quarta-feira, 27 de agosto de 2008

ANO DE 1931

Em Janeiro deste ano de 1931, veio substituir o Padre José Luiz Borges Vieira na paróquia, o Padre João de Medeiros, natural da Vila da Povoação.
Profundamente ciente das necessidades do povo da Ribeira Quente, como os seus antecessores, teve de procurar minimizar o sofrimento desta gente ainda na mesma situação de sempre - o padre era o directo e indirecto interlocutor entre as autoridades governativas e o povo, porque fazia parte das suas obrigações humanas.
No campo espírito-material, é no percurso do seu tempo como pároco, que o templo de São Paulo passa pelas maiores transformações desde a sua bênção e inauguração em 1917.
Foi alargada a sacristia do lado nascente, que era estreita, dando origem à, ainda hoje larga sacristia, seu acesso posterior e cave.
A bancada foi totalmente alargada por toda a nave da igreja, porque antes, além de ser modesta, só cobria parte da mesma.
A Capela-Mór não tinha cadeiral, mas foi feito, como também foi feito um altar do lado epistolar - que só veio a receber a sua primeira imagem no ano de 1949.
Além da escadaria de acesso à sacristia, exteriormente foi feito o revestimento em argamassa de cimento e areia dos dois alçados laterais, porque, até àquela altura, as suas paredes não eram revestidas mas sim, na linguagem do povo, paredes cruas.
Segundo documentação comprovativa, foram os pescadores, desta vez com meio quinhão dos barcos, embora fossem bastante pobres, quem pagou estes empreendimentos, à medida que, por ironia, o povoado ia empobrecendo devido ao crescimento da população e à falta de recursos de subsistência de que o lugar padecia.
Nessa altura a população da Ribeira Quente já era superior à da do Faial da Terra e da de Água Retorta mas ainda não possuía quaisquer caminhos de acesso para fora do povoado, além dos rudimentares já citados; nem água potável nem iluminação pública, embora a central produtora lhe ficasse logo mais acima na "Ribeira dos Tambores"!
Só tinha uma escola primária improvisada numa casa particular do lado nascente da ribeira e, já no começo da falésia da "Ponta do Garajau", um posto de correio também improvisado num pequeno estabelecimento comercial junto do litoral, cujo vencimento do seu proprietário era uma pequena percentagem que lhe era concedida pela venda de selos; mas cabia-lhe também, por imposição, ter de fazer chegar o saco do correio, ou mala do correio, como o povo a chamava, à curva da estrada onde nascia o "Caminho do Redondo", a fim de ali apanhar a carreira regular que por ali passava todas as manhãs, por volta das sete e pouco da manhã.
Esse doloroso trabalho era feito por uma pobre mulher casada, com filhos, a troco de meia dúzia de escudos mensais, visto que seu marido, pescador (António Fanha ou António Povoação), nem sempre tinha sorte no mar.
Foi nesta situação de atrofiamento e miséria que o povo da Ribeira Quente foi atingido por uma das maiores catástrofes sísmicas de sempre.
A 5 do mês de Agosto do ano seguinte, 1932, toda esta ilha de São Miguel foi sacudida, devido a um abalo de origem tectónica - falha Açores-Gilbraltar, hoje muito conhecida pela ciência - de tão forte magnitude, que fez ruir, a partir do estremo de Ponta Garça, todas as casas da Lomba do Cavaleiro, muitas da Lomba do Carro e outras na faixa entre aquela localidade de Ponta Garça e Faial da terra. A Ribeira Quente, embora de permeio, estatisticamente não é mencionadaembora tivesse sido bastante atingida.





1917 A 1928

Embora se não saiba com rigor qual seria o número populacional da Ribeira Quente na altura da bênção e inauguração do seu terceiro templo, podemos aceitar a ideia de que a mesma não seria inferior a mil e setecentas pessoas, visto que, aparecendo pela primeira vez documentalmente uma estatística abrangente que inclui o lugar da Ribeira Quente, a mesma lhe dê nesse ano de 1864 uma população de 1065, para depois, já no ano de 1900 lhe ser dada uma população de 1463 pessoas. Por isso é lógico que dezassete anos depois, no ano da inauguração, no mínimo o número de pessoas acima relativamente mencionadas fosse uma aproximação da verdade.
De 1911 a 1949 não existem números estatísticos que mencionem qualquer censo acerca da Ribeira Quente, visto a população desta localidade estar anexada à da Igreja Matriz da Povoação, por ter passado a ser parte integrante da mesma depois de perder o direito de ser paróquia autónoma. Por isso, estatisticamente falando, só no ano de 1950 aparece oficialmente a Ribeira Quente já feita freguesia e com uma população de 2126 almas.
Fosse como fosse, a igreja então ao tempo inaugurada naquele ano de 1917, foi definitivamente dimensionada para o futuro, visto o lugar da Ribeira Quente por justa posição geográfica, ser um lugar encravado e financeiramente limitado.
No percurso da sua existência até ao presente, este templo de São Paulo jamais foi alterado no seu aspecto de igreja de uma só nave. Só as suas duas sacristias laterais sofreram algumas transformações que vão ser mencionadas.
Com um alçado principal alegre e leve porque a sua cantaria é pobre, no entanto a sua situação sobranceira dá-lhe um aspecto de imponência.
A sua torre sineira antes era um pequeno museu do passado porque encerrava dentro de si um grande pedaço de história. Esta história encontra-se agora com os Sinos em exposição no Baptistério da Igreja.
O Sino que anteriormente estava do lado nascente, quer pelo seu aspecto de fabrico tosco muito rudimentar, quer pela corrosão causada pelas salseiradas do mar, logo nos mostra ter sido o único sino que veio da primitiva Ermida de São Paulo, e que tudo indica ter sido fabricado nesta ilha.
O Sino que anteriormente estava na janela sineira do lado poente confunde-nos por serem reais mas enigmáticos os dizeres que nele se lêem em nítido relevo:
"SSmo. DE SAO PAULO OFERECIDO POR I. (?) M. NOGUEIRA, BELLAS V FEZ LISBA 1489"
Na parte superior esterior tem o mesmo uma imagem do Apóstolo São Paulo em relevo bastante vivo.
Oferecido pela mesma família que ofereceu os outros dois sinos em datas bastante posteriores, tudo nos leva a crer que a data de 1489 foi uma ESMERALDA de enfeite apropriado.
O sino que estava do lado sul, que é o mais rico no tamanho e nos dizers, ao cimo, na parte virada para o interior da torre, tem uma quadrícula moldada e no centro da mesma em letra relevante:
MANUEL ANTONIO MARTINS O FES
e logo mais abaixo:
CONSTRUIDO EM LISBOA NA FÁBRICA DA RUA AUGUSTA NO ANO DE 1839
JOZE MATHEUS NOGUEIRA O MANDOU FAZER PARA A IGREJA DE SÃO PAULO DA RIBEIRA QUENTE
O mais pequeno dos sinos, o que estava na janela do lado norte tem na parte superior exposta uma Cruz da Natividade bastante relevante, mas os dizeres não são, como os dois anteriores, em relevo mas sim gravados na parte baixa do mesmo:
JOZE MATHEUS NOGUEIRA O MANDOU FAZER EM 1854 P'A IGREJA DE S. PAULO NA RB' QUENTE
Estes dados que se lêem nestes três sinos que pertenceram à segunda Igreja de São Paulo e hoje fazem parte do património da igreja actual, não só identificam o seu benemérito doador, como marcam a data do começo de uma grande viragem na vida religiosa do povo da Ribeira Quente, porque, como já foi dito, depois da construção do primeiro Sacrário feito por doação desse proprietário e médico José Mateus Nogueira, o lugar da Ribeira Quente se emancipou ou soltou das peias que o travavam a Ponta Garça, devido à sua subserviência religiosa.
Depois de ter paroquiado a Igreja de São Paulo durante nove anos, o seu maior mentor, o Padre Ângelo Amaral partiu para a América do Norte onde permaneceu e veio a falecer. Do livro de Assentos desta paróquia e da autoria de um pároco que veio a falar dele decorridos que eram catorze anos, lê-se:
"... a quem se ficou devendo o seu levantamento (da Igreja), pois era daqueles de quem se costuma dizer - 'antes quebrar que torcer' - arrostando contra todas as dificuldades etc.",
conseguiu não só levantar este templo, como buscou para o seu interior aquilo que então o povo da Ribeira Quente lhe não podia dar e que é sempre uma das obras mais dispendiosas de um templo: o retábulo.
Na realidade, sabendo o Padre Ângelo que, depois da implantação da República os energúmenos haviam despejado a Igreja da Graça de Ponta Delgada para ali implantar um tribunal, este sacerdote ultrapassou muitos obstáculos e conseguiu que o retábulo desta igreja fosse oferecido à da nova igreja que depois veio a inaugurar, como já foi dito, levando da mesma, também uma imagem de Nossa Senhora do Leite, a de Santa Teresinha, a de São Pedro Gonçalves - que havia sido Patrono dos pescadores da Calheta e de Santa Clara, que se desavieram por causa desta imagem quando a mesma foi trazida do seu primitivo altar, que existia naquela que veio a ser a Igreja de São José de Ponta Delgada, para a da Graça - assim como as imagens de Santo Agostinho, Senhor Morto, São João Evangelista e São Nicolau de Tolentino.
Para substituir o Padre Ângelo veio da mesma ouvidoria o Padre José Luiz Borges Vieira, natural de Água de Pau, que na altura deixou de ser pároco da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios da Lomba do Loução.
Foi no seu tempo que foi feita a balaustrada que circunda o adro da actual igreja da Ribeira Quente, como foi no tempo deste que se tentou construir uma casa paroquial que não havia nesta localidade, a qual, por razões óbvias, nunca foi além de meias paredes.
Sem ser a forte vertente mar e igreja, mais nada constava acerca da Ribeira Quente, até que, no ano de 1927 veio a ser quebrada esta monotonia, com a construção de uma pequena muralha de protecção que partia da zona chamada "Prédio das Vieiras", até ao porto. Simples mas útil não como muralha de protecção, mas sim porque além dessa obrigação, permitia que antes de se entrar nas areias da praia que o mar ia repondo, houvesse umas dezenas de metros de caminho propriamente dito.
No ano seguinte, 1928, uma forte tempestade cortou quase totalmente este acesso, por isso foi aberto o caminho que o povo passou a chamar de estrada, conforme consta de um extracto paroquial:
"ANO DE 1928 - Neste ano há a registar nesta freguesia a abertura da nova estrada junto à rocha desde o princípio da freguesia até à igreja paroquial porque o mar já quase levou o antigo caminho junto à praia".
Já eram então decorridos, nessa altura, mais de 260 anos desde que a Ribeira Quente se havia tornado povoado, conforme consta dos apanhados históricos já mencionados acerca da suposta visita feita por D. Frei Lourenço de Castro. No entanto este lugar ainda não era freguesia.
As palavras acima referidas, "nesta freguesia" e "nova estrada", foram uma simples expressão então adequada para mencionar o acontecimento.
A "nova estrada", não era sinónimo de haver outra estrada, porque até àquela altura só havia sido feito (não pelo município), o pequeno paredão que ia da zona do actual porto para poente, o qual acabava, como já foi dito, no "Prédio das Vieira" ou logo pouco mais além da Rua Direita, e que servia só para pedestres antes de entrar na praia a parte da barreira composta por terras que o mar ia deixando e o povo da zona da Ribeira pisava para poder atingir a sua igreja.

ORIGEM DAS FESTAS DE SÃO PAULO


No livro do Tombo da igreja paroquial da Ribeira Quente encontra-se registada a: «notícia circunstanciada da estadia do Senhor Bispo nesta freguesia», por ocasião de uma visita pastoral que integrou a Bênção da Nova Igreja, Festa de São Paulo, ordenação de Presbítero e Unção de Via-Sacra, nos dias 22,23 e 24 de Setembro do ano 1917.
A narrativa é bastante longa e pormenorizada, mas podemos sintetizá-la no essencial.
Começa por descrever a maneira solene como 12 embarcações bastante engalanadas foram à Vila da Povoação receber o Sr. Bispo D. Manuel Damasceno da Costa.
É recebido triunfalmente na Ribeira Quente com todos os requintes solenes de uma Visita Pastoral, que iniciava no dia 22 com a Bênção da nova Igreja Paroquial do Apóstolo São Paulo “que levara seis anos a construir”.
Na tarde daquele dia “foram administrados crismas a 600 pessoas.
No dia 23, Domingo, pelas 7 horas da manhã, sua Exa. Ordenou Presbítero ao Diácono Frederico Vieira Fernandes. Facto único na história desta Paróquia. Às 11 horas começou a festa em honra de São Paulo, que constou de Missa Solene abrilhantada pelo coro local e razoável número de Sacerdotes que reforçaram o dito coro.
A narração continua neste moldes: “ De tarde, em muita boa ordem, saiu a procissão em que foram conduzidos os andores de São Nicolau Tolentino, São Paulo, Nossa Senhora da Graça e Menino Jesus, culminando com Santo Lenho sob o pálio. A procissão encerrou com a presença de Sua Exa. Reverendíssima, ladeado de dois sacerdotes”.
Na segunda-feira, dia 24, pelas 7 horas, procedeu-se à Unção da Via-Sacra. Às 8:30 celebrou a sua primeira missa, o novo Presbítero ordenado no dia anterior.
Esta é a primeira narração recolhida sobre as festas de São Paulo integradas numa Visita Pastoral recheada das efemérides apontadas.
Não se sabe ao certo se outras festas em honra do padroeiro já se tinham celebrado anteriormente, mas é de supor que sim pelo facto da Visita Pastoral ter sido programada para o “ último fim-de-semana” de Setembro. As outras paróquias da Ouvidoria da Povoação, por serem mais antigas, já tinham preenchido os Domingos privilegiados de Verão. Escolheram esta data pela vantagem que trazia em coincidir com o tempo das colheitas e também com o quase terminus da safra das pescas do atum e bonito.
Nessa altura já haviam alguns dinheiros arrecadados da pesca dos tunídeos e as frutas e cereais recolhidos eram abundantes. Aqui, no tempo, existiam pomares de peros, maçãs, araças, uvas e seus vinhos novos que oram faziam montões ora preenchiam numerosos potes e barris de vinho doce para arrematar em favor das festas. Tudo invocava fartura ao serviço da Festa.
Os tempos mudaram com o significativo abandono das terras devido ao forte surto migratório que se alongou até aos nossos dias; com o aparecimento das festas populares do “Chicharro”, implantadas no coração do mês de Julho, época mais propícia à presença dos emigrantes em férias e pela afluência dos veraneantes e frequentadores acérrimos da praia.
Devido a tão consideráveis mudanças foi lançado inquérito à população, se perante vantagens de monta gostariam de mudar as festas de São Paulo para o mês de Julho. Foram peremptórios em concluir que “Não”!
Por isso, embora de Verão a Ribeira Quente seja muito visitada pelos seus emigrantes, devido ainda à tradicional índole acolhedora do seu povo, à confortante e agradável orla marítima, ao conjunto paisagístico do azul do mar, do verde da montanha e casario branco, ao feiticeiro porto e relaxante praia, às festas do Chicharro que concentram multidões, o certo é que o povo não quis abdicar da marcante data tradicional das festas de São Paulo, na última semana de Setembro.
Esta data permite não só alongar o período de “Verão Quente”, mas principalmente viver o valor da comunidade, cativando muitos que nos visitam por essa altura e com objectivo bem definido de celebrar a fé que nos une.
Hoje as festas de São Paulo tomaram proporções de Solenidade bem mais cativante, mesmo sob ameaças de equinócios de risco.


Padre Silvino Amaral

AUTO DA BENÇÃO DA IGREJA DE SÃO PAULO


Auto da Benção da Igreja de São Paulo, conforme consta na certidão que se encontra no livro do Tombo do arquivo paroquial:


Auto da benção da Egreja de São Paulo

da Ribeira Quente, feita por S. Excia Revma

o Snr D. Manuel Damasceno da Costa,

Bispo de Angra


Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e dezasete, a vinte e dois de setembro, sendo chefe Supremo da Santa Egreja Católica Sua Santidade Bento XV e Bispo desta Diocese o Excelentissimo Senhor Dom Manuel Damasceno da Costa, parochiando esta freguesia o Padre Angelo de Amaral, procedeu-se á benção da egreja parochial do Apostolo São Paulo d'este logar da Ribeira Quente, cuja construção foi iniciada em mil novecentos e onze, sendo então parocho d'esta freguesia o Reverendo Jacinto Moniz Borges de saudosa memoria e a quem se devem bons esforços para a realização d'esta obra.

E porque ela representa a fé de um povo pouco numeroso, mas ardente na sua piedade animada pelas aptidões excepcionaes do seu actual parocho dignou-se Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese vir pessoalmente honrar o acto solene da benção da dita egreja, sendo Ele officiante e tendo por assistentes numerosos eclesiasticos e a comparencia de muitas outras pessoas d'este e doutros logares.

Depois de executados todos os actos liturgicos proprios de tão solene cerimonia presidida por um Bispo, foi celebrada uma missa solene na qual officiou o Reverendo Prior e Ouvidor Eclesiastico da Vila do Nordeste Padre José Lucindo de Souza Graça e pregou o Reverendo António Furtado de Mendonça Vigario do Pico da Pedra, havendo depois Solene Te - Deum em conclusão de tão solene festividade.

E para que tudo conste de futuro fique aqui registado embora por modo sumario que até ao presente estão gastos na edificação da egreja que hoje se benzeu cerca de quinze contos de reis, os quais se devem na sua totalidade á generosidade dos habitantes d'este logar e na sua maior parte á classe maritima que é a que com maior entusiasmo tem concorrido para a fundação da sua egreja.

E para que a todo o tempo conste se lavrou o presente auto que será assinado por Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese, por todo o Clero presente e mais pessoas que o possam fazer e por mim Dionisio Moniz de Almeida Presbitero e Cura na Matriz da Vila da Povoação, escrivão ecclesiastico da Ouvidoria desta comarca, que o subscrevi.


Egreja parochial do Apostolo São Paulo do

logar da Ribeira Quente, 22 de Setembro de 1917.


+ Manuel Damasceno da Costa

Conego Jose Moniz Pacheco Bettencourt

P. Jose Lucindo de Souza Graça

Angelo d'Amaral

Antonio Furtado de Mendonça

Francisco de Medeiros Tomaz

Ernesto Jacinto Raposo

Padre Jose Jacinto Botelho

Padre José Cabral Lindo

Padre Jose d'Paiva Amaral

Padre Luiz Augusto Pacheco

Padre Antonio Furtado d'Andrade

Padre Manuel Teixeira

Diacono Frederico Vieira Fernandes

III IGREJA DE SÃO PAULO


Erecto sobranceiramente na elevação da zona da Ponta da Albufeira, desde então passou a ser o maior e mais relevante edifício de sempre, da Ribeira Quente, de cujo seus filhos muito se orgulharam.

Como prova de reconhecimento e agradecimento de tão relevante empreendimento, porque o povo desta localidade sempre havia sido profundamente pobre, foi o então Bispo dos Açores D. Manuel Damasceno da Costa quem veio benzer e inaugurar esta nova Igreja de São Paulo.

Visto não haver outro caminho de acesso que não o velho "Caminho do Redondo", que era simplesmente um atalho, teve D. Manuel de ir primeiro à Vila da Povoação a fim de ali tomar um barco de pesca de boca aberta e a remos, da Ribeira Quente, que ali o foi buscar.

Para que não houvesse ofensas, ajuizadamente foi feito de pleno acordo um sorteio para ver a qual arrais caberia transportar tão ilustre chefe da Igreja nos Açores. Coube ao mestre de barco Manuel Linhares de Deus Abarrota tamanha honra.

Partindo este barco acompanhado de outros embandeirados, por volta das oito horas da manhã, uma hora depois chegava ao Porto Velho da Vila da Povoação, onde aguardaram Sua Excelência o Bispo D. Manuel.

À chegada do Bispo à praia, que era também o porto da Ribeira Quente, ali o esperavam todos os convidados e toda a população desta localidade, novos e velhos, os quais jamais até então tinham visto tão grande representante da Igreja.

Sob os acordes de uma banda de música das Furnas, desembarcou o Bispo D. Manuel que se foi paramentar numa casa daquele litoral, seguindo depois em procissão ao longo dessa praia (único caminho na altura). Depois subiu o íngreme caminho que o levou à igreja engalanada, onde se deu começo ao Auto da Igreja de São Paulo.

ANO DE 1916

A 29 de Junho deste ano de 1916, veio tomar posse da paróquia de São Paulo da Ribeira Quente o povoacense Padre Ângelo de Amaral, natural da Lomba do Alcaide da Povoação.
Figura muito activa, que penetrava decididamente nos meios de decisão, deu o necessário impulso que faltava nas obras do novo templo em andamento, e, de tal modo o fez, que a 22 de Setembro do ano seguinte, 1917, no meio da maior euforia e exultante regozijo, os paroquianos desta localidade da Ribeira Quente, ainda lugar totalmente isolado, celebravam festivamente o seu verdadeiro templo, porque, este sim, era quase todo fruto do seu trabalho.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

ANO DE 1909


Antevendo como se esperava, o Padre Jacinto Moniz Borges e os seus paroquianos, o dia final da segunda Igreja desta localidade, logo que o mesmo tomou posse, em 1900, das suas obrigações de chefe espiritual, foi preparando o povo para a grande tragédia que um dia impreterivelmente aconteceria e, simultaneamente incentivando o mesmo par o dever e a obrigação de construir um novo templo.
E o previsto veio a acontecer num dia de mar elevado no ano de 1909. Este, na sua fúria, varreu a segunda Igreja e tudo aquilo que lhe ficava adjacente, inclusive o seu cemitério e as casas que naquela zona se estendiam para poente e nascente, ficando apenas alguns dos modestos casebres que se situavam ao cimo da "Canada da Igreja Velha", e parte das terras de vinha da família da Tia Chica Vieira, onde existia uma residência.
Habituado o povo ao sofrimento e às tragédias, e orientado por este ilustre e corajoso sacerdote, o Padre Jacinto, de imediato se constituiu uma Comissão Fabriqueira para a construção de um novo templo.
Dessa Comissão faziam parte Manuel Linhares de Deus, homem muito respeitado naquela localidade, presidente da mesma, o qual se deslocou propositadamente à América do Norte, mais à zona de Fall River e New Bedford onde existiam alguns filhos da Ribeira Quente e concelho da Povoação, a fim de angariar alguns fundos. Mas, porque naquela altura os nossos emigrantes também viviam uma vida financeira não muito lauta, os auxílios que de lá vieram foram relativamente poucos.
Fizeram-se também por toda a ilha, como era habitual nas suas igrejas, pedidos de cooperação, mas também pouco resultou porque naqueles tempos a pobreza morava por toda a parte.
Já sem veraneantes que os ajudasse em tamanho empreendimento da construção de uma nova igreja, visto que as propriedades do litoral foram desaparecendo à maneira que o mar as engolia, foram os pescadores desta localidade quem, por unanimidade, decidiram que dali avante cada barco de pesca passaria a ter mais um companheiro, mais um quinhoeiro chamado Senhor São Paulo.
Quer nos bons como nos maus momentos de pesca, sempre que os barcos chegavam à terra, depois de pago o dízimo de obrigação - dez por cento de todo o pescado que era arrecadado para o Estado, sem quaisquer contrapartidas - tudo era dividido na forma normal. A parte que cabia a São paulo era entregue ao tesoureiro da Comissão Fabriqueira, outro bom filho da Ribeira Quente de nome António da Costa Fravica.
Com a perda da sua segunda igreja, os cristãos da Ribeira Quente (toda a população), nem por isso deixaram de assistir à sua Santa Missa como dantes, porque desde a data em que o mar lhes roubou a mesma, as missas e demais actos de culto passaram a ser celebrados numa casa particular pertencente ao proprietário desta localidade, João Vieira Jerónimo e sua esposa Clotilde.
Sem grandes recursos financeiros mas apenas com a grande ajuda, ou a maior ajuda de todas, a dos homens do mar; sem água potável ou outra nas imediações, nem argila (barro) ali à mão, porque o que havia em pequenas quantidades só existia na parte alta da Zona do segundo cemitério desta localidade, e transporte só o faziam as mulheres à cabeça; sem cal nem artífices, visto que a Ribeira Quente tinha uma população maioritariamente de pescadores e a outra parte da população, a da zona do Fogo, que era uma minoria que susistia à custa de trabalhos prestados, como gente do campo, aos proprietários das terras altas e das pequenas parcelas que o mar tinha deixado, assim como da fajãs existentes sobre as falésias de Ponta do Garajau e Ponta da Lobeira, os quais só aos domingos podiam ajudar, foi em junção de esforços e boas vontades de todos, camponeses e pescadores, que o Padre Jacinto Moniz Borges deu início aos trabalhos de abertura dos alicerces que vieram a servir de fundo às paredes da nova igreja que, histórica e oficialmente, só veio a começar em 1911.
No percurso das ansiedades e canseiras, este grande impulsionador das obras desta nova igreja, veio lentamente a adoecer, vindo a morrer em Vila Franca do Campo, sua terra natal, em Abril de 1916 - segundo os dados colhidos em documentação facultada - "Na maior pobreza, prestando-lhe uma sentida homenagem, por ocasião do seu funeral, o rebanho que tanto estimava, o seu povo".