
No dia 23, Domingo, pelas 7 horas da manhã, sua Exa. Ordenou Presbítero ao Diácono Frederico Vieira Fernandes. Facto único na história desta Paróquia. Às 11 horas começou a festa em honra de São Paulo, que constou de Missa Solene abrilhantada pelo coro local e razoável número de Sacerdotes que reforçaram o dito coro.
A narração continua neste moldes: “ De tarde, em muita boa ordem, saiu a procissão em que foram conduzidos os andores de São Nicolau Tolentino, São Paulo, Nossa Senhora da Graça e Menino Jesus, culminando com Santo Lenho sob o pálio. A procissão encerrou com a presença de Sua Exa. Reverendíssima, ladeado de dois sacerdotes”.
Na segunda-feira, dia 24, pelas 7 horas, procedeu-se à Unção da Via-Sacra. Às 8:30 celebrou a sua primeira missa, o novo Presbítero ordenado no dia anterior.
Esta é a primeira narração recolhida sobre as festas de São Paulo integradas numa Visita Pastoral recheada das efemérides apontadas.
Não se sabe ao certo se outras festas em honra do padroeiro já se tinham celebrado anteriormente, mas é de supor que sim pelo facto da Visita Pastoral ter sido programada para o “ último fim-de-semana” de Setembro. As outras paróquias da Ouvidoria da Povoação, por serem mais antigas, já tinham preenchido os Domingos privilegiados de Verão. Escolheram esta data pela vantagem que trazia em coincidir com o tempo das colheitas e também com o quase terminus da safra das pescas do atum e bonito.
Nessa altura já haviam alguns dinheiros arrecadados da pesca dos tunídeos e as frutas e cereais recolhidos eram abundantes. Aqui, no tempo, existiam pomares de peros, maçãs, araças, uvas e seus vinhos novos que oram faziam montões ora preenchiam numerosos potes e barris de vinho doce para arrematar em favor das festas. Tudo invocava fartura ao serviço da Festa.
Os tempos mudaram com o significativo abandono das terras devido ao forte surto migratório que se alongou até aos nossos dias; com o aparecimento das festas populares do “Chicharro”, implantadas no coração do mês de Julho, época mais propícia à presença dos emigrantes em férias e pela afluência dos veraneantes e frequentadores acérrimos da praia.
Devido a tão consideráveis mudanças foi lançado inquérito à população, se perante vantagens de monta gostariam de mudar as festas de São Paulo para o mês de Julho. Foram peremptórios em concluir que “Não”!
Por isso, embora de Verão a Ribeira Quente seja muito visitada pelos seus emigrantes, devido ainda à tradicional índole acolhedora do seu povo, à confortante e agradável orla marítima, ao conjunto paisagístico do azul do mar, do verde da montanha e casario branco, ao feiticeiro porto e relaxante praia, às festas do Chicharro que concentram multidões, o certo é que o povo não quis abdicar da marcante data tradicional das festas de São Paulo, na última semana de Setembro.
Esta data permite não só alongar o período de “Verão Quente”, mas principalmente viver o valor da comunidade, cativando muitos que nos visitam por essa altura e com objectivo bem definido de celebrar a fé que nos une.
Hoje as festas de São Paulo tomaram proporções de Solenidade bem mais cativante, mesmo sob ameaças de equinócios de risco.
A narrativa é bastante longa e pormenorizada, mas podemos sintetizá-la no essencial.
Começa por descrever a maneira solene como 12 embarcações bastante engalanadas foram à Vila da Povoação receber o Sr. Bispo D. Manuel Damasceno da Costa.
É recebido triunfalmente na Ribeira Quente com todos os requintes solenes de uma Visita Pastoral, que iniciava no dia 22 com a Bênção da nova Igreja Paroquial do Apóstolo São Paulo “que levara seis anos a construir”.
Na tarde daquele dia “foram administrados crismas a 600 pessoas.
No dia 23, Domingo, pelas 7 horas da manhã, sua Exa. Ordenou Presbítero ao Diácono Frederico Vieira Fernandes. Facto único na história desta Paróquia. Às 11 horas começou a festa em honra de São Paulo, que constou de Missa Solene abrilhantada pelo coro local e razoável número de Sacerdotes que reforçaram o dito coro.
A narração continua neste moldes: “ De tarde, em muita boa ordem, saiu a procissão em que foram conduzidos os andores de São Nicolau Tolentino, São Paulo, Nossa Senhora da Graça e Menino Jesus, culminando com Santo Lenho sob o pálio. A procissão encerrou com a presença de Sua Exa. Reverendíssima, ladeado de dois sacerdotes”.
Na segunda-feira, dia 24, pelas 7 horas, procedeu-se à Unção da Via-Sacra. Às 8:30 celebrou a sua primeira missa, o novo Presbítero ordenado no dia anterior.
Esta é a primeira narração recolhida sobre as festas de São Paulo integradas numa Visita Pastoral recheada das efemérides apontadas.
Não se sabe ao certo se outras festas em honra do padroeiro já se tinham celebrado anteriormente, mas é de supor que sim pelo facto da Visita Pastoral ter sido programada para o “ último fim-de-semana” de Setembro. As outras paróquias da Ouvidoria da Povoação, por serem mais antigas, já tinham preenchido os Domingos privilegiados de Verão. Escolheram esta data pela vantagem que trazia em coincidir com o tempo das colheitas e também com o quase terminus da safra das pescas do atum e bonito.
Nessa altura já haviam alguns dinheiros arrecadados da pesca dos tunídeos e as frutas e cereais recolhidos eram abundantes. Aqui, no tempo, existiam pomares de peros, maçãs, araças, uvas e seus vinhos novos que oram faziam montões ora preenchiam numerosos potes e barris de vinho doce para arrematar em favor das festas. Tudo invocava fartura ao serviço da Festa.
Os tempos mudaram com o significativo abandono das terras devido ao forte surto migratório que se alongou até aos nossos dias; com o aparecimento das festas populares do “Chicharro”, implantadas no coração do mês de Julho, época mais propícia à presença dos emigrantes em férias e pela afluência dos veraneantes e frequentadores acérrimos da praia.
Devido a tão consideráveis mudanças foi lançado inquérito à população, se perante vantagens de monta gostariam de mudar as festas de São Paulo para o mês de Julho. Foram peremptórios em concluir que “Não”!
Por isso, embora de Verão a Ribeira Quente seja muito visitada pelos seus emigrantes, devido ainda à tradicional índole acolhedora do seu povo, à confortante e agradável orla marítima, ao conjunto paisagístico do azul do mar, do verde da montanha e casario branco, ao feiticeiro porto e relaxante praia, às festas do Chicharro que concentram multidões, o certo é que o povo não quis abdicar da marcante data tradicional das festas de São Paulo, na última semana de Setembro.
Esta data permite não só alongar o período de “Verão Quente”, mas principalmente viver o valor da comunidade, cativando muitos que nos visitam por essa altura e com objectivo bem definido de celebrar a fé que nos une.
Hoje as festas de São Paulo tomaram proporções de Solenidade bem mais cativante, mesmo sob ameaças de equinócios de risco.
Padre Silvino Amaral
AUTO DA BENÇÃO DA IGREJA DE SÃO PAULO

Auto da Benção da Igreja de São Paulo, conforme consta na certidão que se encontra no livro do Tombo do arquivo paroquial:
Auto da benção da Egreja de São Paulo
da Ribeira Quente, feita por S. Excia Revma
o Snr D. Manuel Damasceno da Costa,
Bispo de Angra
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e dezasete, a vinte e dois de setembro, sendo chefe Supremo da Santa Egreja Católica Sua Santidade Bento XV e Bispo desta Diocese o Excelentissimo Senhor Dom Manuel Damasceno da Costa, parochiando esta freguesia o Padre Angelo de Amaral, procedeu-se á benção da egreja parochial do Apostolo São Paulo d'este logar da Ribeira Quente, cuja construção foi iniciada em mil novecentos e onze, sendo então parocho d'esta freguesia o Reverendo Jacinto Moniz Borges de saudosa memoria e a quem se devem bons esforços para a realização d'esta obra.
E porque ela representa a fé de um povo pouco numeroso, mas ardente na sua piedade animada pelas aptidões excepcionaes do seu actual parocho dignou-se Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese vir pessoalmente honrar o acto solene da benção da dita egreja, sendo Ele officiante e tendo por assistentes numerosos eclesiasticos e a comparencia de muitas outras pessoas d'este e doutros logares.
Depois de executados todos os actos liturgicos proprios de tão solene cerimonia presidida por um Bispo, foi celebrada uma missa solene na qual officiou o Reverendo Prior e Ouvidor Eclesiastico da Vila do Nordeste Padre José Lucindo de Souza Graça e pregou o Reverendo António Furtado de Mendonça Vigario do Pico da Pedra, havendo depois Solene Te - Deum em conclusão de tão solene festividade.
E para que tudo conste de futuro fique aqui registado embora por modo sumario que até ao presente estão gastos na edificação da egreja que hoje se benzeu cerca de quinze contos de reis, os quais se devem na sua totalidade á generosidade dos habitantes d'este logar e na sua maior parte á classe maritima que é a que com maior entusiasmo tem concorrido para a fundação da sua egreja.
E para que a todo o tempo conste se lavrou o presente auto que será assinado por Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese, por todo o Clero presente e mais pessoas que o possam fazer e por mim Dionisio Moniz de Almeida Presbitero e Cura na Matriz da Vila da Povoação, escrivão ecclesiastico da Ouvidoria desta comarca, que o subscrevi.
Egreja parochial do Apostolo São Paulo do
logar da Ribeira Quente, 22 de Setembro de 1917.
+ Manuel Damasceno da Costa
Conego Jose Moniz Pacheco Bettencourt
P. Jose Lucindo de Souza Graça
Angelo d'Amaral
Antonio Furtado de Mendonça
Francisco de Medeiros Tomaz
Ernesto Jacinto Raposo
Padre Jose Jacinto Botelho
Padre José Cabral Lindo
Padre Jose d'Paiva Amaral
Padre Luiz Augusto Pacheco
Padre Antonio Furtado d'Andrade
Padre Manuel Teixeira
Diacono Frederico Vieira Fernandes
III IGREJA DE SÃO PAULO

Erecto sobranceiramente na elevação da zona da Ponta da Albufeira, desde então passou a ser o maior e mais relevante edifício de sempre, da Ribeira Quente, de cujo seus filhos muito se orgulharam.
Como prova de reconhecimento e agradecimento de tão relevante empreendimento, porque o povo desta localidade sempre havia sido profundamente pobre, foi o então Bispo dos Açores D. Manuel Damasceno da Costa quem veio benzer e inaugurar esta nova Igreja de São Paulo.
Visto não haver outro caminho de acesso que não o velho "Caminho do Redondo", que era simplesmente um atalho, teve D. Manuel de ir primeiro à Vila da Povoação a fim de ali tomar um barco de pesca de boca aberta e a remos, da Ribeira Quente, que ali o foi buscar.
Para que não houvesse ofensas, ajuizadamente foi feito de pleno acordo um sorteio para ver a qual arrais caberia transportar tão ilustre chefe da Igreja nos Açores. Coube ao mestre de barco Manuel Linhares de Deus Abarrota tamanha honra.
Partindo este barco acompanhado de outros embandeirados, por volta das oito horas da manhã, uma hora depois chegava ao Porto Velho da Vila da Povoação, onde aguardaram Sua Excelência o Bispo D. Manuel.
À chegada do Bispo à praia, que era também o porto da Ribeira Quente, ali o esperavam todos os convidados e toda a população desta localidade, novos e velhos, os quais jamais até então tinham visto tão grande representante da Igreja.
Sob os acordes de uma banda de música das Furnas, desembarcou o Bispo D. Manuel que se foi paramentar numa casa daquele litoral, seguindo depois em procissão ao longo dessa praia (único caminho na altura). Depois subiu o íngreme caminho que o levou à igreja engalanada, onde se deu começo ao Auto da Igreja de São Paulo.
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