quarta-feira, 27 de agosto de 2008

ORIGEM DAS FESTAS DE SÃO PAULO


No livro do Tombo da igreja paroquial da Ribeira Quente encontra-se registada a: «notícia circunstanciada da estadia do Senhor Bispo nesta freguesia», por ocasião de uma visita pastoral que integrou a Bênção da Nova Igreja, Festa de São Paulo, ordenação de Presbítero e Unção de Via-Sacra, nos dias 22,23 e 24 de Setembro do ano 1917.
A narrativa é bastante longa e pormenorizada, mas podemos sintetizá-la no essencial.
Começa por descrever a maneira solene como 12 embarcações bastante engalanadas foram à Vila da Povoação receber o Sr. Bispo D. Manuel Damasceno da Costa.
É recebido triunfalmente na Ribeira Quente com todos os requintes solenes de uma Visita Pastoral, que iniciava no dia 22 com a Bênção da nova Igreja Paroquial do Apóstolo São Paulo “que levara seis anos a construir”.
Na tarde daquele dia “foram administrados crismas a 600 pessoas.
No dia 23, Domingo, pelas 7 horas da manhã, sua Exa. Ordenou Presbítero ao Diácono Frederico Vieira Fernandes. Facto único na história desta Paróquia. Às 11 horas começou a festa em honra de São Paulo, que constou de Missa Solene abrilhantada pelo coro local e razoável número de Sacerdotes que reforçaram o dito coro.
A narração continua neste moldes: “ De tarde, em muita boa ordem, saiu a procissão em que foram conduzidos os andores de São Nicolau Tolentino, São Paulo, Nossa Senhora da Graça e Menino Jesus, culminando com Santo Lenho sob o pálio. A procissão encerrou com a presença de Sua Exa. Reverendíssima, ladeado de dois sacerdotes”.
Na segunda-feira, dia 24, pelas 7 horas, procedeu-se à Unção da Via-Sacra. Às 8:30 celebrou a sua primeira missa, o novo Presbítero ordenado no dia anterior.
Esta é a primeira narração recolhida sobre as festas de São Paulo integradas numa Visita Pastoral recheada das efemérides apontadas.
Não se sabe ao certo se outras festas em honra do padroeiro já se tinham celebrado anteriormente, mas é de supor que sim pelo facto da Visita Pastoral ter sido programada para o “ último fim-de-semana” de Setembro. As outras paróquias da Ouvidoria da Povoação, por serem mais antigas, já tinham preenchido os Domingos privilegiados de Verão. Escolheram esta data pela vantagem que trazia em coincidir com o tempo das colheitas e também com o quase terminus da safra das pescas do atum e bonito.
Nessa altura já haviam alguns dinheiros arrecadados da pesca dos tunídeos e as frutas e cereais recolhidos eram abundantes. Aqui, no tempo, existiam pomares de peros, maçãs, araças, uvas e seus vinhos novos que oram faziam montões ora preenchiam numerosos potes e barris de vinho doce para arrematar em favor das festas. Tudo invocava fartura ao serviço da Festa.
Os tempos mudaram com o significativo abandono das terras devido ao forte surto migratório que se alongou até aos nossos dias; com o aparecimento das festas populares do “Chicharro”, implantadas no coração do mês de Julho, época mais propícia à presença dos emigrantes em férias e pela afluência dos veraneantes e frequentadores acérrimos da praia.
Devido a tão consideráveis mudanças foi lançado inquérito à população, se perante vantagens de monta gostariam de mudar as festas de São Paulo para o mês de Julho. Foram peremptórios em concluir que “Não”!
Por isso, embora de Verão a Ribeira Quente seja muito visitada pelos seus emigrantes, devido ainda à tradicional índole acolhedora do seu povo, à confortante e agradável orla marítima, ao conjunto paisagístico do azul do mar, do verde da montanha e casario branco, ao feiticeiro porto e relaxante praia, às festas do Chicharro que concentram multidões, o certo é que o povo não quis abdicar da marcante data tradicional das festas de São Paulo, na última semana de Setembro.
Esta data permite não só alongar o período de “Verão Quente”, mas principalmente viver o valor da comunidade, cativando muitos que nos visitam por essa altura e com objectivo bem definido de celebrar a fé que nos une.
Hoje as festas de São Paulo tomaram proporções de Solenidade bem mais cativante, mesmo sob ameaças de equinócios de risco.


Padre Silvino Amaral

AUTO DA BENÇÃO DA IGREJA DE SÃO PAULO


Auto da Benção da Igreja de São Paulo, conforme consta na certidão que se encontra no livro do Tombo do arquivo paroquial:


Auto da benção da Egreja de São Paulo

da Ribeira Quente, feita por S. Excia Revma

o Snr D. Manuel Damasceno da Costa,

Bispo de Angra


Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e dezasete, a vinte e dois de setembro, sendo chefe Supremo da Santa Egreja Católica Sua Santidade Bento XV e Bispo desta Diocese o Excelentissimo Senhor Dom Manuel Damasceno da Costa, parochiando esta freguesia o Padre Angelo de Amaral, procedeu-se á benção da egreja parochial do Apostolo São Paulo d'este logar da Ribeira Quente, cuja construção foi iniciada em mil novecentos e onze, sendo então parocho d'esta freguesia o Reverendo Jacinto Moniz Borges de saudosa memoria e a quem se devem bons esforços para a realização d'esta obra.

E porque ela representa a fé de um povo pouco numeroso, mas ardente na sua piedade animada pelas aptidões excepcionaes do seu actual parocho dignou-se Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese vir pessoalmente honrar o acto solene da benção da dita egreja, sendo Ele officiante e tendo por assistentes numerosos eclesiasticos e a comparencia de muitas outras pessoas d'este e doutros logares.

Depois de executados todos os actos liturgicos proprios de tão solene cerimonia presidida por um Bispo, foi celebrada uma missa solene na qual officiou o Reverendo Prior e Ouvidor Eclesiastico da Vila do Nordeste Padre José Lucindo de Souza Graça e pregou o Reverendo António Furtado de Mendonça Vigario do Pico da Pedra, havendo depois Solene Te - Deum em conclusão de tão solene festividade.

E para que tudo conste de futuro fique aqui registado embora por modo sumario que até ao presente estão gastos na edificação da egreja que hoje se benzeu cerca de quinze contos de reis, os quais se devem na sua totalidade á generosidade dos habitantes d'este logar e na sua maior parte á classe maritima que é a que com maior entusiasmo tem concorrido para a fundação da sua egreja.

E para que a todo o tempo conste se lavrou o presente auto que será assinado por Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese, por todo o Clero presente e mais pessoas que o possam fazer e por mim Dionisio Moniz de Almeida Presbitero e Cura na Matriz da Vila da Povoação, escrivão ecclesiastico da Ouvidoria desta comarca, que o subscrevi.


Egreja parochial do Apostolo São Paulo do

logar da Ribeira Quente, 22 de Setembro de 1917.


+ Manuel Damasceno da Costa

Conego Jose Moniz Pacheco Bettencourt

P. Jose Lucindo de Souza Graça

Angelo d'Amaral

Antonio Furtado de Mendonça

Francisco de Medeiros Tomaz

Ernesto Jacinto Raposo

Padre Jose Jacinto Botelho

Padre José Cabral Lindo

Padre Jose d'Paiva Amaral

Padre Luiz Augusto Pacheco

Padre Antonio Furtado d'Andrade

Padre Manuel Teixeira

Diacono Frederico Vieira Fernandes

III IGREJA DE SÃO PAULO


Erecto sobranceiramente na elevação da zona da Ponta da Albufeira, desde então passou a ser o maior e mais relevante edifício de sempre, da Ribeira Quente, de cujo seus filhos muito se orgulharam.

Como prova de reconhecimento e agradecimento de tão relevante empreendimento, porque o povo desta localidade sempre havia sido profundamente pobre, foi o então Bispo dos Açores D. Manuel Damasceno da Costa quem veio benzer e inaugurar esta nova Igreja de São Paulo.

Visto não haver outro caminho de acesso que não o velho "Caminho do Redondo", que era simplesmente um atalho, teve D. Manuel de ir primeiro à Vila da Povoação a fim de ali tomar um barco de pesca de boca aberta e a remos, da Ribeira Quente, que ali o foi buscar.

Para que não houvesse ofensas, ajuizadamente foi feito de pleno acordo um sorteio para ver a qual arrais caberia transportar tão ilustre chefe da Igreja nos Açores. Coube ao mestre de barco Manuel Linhares de Deus Abarrota tamanha honra.

Partindo este barco acompanhado de outros embandeirados, por volta das oito horas da manhã, uma hora depois chegava ao Porto Velho da Vila da Povoação, onde aguardaram Sua Excelência o Bispo D. Manuel.

À chegada do Bispo à praia, que era também o porto da Ribeira Quente, ali o esperavam todos os convidados e toda a população desta localidade, novos e velhos, os quais jamais até então tinham visto tão grande representante da Igreja.

Sob os acordes de uma banda de música das Furnas, desembarcou o Bispo D. Manuel que se foi paramentar numa casa daquele litoral, seguindo depois em procissão ao longo dessa praia (único caminho na altura). Depois subiu o íngreme caminho que o levou à igreja engalanada, onde se deu começo ao Auto da Igreja de São Paulo.

ANO DE 1916

A 29 de Junho deste ano de 1916, veio tomar posse da paróquia de São Paulo da Ribeira Quente o povoacense Padre Ângelo de Amaral, natural da Lomba do Alcaide da Povoação.
Figura muito activa, que penetrava decididamente nos meios de decisão, deu o necessário impulso que faltava nas obras do novo templo em andamento, e, de tal modo o fez, que a 22 de Setembro do ano seguinte, 1917, no meio da maior euforia e exultante regozijo, os paroquianos desta localidade da Ribeira Quente, ainda lugar totalmente isolado, celebravam festivamente o seu verdadeiro templo, porque, este sim, era quase todo fruto do seu trabalho.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

ANO DE 1909


Antevendo como se esperava, o Padre Jacinto Moniz Borges e os seus paroquianos, o dia final da segunda Igreja desta localidade, logo que o mesmo tomou posse, em 1900, das suas obrigações de chefe espiritual, foi preparando o povo para a grande tragédia que um dia impreterivelmente aconteceria e, simultaneamente incentivando o mesmo par o dever e a obrigação de construir um novo templo.
E o previsto veio a acontecer num dia de mar elevado no ano de 1909. Este, na sua fúria, varreu a segunda Igreja e tudo aquilo que lhe ficava adjacente, inclusive o seu cemitério e as casas que naquela zona se estendiam para poente e nascente, ficando apenas alguns dos modestos casebres que se situavam ao cimo da "Canada da Igreja Velha", e parte das terras de vinha da família da Tia Chica Vieira, onde existia uma residência.
Habituado o povo ao sofrimento e às tragédias, e orientado por este ilustre e corajoso sacerdote, o Padre Jacinto, de imediato se constituiu uma Comissão Fabriqueira para a construção de um novo templo.
Dessa Comissão faziam parte Manuel Linhares de Deus, homem muito respeitado naquela localidade, presidente da mesma, o qual se deslocou propositadamente à América do Norte, mais à zona de Fall River e New Bedford onde existiam alguns filhos da Ribeira Quente e concelho da Povoação, a fim de angariar alguns fundos. Mas, porque naquela altura os nossos emigrantes também viviam uma vida financeira não muito lauta, os auxílios que de lá vieram foram relativamente poucos.
Fizeram-se também por toda a ilha, como era habitual nas suas igrejas, pedidos de cooperação, mas também pouco resultou porque naqueles tempos a pobreza morava por toda a parte.
Já sem veraneantes que os ajudasse em tamanho empreendimento da construção de uma nova igreja, visto que as propriedades do litoral foram desaparecendo à maneira que o mar as engolia, foram os pescadores desta localidade quem, por unanimidade, decidiram que dali avante cada barco de pesca passaria a ter mais um companheiro, mais um quinhoeiro chamado Senhor São Paulo.
Quer nos bons como nos maus momentos de pesca, sempre que os barcos chegavam à terra, depois de pago o dízimo de obrigação - dez por cento de todo o pescado que era arrecadado para o Estado, sem quaisquer contrapartidas - tudo era dividido na forma normal. A parte que cabia a São paulo era entregue ao tesoureiro da Comissão Fabriqueira, outro bom filho da Ribeira Quente de nome António da Costa Fravica.
Com a perda da sua segunda igreja, os cristãos da Ribeira Quente (toda a população), nem por isso deixaram de assistir à sua Santa Missa como dantes, porque desde a data em que o mar lhes roubou a mesma, as missas e demais actos de culto passaram a ser celebrados numa casa particular pertencente ao proprietário desta localidade, João Vieira Jerónimo e sua esposa Clotilde.
Sem grandes recursos financeiros mas apenas com a grande ajuda, ou a maior ajuda de todas, a dos homens do mar; sem água potável ou outra nas imediações, nem argila (barro) ali à mão, porque o que havia em pequenas quantidades só existia na parte alta da Zona do segundo cemitério desta localidade, e transporte só o faziam as mulheres à cabeça; sem cal nem artífices, visto que a Ribeira Quente tinha uma população maioritariamente de pescadores e a outra parte da população, a da zona do Fogo, que era uma minoria que susistia à custa de trabalhos prestados, como gente do campo, aos proprietários das terras altas e das pequenas parcelas que o mar tinha deixado, assim como da fajãs existentes sobre as falésias de Ponta do Garajau e Ponta da Lobeira, os quais só aos domingos podiam ajudar, foi em junção de esforços e boas vontades de todos, camponeses e pescadores, que o Padre Jacinto Moniz Borges deu início aos trabalhos de abertura dos alicerces que vieram a servir de fundo às paredes da nova igreja que, histórica e oficialmente, só veio a começar em 1911.
No percurso das ansiedades e canseiras, este grande impulsionador das obras desta nova igreja, veio lentamente a adoecer, vindo a morrer em Vila Franca do Campo, sua terra natal, em Abril de 1916 - segundo os dados colhidos em documentação facultada - "Na maior pobreza, prestando-lhe uma sentida homenagem, por ocasião do seu funeral, o rebanho que tanto estimava, o seu povo".

MURALHA DE PROTECÇÃO

Depois da morte do Padre António Jacinto de Melo, para o substituir, foi nomeado o Padre Jacinto Moniz Borges, natural de Vila Franca do Campo.
Segundo dados colhidos no arquivo da Paroquial da Ribeira Quente, de data posterior ao falecimento deste segundo servidor daquele templo, o mesmo era um homem de espírito bastante culto.
Quando colocado nesta localidade e ao ver o grau de pobreza do povo que ia ter ao seu cuidado, este se revoltou contra maneira pouco humana como a população deste povoado havia sido tratada ao longo dos tempos.
Servindo-se dos meios naturais que lhe eram facultados, tornou-se um defensor acérrimo do povo da Ribeira Quente, deste povo que sempre havia vivido esquecido no seu isolamento. Os órgãos de comunicação social escrita, na qual colaborava periodicamente, foi uma das vias escolhidas para manifestar o seu desagrado ao egoísmo e egocentrismo de certos governantes. O "Autonómico", que se publicava em Vila Franca do Campo, foi um dos jornais escolhidos, assim como o "Aurora Povoacense", visto se tratar de dois jornais que se publicavam, o primeiro na sede burocrática-religiosa, e o segundo por se publicar na sede burocrática-administrativa a que a Ribeira Quente estava sujeita.
Como anteriormente foi dito, toda a vida social da localidade da Ribeira Quente era observada pelos guias espirituais porque se tratava, quase na sua totalidade e até determinada altura, de um povo totalmente inculto como o era em outras partes que não sofriam do mesmo isolamento. Por isso, não só os acontecimentos religiosos eram registados nos registos paroquiais, como por vezes, outras ocorrências e acontecimentos extra-paróquia eram averbados nos livros de assentos, voluntariamente.
Já quando o Padre António Jacinto de Melo paroquiava esta localidade de gente humilde, a situação do seu templo era precária, em relação ao mar que lhe batia em dias de mau tempo, sem que os paroquianos e seu pastor o pudessem socorrer.
Embora desde há muito fosse do conhecimento dos governantes a triste situação desta localidade, nenhuma medida de precaução foi tomada atempadamente, que obstasse a que o mar não fosse pondo em perigo já visível, toda aquela área de penetração marítima. Só quando já nada se podia fazer nem evitar é que, num acto de contrição - embora sabendo que o lugar da Ribeira Quente só era acessível por mar - a então Junta Geral do Distrito mandou fazer uma muralha de "protecção" para quebrar o ímpeto do mar.
Mas a Ribeira Quente, quer dentro do povoadao quer no acesso a ele, só possuía modestos atalhos de movimentação humana e animal, por isso na construção dessa muralha só pôde ser usado o musculado braço do homem; os tradicionais sachos, cestos e picaretas. Por essa razão, aquilo que então ali foi feito, foi uma iniludível eructação de desabafo.
Esta muralha partia da boca da "Rua Direita" até ao "Foral do Ouvidor" que ficava em frente do prédio que havia sido do doador dos sinos para a segunda Igreja, o já citado Joze Matheus Nogueira, o qual prédio depois de ter sido vendido a Ilário Félix Barbosa de Gusmão (sem dúvida de Vila Franca do Campo), veio a ficar na posse dos herdeiros de Francisca Vieira de Lima (Tia Chica Vieira).
Larga mas não segura, visto que o fundo em que assentava não era de formação nem a Ribeira Quente então possuía qualquer pedreira de onde se pudesse extrair e conduzir mecanicamente, por falta de caminhos, quaisquer blocos de pedra de apropriada dimensão.

ANO DE 1900



É de um extracto do Livro de Assentos, ou do Tombo, da actual Igreja de São Paulo, que vamos encontrar o nome de um dos seus curas e servidor da Igreja, antes desta data de 1900.


"Em vinte de Março deste ano, conforme o assento de óbito n. 6, faleceu nesta freguesia, o Padre António Jacinto de Melo, natural da Povoação, que paroquiou nesta freguesia a primeira vez de 1869 a 1876 e a segunda vez de 1888 até 1900, data da sua morte".


Como vamos adiante compreender, este acontecimento ocorreu quando este sacerdote e cura do segundo templo da Ribeira Quente, que nessa altura já tinha mais de oitenta anos de idade.


E foi assim metido, numa moldura de sentimento humano, que o povo da Ribeira Quente se moldou e ficou retratado como povo que merecia mais carinho e compreensão por parte de quem o governava, visto que era um povo isolado e com um impressionante espírito de sofrimento sem revolta, que aceitava como natural este seu isolamento de sempre.


Da sede do seu novo concelho pouco podia então esperar, visto que sendo uma vila rodeada de solos ricos, o seu povo era pobre e continuou a ser pobre, porque as terras eram pouco divididas. No entanto, sempre houve uma preocupação e uma esperança da parte dos governantes do concelho, de um dia poderem ver o povoado de pescadores da Ribeira Quente ter uma estrada capaz de o ligar não só à sede do concelho como ao reto da ilha.


Esta esperança quase veio a aflorar quando o Rei D. Carlos visitou esta ilha e este concelho no ano de 1901.


Como no programa da visita régia constava uma visita ao primeiro povoado desta ilha, à Vila da Povoação, mais precisamente ao suposto porto de desembarque dos primeiros povoadores da ilha, fizeram os edis do mesmo os projectos antecipados de pedidos que se iam fazer ao rei.


Um cais e porto na sede do concelho era o mais vincado, visto que as terras da bacia da Povoação estavam na sua mais alta produção de sempre e a exportação só era possível pelo caminho do mar.


O acesso à Ribeira Quente, o único povoado do concelho sem qualquer acesso sem serem os rudimentares já apontados, era a segunda necessidade primária.


Chegada sua majestade então ao lugar da "Chã da Lomba do Cavaleiro" ficou extasiada com tão grande beleza, mas já não quis descer a ziguezagueante estrada que o levaria ao lugar do "Porto Velho", lá no fundo do litoral da pequena vila. Por isso, logo ali se determinou a um dos abismados naturais da terra que fosse buscar um saco de areia à praia do referido porto, a fim de Sua Majestade a pisar.


No regresso a Ponta Delgada, ao chegar à zona da "Ribeira dos Tambores" - onde hoje se bifurca a estrada de acesso à Ribeira Quente com a chamada estrada regional de primeira - foi simbolicamente assentada pelo Rei D. Carlos a pedra de abertura da sonhada estrada de acesso àquele povoado.


Como sempre, houveram foguetes, lágrimas de alegria e agradecimentos, mas só passados cerca de 37 anos é que o povo desta localidade soube o que
era um verdadeiro caminho de circulação livre.