quarta-feira, 27 de agosto de 2008

AUTO DA BENÇÃO DA IGREJA DE SÃO PAULO


Auto da Benção da Igreja de São Paulo, conforme consta na certidão que se encontra no livro do Tombo do arquivo paroquial:


Auto da benção da Egreja de São Paulo

da Ribeira Quente, feita por S. Excia Revma

o Snr D. Manuel Damasceno da Costa,

Bispo de Angra


Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e dezasete, a vinte e dois de setembro, sendo chefe Supremo da Santa Egreja Católica Sua Santidade Bento XV e Bispo desta Diocese o Excelentissimo Senhor Dom Manuel Damasceno da Costa, parochiando esta freguesia o Padre Angelo de Amaral, procedeu-se á benção da egreja parochial do Apostolo São Paulo d'este logar da Ribeira Quente, cuja construção foi iniciada em mil novecentos e onze, sendo então parocho d'esta freguesia o Reverendo Jacinto Moniz Borges de saudosa memoria e a quem se devem bons esforços para a realização d'esta obra.

E porque ela representa a fé de um povo pouco numeroso, mas ardente na sua piedade animada pelas aptidões excepcionaes do seu actual parocho dignou-se Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese vir pessoalmente honrar o acto solene da benção da dita egreja, sendo Ele officiante e tendo por assistentes numerosos eclesiasticos e a comparencia de muitas outras pessoas d'este e doutros logares.

Depois de executados todos os actos liturgicos proprios de tão solene cerimonia presidida por um Bispo, foi celebrada uma missa solene na qual officiou o Reverendo Prior e Ouvidor Eclesiastico da Vila do Nordeste Padre José Lucindo de Souza Graça e pregou o Reverendo António Furtado de Mendonça Vigario do Pico da Pedra, havendo depois Solene Te - Deum em conclusão de tão solene festividade.

E para que tudo conste de futuro fique aqui registado embora por modo sumario que até ao presente estão gastos na edificação da egreja que hoje se benzeu cerca de quinze contos de reis, os quais se devem na sua totalidade á generosidade dos habitantes d'este logar e na sua maior parte á classe maritima que é a que com maior entusiasmo tem concorrido para a fundação da sua egreja.

E para que a todo o tempo conste se lavrou o presente auto que será assinado por Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese, por todo o Clero presente e mais pessoas que o possam fazer e por mim Dionisio Moniz de Almeida Presbitero e Cura na Matriz da Vila da Povoação, escrivão ecclesiastico da Ouvidoria desta comarca, que o subscrevi.


Egreja parochial do Apostolo São Paulo do

logar da Ribeira Quente, 22 de Setembro de 1917.


+ Manuel Damasceno da Costa

Conego Jose Moniz Pacheco Bettencourt

P. Jose Lucindo de Souza Graça

Angelo d'Amaral

Antonio Furtado de Mendonça

Francisco de Medeiros Tomaz

Ernesto Jacinto Raposo

Padre Jose Jacinto Botelho

Padre José Cabral Lindo

Padre Jose d'Paiva Amaral

Padre Luiz Augusto Pacheco

Padre Antonio Furtado d'Andrade

Padre Manuel Teixeira

Diacono Frederico Vieira Fernandes

III IGREJA DE SÃO PAULO


Erecto sobranceiramente na elevação da zona da Ponta da Albufeira, desde então passou a ser o maior e mais relevante edifício de sempre, da Ribeira Quente, de cujo seus filhos muito se orgulharam.

Como prova de reconhecimento e agradecimento de tão relevante empreendimento, porque o povo desta localidade sempre havia sido profundamente pobre, foi o então Bispo dos Açores D. Manuel Damasceno da Costa quem veio benzer e inaugurar esta nova Igreja de São Paulo.

Visto não haver outro caminho de acesso que não o velho "Caminho do Redondo", que era simplesmente um atalho, teve D. Manuel de ir primeiro à Vila da Povoação a fim de ali tomar um barco de pesca de boca aberta e a remos, da Ribeira Quente, que ali o foi buscar.

Para que não houvesse ofensas, ajuizadamente foi feito de pleno acordo um sorteio para ver a qual arrais caberia transportar tão ilustre chefe da Igreja nos Açores. Coube ao mestre de barco Manuel Linhares de Deus Abarrota tamanha honra.

Partindo este barco acompanhado de outros embandeirados, por volta das oito horas da manhã, uma hora depois chegava ao Porto Velho da Vila da Povoação, onde aguardaram Sua Excelência o Bispo D. Manuel.

À chegada do Bispo à praia, que era também o porto da Ribeira Quente, ali o esperavam todos os convidados e toda a população desta localidade, novos e velhos, os quais jamais até então tinham visto tão grande representante da Igreja.

Sob os acordes de uma banda de música das Furnas, desembarcou o Bispo D. Manuel que se foi paramentar numa casa daquele litoral, seguindo depois em procissão ao longo dessa praia (único caminho na altura). Depois subiu o íngreme caminho que o levou à igreja engalanada, onde se deu começo ao Auto da Igreja de São Paulo.

ANO DE 1916

A 29 de Junho deste ano de 1916, veio tomar posse da paróquia de São Paulo da Ribeira Quente o povoacense Padre Ângelo de Amaral, natural da Lomba do Alcaide da Povoação.
Figura muito activa, que penetrava decididamente nos meios de decisão, deu o necessário impulso que faltava nas obras do novo templo em andamento, e, de tal modo o fez, que a 22 de Setembro do ano seguinte, 1917, no meio da maior euforia e exultante regozijo, os paroquianos desta localidade da Ribeira Quente, ainda lugar totalmente isolado, celebravam festivamente o seu verdadeiro templo, porque, este sim, era quase todo fruto do seu trabalho.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

ANO DE 1909


Antevendo como se esperava, o Padre Jacinto Moniz Borges e os seus paroquianos, o dia final da segunda Igreja desta localidade, logo que o mesmo tomou posse, em 1900, das suas obrigações de chefe espiritual, foi preparando o povo para a grande tragédia que um dia impreterivelmente aconteceria e, simultaneamente incentivando o mesmo par o dever e a obrigação de construir um novo templo.
E o previsto veio a acontecer num dia de mar elevado no ano de 1909. Este, na sua fúria, varreu a segunda Igreja e tudo aquilo que lhe ficava adjacente, inclusive o seu cemitério e as casas que naquela zona se estendiam para poente e nascente, ficando apenas alguns dos modestos casebres que se situavam ao cimo da "Canada da Igreja Velha", e parte das terras de vinha da família da Tia Chica Vieira, onde existia uma residência.
Habituado o povo ao sofrimento e às tragédias, e orientado por este ilustre e corajoso sacerdote, o Padre Jacinto, de imediato se constituiu uma Comissão Fabriqueira para a construção de um novo templo.
Dessa Comissão faziam parte Manuel Linhares de Deus, homem muito respeitado naquela localidade, presidente da mesma, o qual se deslocou propositadamente à América do Norte, mais à zona de Fall River e New Bedford onde existiam alguns filhos da Ribeira Quente e concelho da Povoação, a fim de angariar alguns fundos. Mas, porque naquela altura os nossos emigrantes também viviam uma vida financeira não muito lauta, os auxílios que de lá vieram foram relativamente poucos.
Fizeram-se também por toda a ilha, como era habitual nas suas igrejas, pedidos de cooperação, mas também pouco resultou porque naqueles tempos a pobreza morava por toda a parte.
Já sem veraneantes que os ajudasse em tamanho empreendimento da construção de uma nova igreja, visto que as propriedades do litoral foram desaparecendo à maneira que o mar as engolia, foram os pescadores desta localidade quem, por unanimidade, decidiram que dali avante cada barco de pesca passaria a ter mais um companheiro, mais um quinhoeiro chamado Senhor São Paulo.
Quer nos bons como nos maus momentos de pesca, sempre que os barcos chegavam à terra, depois de pago o dízimo de obrigação - dez por cento de todo o pescado que era arrecadado para o Estado, sem quaisquer contrapartidas - tudo era dividido na forma normal. A parte que cabia a São paulo era entregue ao tesoureiro da Comissão Fabriqueira, outro bom filho da Ribeira Quente de nome António da Costa Fravica.
Com a perda da sua segunda igreja, os cristãos da Ribeira Quente (toda a população), nem por isso deixaram de assistir à sua Santa Missa como dantes, porque desde a data em que o mar lhes roubou a mesma, as missas e demais actos de culto passaram a ser celebrados numa casa particular pertencente ao proprietário desta localidade, João Vieira Jerónimo e sua esposa Clotilde.
Sem grandes recursos financeiros mas apenas com a grande ajuda, ou a maior ajuda de todas, a dos homens do mar; sem água potável ou outra nas imediações, nem argila (barro) ali à mão, porque o que havia em pequenas quantidades só existia na parte alta da Zona do segundo cemitério desta localidade, e transporte só o faziam as mulheres à cabeça; sem cal nem artífices, visto que a Ribeira Quente tinha uma população maioritariamente de pescadores e a outra parte da população, a da zona do Fogo, que era uma minoria que susistia à custa de trabalhos prestados, como gente do campo, aos proprietários das terras altas e das pequenas parcelas que o mar tinha deixado, assim como da fajãs existentes sobre as falésias de Ponta do Garajau e Ponta da Lobeira, os quais só aos domingos podiam ajudar, foi em junção de esforços e boas vontades de todos, camponeses e pescadores, que o Padre Jacinto Moniz Borges deu início aos trabalhos de abertura dos alicerces que vieram a servir de fundo às paredes da nova igreja que, histórica e oficialmente, só veio a começar em 1911.
No percurso das ansiedades e canseiras, este grande impulsionador das obras desta nova igreja, veio lentamente a adoecer, vindo a morrer em Vila Franca do Campo, sua terra natal, em Abril de 1916 - segundo os dados colhidos em documentação facultada - "Na maior pobreza, prestando-lhe uma sentida homenagem, por ocasião do seu funeral, o rebanho que tanto estimava, o seu povo".

MURALHA DE PROTECÇÃO

Depois da morte do Padre António Jacinto de Melo, para o substituir, foi nomeado o Padre Jacinto Moniz Borges, natural de Vila Franca do Campo.
Segundo dados colhidos no arquivo da Paroquial da Ribeira Quente, de data posterior ao falecimento deste segundo servidor daquele templo, o mesmo era um homem de espírito bastante culto.
Quando colocado nesta localidade e ao ver o grau de pobreza do povo que ia ter ao seu cuidado, este se revoltou contra maneira pouco humana como a população deste povoado havia sido tratada ao longo dos tempos.
Servindo-se dos meios naturais que lhe eram facultados, tornou-se um defensor acérrimo do povo da Ribeira Quente, deste povo que sempre havia vivido esquecido no seu isolamento. Os órgãos de comunicação social escrita, na qual colaborava periodicamente, foi uma das vias escolhidas para manifestar o seu desagrado ao egoísmo e egocentrismo de certos governantes. O "Autonómico", que se publicava em Vila Franca do Campo, foi um dos jornais escolhidos, assim como o "Aurora Povoacense", visto se tratar de dois jornais que se publicavam, o primeiro na sede burocrática-religiosa, e o segundo por se publicar na sede burocrática-administrativa a que a Ribeira Quente estava sujeita.
Como anteriormente foi dito, toda a vida social da localidade da Ribeira Quente era observada pelos guias espirituais porque se tratava, quase na sua totalidade e até determinada altura, de um povo totalmente inculto como o era em outras partes que não sofriam do mesmo isolamento. Por isso, não só os acontecimentos religiosos eram registados nos registos paroquiais, como por vezes, outras ocorrências e acontecimentos extra-paróquia eram averbados nos livros de assentos, voluntariamente.
Já quando o Padre António Jacinto de Melo paroquiava esta localidade de gente humilde, a situação do seu templo era precária, em relação ao mar que lhe batia em dias de mau tempo, sem que os paroquianos e seu pastor o pudessem socorrer.
Embora desde há muito fosse do conhecimento dos governantes a triste situação desta localidade, nenhuma medida de precaução foi tomada atempadamente, que obstasse a que o mar não fosse pondo em perigo já visível, toda aquela área de penetração marítima. Só quando já nada se podia fazer nem evitar é que, num acto de contrição - embora sabendo que o lugar da Ribeira Quente só era acessível por mar - a então Junta Geral do Distrito mandou fazer uma muralha de "protecção" para quebrar o ímpeto do mar.
Mas a Ribeira Quente, quer dentro do povoadao quer no acesso a ele, só possuía modestos atalhos de movimentação humana e animal, por isso na construção dessa muralha só pôde ser usado o musculado braço do homem; os tradicionais sachos, cestos e picaretas. Por essa razão, aquilo que então ali foi feito, foi uma iniludível eructação de desabafo.
Esta muralha partia da boca da "Rua Direita" até ao "Foral do Ouvidor" que ficava em frente do prédio que havia sido do doador dos sinos para a segunda Igreja, o já citado Joze Matheus Nogueira, o qual prédio depois de ter sido vendido a Ilário Félix Barbosa de Gusmão (sem dúvida de Vila Franca do Campo), veio a ficar na posse dos herdeiros de Francisca Vieira de Lima (Tia Chica Vieira).
Larga mas não segura, visto que o fundo em que assentava não era de formação nem a Ribeira Quente então possuía qualquer pedreira de onde se pudesse extrair e conduzir mecanicamente, por falta de caminhos, quaisquer blocos de pedra de apropriada dimensão.

ANO DE 1900



É de um extracto do Livro de Assentos, ou do Tombo, da actual Igreja de São Paulo, que vamos encontrar o nome de um dos seus curas e servidor da Igreja, antes desta data de 1900.


"Em vinte de Março deste ano, conforme o assento de óbito n. 6, faleceu nesta freguesia, o Padre António Jacinto de Melo, natural da Povoação, que paroquiou nesta freguesia a primeira vez de 1869 a 1876 e a segunda vez de 1888 até 1900, data da sua morte".


Como vamos adiante compreender, este acontecimento ocorreu quando este sacerdote e cura do segundo templo da Ribeira Quente, que nessa altura já tinha mais de oitenta anos de idade.


E foi assim metido, numa moldura de sentimento humano, que o povo da Ribeira Quente se moldou e ficou retratado como povo que merecia mais carinho e compreensão por parte de quem o governava, visto que era um povo isolado e com um impressionante espírito de sofrimento sem revolta, que aceitava como natural este seu isolamento de sempre.


Da sede do seu novo concelho pouco podia então esperar, visto que sendo uma vila rodeada de solos ricos, o seu povo era pobre e continuou a ser pobre, porque as terras eram pouco divididas. No entanto, sempre houve uma preocupação e uma esperança da parte dos governantes do concelho, de um dia poderem ver o povoado de pescadores da Ribeira Quente ter uma estrada capaz de o ligar não só à sede do concelho como ao reto da ilha.


Esta esperança quase veio a aflorar quando o Rei D. Carlos visitou esta ilha e este concelho no ano de 1901.


Como no programa da visita régia constava uma visita ao primeiro povoado desta ilha, à Vila da Povoação, mais precisamente ao suposto porto de desembarque dos primeiros povoadores da ilha, fizeram os edis do mesmo os projectos antecipados de pedidos que se iam fazer ao rei.


Um cais e porto na sede do concelho era o mais vincado, visto que as terras da bacia da Povoação estavam na sua mais alta produção de sempre e a exportação só era possível pelo caminho do mar.


O acesso à Ribeira Quente, o único povoado do concelho sem qualquer acesso sem serem os rudimentares já apontados, era a segunda necessidade primária.


Chegada sua majestade então ao lugar da "Chã da Lomba do Cavaleiro" ficou extasiada com tão grande beleza, mas já não quis descer a ziguezagueante estrada que o levaria ao lugar do "Porto Velho", lá no fundo do litoral da pequena vila. Por isso, logo ali se determinou a um dos abismados naturais da terra que fosse buscar um saco de areia à praia do referido porto, a fim de Sua Majestade a pisar.


No regresso a Ponta Delgada, ao chegar à zona da "Ribeira dos Tambores" - onde hoje se bifurca a estrada de acesso à Ribeira Quente com a chamada estrada regional de primeira - foi simbolicamente assentada pelo Rei D. Carlos a pedra de abertura da sonhada estrada de acesso àquele povoado.


Como sempre, houveram foguetes, lágrimas de alegria e agradecimentos, mas só passados cerca de 37 anos é que o povo desta localidade soube o que
era um verdadeiro caminho de circulação livre.

POVO DA RIBEIRA QUENTE - POVO QUE SE MOLDOU



Emquanto o mar ia comendo os solos postiços das fajãs da zona do Fogo e as existentes para nascente, antes da Ponta da Albufeira, as quais iam perdendo a terra e ganhando altura em relação à primitiva praia, deixando aqui e ali descobertas algumas pontas de rocha de formação; enquanto a confuguração da enseada da Ribeira Quente se ia alterando lentamente e voltando parcialmente à sua forma original, tudo se encaminhava para que ficasse a prevalecer a moldagem da Natureza. Só as chamadas terras altas onde se situam alguns pedaços de terra e o "Outeiro das Freiras" - uma área de não muitas dezenas de alqueires de terra que não são fajãs originais, porque essas ficaram submersas devido à erupção de 1630 - no sopé desse outeiro existiam, como acima ficou dito, não só esta segunda Igreja de São Paulo, o seu cemitério e algumas moradias que iam esperando o terminus da sua existência, como também o que restava de alguns pedaços de vinha e pomares.

E foi assim que a comunidade do lugar da Ribeira Quente se foi moldando por si mesma, sem quaisquer caminhos de penetração, entregue a si mesma e sem esperança de alterar a sua lamentável situação, como se não fizesse parte do povo da ilha.

Para atingir este povoado vindo do poente, como já foi dito, só existia um perigoso e estreito atalho que partia de Ponta Garça, e de modo tal era feito que, segundo nos diz o ilustre sacerdote e escritor Bernardino José de Sena Freitas no trabalho "UMA VIAGEM AO VALE DAS FURNAS", um dia, no ano de 1679, os pescadores da Ribeira Quente se apercebendo de que os piratas argelinos tentavam desembarcar naquela localidade onde existia, como já foi dito, um forte, foram alertar o povo de Ponta Garça e Vila Franca para tal acontecimento perigoso.

Segundo o mesmo sacerdote, a "TROPA" - milícias formadas na sua maioria por escravos e gente que nem incluía o povo desta localidade - pôs-se a caminho, mas o atalho era difícil e tortuoso, por isso quando a mesma ali chegou, já da parte da tarde, nem no horizonte se já vislumbrava qualquer sinal de embarcação alguma.

Por volta de 1830, pertencendo ainda o lugar da Ribeira Quente e Furnas ao concelho de Vila Franca, o contra-almirante Francisco de Sousa Prego, então capitão-general dos Açores, mandou abrir um caminho de acesso a esta localidade, não para tirar do isolamento o pobre povo da mesma, mas sim para satisfazer, se necessário, estratégias de defesa militar.

Porque o tentou fazer sem autorização dos morgados e grandes latifundiários das propriedades envolventes, nada deixou feito para bem do povo da Ribeira Quente, nem tão pouco algo que pudesse ficar para a posteridade e história deste povo.

Feita a localidade da Povoação Velha cabeça de concelho por se ter libertado da secular prisão que foi Vila Franca, e depois temporariamente do concelho do Nordeste, passou este novo concelho a abranger também na parte norte os lugares de Achadinha e Fenais d'Ajuda, que logo depois foram desanexados; na parte centro e sul os de Água Retorta, Faial da Terra, toda a bacia do seu original povoado, toda a área das Furnas e da Ribeira Quente.

Embora lhe tivesse ficado a pertencer a maior e mais rica bacia de úberes solos de São Miguel, o seu povo continuou a ser um povo muito pobre, visto que os grandes latifundiários de todo o novo concelho geográfico eram latifundiários que não geravam riqueza local porque os seus vínculos, adquiridos por herança, eram terras alodiais.

Com tamanha riqueza à mão sem lhe poder tocar nem desta tirar qualquer rendimento que lhes permitisse dar os primeiros passos administrativos-sociais, os primeiros gestores do novo município - que inicialmente foi improvisado numa residência particular, e depois noutra, cerca de 25 anos - tiveram de recorrer a empréstimos contraídos perante alguns desses latifundiários, entre os quais se contaram Nicolau Maria Raposo de Amaral; D. Helena Victória Machado e seu neto Francisco Machado de Faria e Maia, porque logo no início uma das grandes necessidades era entrar em contacto com os povoados da sua jurisdição. É que, também a localidade da Povoação Velha sempre foi um lugar isolado.

Os então habitantes da Ribeira Quente, embora melhorassem na distância a sua situação de dependência, visto que o seu agora novo concelho, por mar, lhes ficasse apenas a cerca de 3 quilometros em linha recta, nem por isso viram alterada a sua situação de isolados, porque continuaram a ter a poente os atalhos já mencionados e, para nascente, o mesmo carreiro de pé-posto que, depois de atravessada a vau a ribeira, lhes permitia subir para a perigosa falésia (ainda hoje a mesma), que se estendia até à Ribeira do Agrião, depois de passada a Ponta do Garajau.

Subiam, depois de passada essa ribeira, o ingreme atalho que chamavam de "Caminho do Cabouco" até atingirem a zona da "Chã do Cavaleiro", para depois caminharem temporariamente à beira da rocha já na descida para a sede do seu agora novo concelho, mas sempre por um estreito atalho chamado de "Caminho das Covas" que os levavam à margem da "Ribeira dos Pelames", que era novamente atravessada a vau. Depois subiam para o "Caminho Velho" que os levava ao Porto Velho da agora nova Vila, sua cabeça de concelho.

Portanto, desde 1839, então tornada parte integrante do Concelho de Povoação, a Ribeira Quente continuou a ser a mesma localidade socialmente isolada.

Feito o primeiro acesso da sede do novo concelho para poente, a freguesia das Furnas era uma localidade de mais valia que devia estar em permanente contacto com a Povoação, não pelo rendimento do seu solo, porque além de frutos pouco mais produzia, mas sim porque, histórica e habitualmente era ali que os grandes da terra iam veranear.

Foi por essa razão, feito o grande empreendimento que foi a construção da denominada "Ponte da Lomba do Cavaleiro", logo ali acima da praça do município, a apenas cerca de 300 metros, a qual empoleiraram sobre o fundo rochoso da foz da atrás mencionada "Ribeira dos Pelames", cujas rochas laterais lhe serviam de contraforte, a qual se mantém sem qualquer outro travamento ou reforço, desde então, até ao presente, e é considerada uma das mais altas pontes de parede crua desta ilha.

A partir desta ponte, seguindo curvas de nível de sujeição, foi aberto um caminho-estrada de não grande largura, para gente, carroças e animais, a qual depois foi corrigida e mais alargada com a entrada do primeiro Governo Autónomo dos Açores.

Foi a partir de uma das mais apertadas curvas dessa primitiva estrada, a "Curva do Redondo", assim denominada por essa razão, que o município da Povoação, aproveitando parte da vertente poente da cumieira que divide o Vale do Agrião e o da Ribeira Quente, por meios rudimentares, alargou uma vereda de pé-posto que passou a servir o povo desta localidade.

Embora de pouca largura este caminho passou a chamar-se de "Caminho do Redondo". Foi este o primeiro caminho feito propositadamente para servir o povo da Ribeira Quente, o qual junto da foz da ribeira possuía uma tosca ponte de madeira cujas extremidades assentavam sobre dois socalcos de pedra, a fim de lhe permitir safar das cheias. Esta, há não muitas décadas, ainda ali existia.

Como já foi referido, a 24 de Setembro de 1831 foi concedido pelo Governo Eclesiástico da Diocese dos Açores a autorização para ser construído um Sacrário no segundo templo erecto no lugar da Ribeira Quente, porque embora fosse nessa altura já uma Igreja com cerca de 34 anos, ainda alguns sacramentos recebidos pelo povo desta localidade eram sacramentos emprestados.

Para concretização, desta grandiosa necessidade e sonho que o povo tinha, e porque o mesmo sem ajuda não o podia concretizar, apareceu um casal, benemérito, como atrás se lê, que chamou a si toda a despesa da construção do Sacrário que foi construido, mas pouco de concreto se sabe acerca da sua entronização, como se desconhece, por razões obvias, quem foram os primeiros Curas que ali prestaram o seu múnus sacerdotal.

Como atrás se disse, 8 anos depois desse acontecimento, a localidade da Ribeira Quente passou a ser parte integrante do novo concelho de Povoação, sem contudo deixar a sua Igreja de ser sufragânea à paroquial de Ponta Garça, para depois, entre 1896 e 1898, conforme nos diz o Dr. Ernesto do Canto em "PRETO NO BRANCO" (I 84), ser esta Igreja sufragânea a Sant'Ana, das Furnas!

Como e por quê?

Porque embora a Vila da Povoação já fosse Vila e comarca desde há muito, devido a anomalias e teimas, só a partir de 1916 foi criada a Ouvidoria Eclesiástica do Concelho de Povoação, sendo para tal nomeado o Padre Ernesto Jacinto raposo, um dos mais ilustres filhos da Povoação Velha, que na altura era o pastor da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus. Então, a partir dessa data, porque a Ribeira Quente ainda não era freguesia, os filhos desta paróquia autónoma passaram a pertencer a esta matriz referida, e São Paulo, Igreja sufragânea da antiga paroquial povoacense.