quarta-feira, 27 de agosto de 2008

ANO DE 1916

A 29 de Junho deste ano de 1916, veio tomar posse da paróquia de São Paulo da Ribeira Quente o povoacense Padre Ângelo de Amaral, natural da Lomba do Alcaide da Povoação.
Figura muito activa, que penetrava decididamente nos meios de decisão, deu o necessário impulso que faltava nas obras do novo templo em andamento, e, de tal modo o fez, que a 22 de Setembro do ano seguinte, 1917, no meio da maior euforia e exultante regozijo, os paroquianos desta localidade da Ribeira Quente, ainda lugar totalmente isolado, celebravam festivamente o seu verdadeiro templo, porque, este sim, era quase todo fruto do seu trabalho.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

ANO DE 1909


Antevendo como se esperava, o Padre Jacinto Moniz Borges e os seus paroquianos, o dia final da segunda Igreja desta localidade, logo que o mesmo tomou posse, em 1900, das suas obrigações de chefe espiritual, foi preparando o povo para a grande tragédia que um dia impreterivelmente aconteceria e, simultaneamente incentivando o mesmo par o dever e a obrigação de construir um novo templo.
E o previsto veio a acontecer num dia de mar elevado no ano de 1909. Este, na sua fúria, varreu a segunda Igreja e tudo aquilo que lhe ficava adjacente, inclusive o seu cemitério e as casas que naquela zona se estendiam para poente e nascente, ficando apenas alguns dos modestos casebres que se situavam ao cimo da "Canada da Igreja Velha", e parte das terras de vinha da família da Tia Chica Vieira, onde existia uma residência.
Habituado o povo ao sofrimento e às tragédias, e orientado por este ilustre e corajoso sacerdote, o Padre Jacinto, de imediato se constituiu uma Comissão Fabriqueira para a construção de um novo templo.
Dessa Comissão faziam parte Manuel Linhares de Deus, homem muito respeitado naquela localidade, presidente da mesma, o qual se deslocou propositadamente à América do Norte, mais à zona de Fall River e New Bedford onde existiam alguns filhos da Ribeira Quente e concelho da Povoação, a fim de angariar alguns fundos. Mas, porque naquela altura os nossos emigrantes também viviam uma vida financeira não muito lauta, os auxílios que de lá vieram foram relativamente poucos.
Fizeram-se também por toda a ilha, como era habitual nas suas igrejas, pedidos de cooperação, mas também pouco resultou porque naqueles tempos a pobreza morava por toda a parte.
Já sem veraneantes que os ajudasse em tamanho empreendimento da construção de uma nova igreja, visto que as propriedades do litoral foram desaparecendo à maneira que o mar as engolia, foram os pescadores desta localidade quem, por unanimidade, decidiram que dali avante cada barco de pesca passaria a ter mais um companheiro, mais um quinhoeiro chamado Senhor São Paulo.
Quer nos bons como nos maus momentos de pesca, sempre que os barcos chegavam à terra, depois de pago o dízimo de obrigação - dez por cento de todo o pescado que era arrecadado para o Estado, sem quaisquer contrapartidas - tudo era dividido na forma normal. A parte que cabia a São paulo era entregue ao tesoureiro da Comissão Fabriqueira, outro bom filho da Ribeira Quente de nome António da Costa Fravica.
Com a perda da sua segunda igreja, os cristãos da Ribeira Quente (toda a população), nem por isso deixaram de assistir à sua Santa Missa como dantes, porque desde a data em que o mar lhes roubou a mesma, as missas e demais actos de culto passaram a ser celebrados numa casa particular pertencente ao proprietário desta localidade, João Vieira Jerónimo e sua esposa Clotilde.
Sem grandes recursos financeiros mas apenas com a grande ajuda, ou a maior ajuda de todas, a dos homens do mar; sem água potável ou outra nas imediações, nem argila (barro) ali à mão, porque o que havia em pequenas quantidades só existia na parte alta da Zona do segundo cemitério desta localidade, e transporte só o faziam as mulheres à cabeça; sem cal nem artífices, visto que a Ribeira Quente tinha uma população maioritariamente de pescadores e a outra parte da população, a da zona do Fogo, que era uma minoria que susistia à custa de trabalhos prestados, como gente do campo, aos proprietários das terras altas e das pequenas parcelas que o mar tinha deixado, assim como da fajãs existentes sobre as falésias de Ponta do Garajau e Ponta da Lobeira, os quais só aos domingos podiam ajudar, foi em junção de esforços e boas vontades de todos, camponeses e pescadores, que o Padre Jacinto Moniz Borges deu início aos trabalhos de abertura dos alicerces que vieram a servir de fundo às paredes da nova igreja que, histórica e oficialmente, só veio a começar em 1911.
No percurso das ansiedades e canseiras, este grande impulsionador das obras desta nova igreja, veio lentamente a adoecer, vindo a morrer em Vila Franca do Campo, sua terra natal, em Abril de 1916 - segundo os dados colhidos em documentação facultada - "Na maior pobreza, prestando-lhe uma sentida homenagem, por ocasião do seu funeral, o rebanho que tanto estimava, o seu povo".

MURALHA DE PROTECÇÃO

Depois da morte do Padre António Jacinto de Melo, para o substituir, foi nomeado o Padre Jacinto Moniz Borges, natural de Vila Franca do Campo.
Segundo dados colhidos no arquivo da Paroquial da Ribeira Quente, de data posterior ao falecimento deste segundo servidor daquele templo, o mesmo era um homem de espírito bastante culto.
Quando colocado nesta localidade e ao ver o grau de pobreza do povo que ia ter ao seu cuidado, este se revoltou contra maneira pouco humana como a população deste povoado havia sido tratada ao longo dos tempos.
Servindo-se dos meios naturais que lhe eram facultados, tornou-se um defensor acérrimo do povo da Ribeira Quente, deste povo que sempre havia vivido esquecido no seu isolamento. Os órgãos de comunicação social escrita, na qual colaborava periodicamente, foi uma das vias escolhidas para manifestar o seu desagrado ao egoísmo e egocentrismo de certos governantes. O "Autonómico", que se publicava em Vila Franca do Campo, foi um dos jornais escolhidos, assim como o "Aurora Povoacense", visto se tratar de dois jornais que se publicavam, o primeiro na sede burocrática-religiosa, e o segundo por se publicar na sede burocrática-administrativa a que a Ribeira Quente estava sujeita.
Como anteriormente foi dito, toda a vida social da localidade da Ribeira Quente era observada pelos guias espirituais porque se tratava, quase na sua totalidade e até determinada altura, de um povo totalmente inculto como o era em outras partes que não sofriam do mesmo isolamento. Por isso, não só os acontecimentos religiosos eram registados nos registos paroquiais, como por vezes, outras ocorrências e acontecimentos extra-paróquia eram averbados nos livros de assentos, voluntariamente.
Já quando o Padre António Jacinto de Melo paroquiava esta localidade de gente humilde, a situação do seu templo era precária, em relação ao mar que lhe batia em dias de mau tempo, sem que os paroquianos e seu pastor o pudessem socorrer.
Embora desde há muito fosse do conhecimento dos governantes a triste situação desta localidade, nenhuma medida de precaução foi tomada atempadamente, que obstasse a que o mar não fosse pondo em perigo já visível, toda aquela área de penetração marítima. Só quando já nada se podia fazer nem evitar é que, num acto de contrição - embora sabendo que o lugar da Ribeira Quente só era acessível por mar - a então Junta Geral do Distrito mandou fazer uma muralha de "protecção" para quebrar o ímpeto do mar.
Mas a Ribeira Quente, quer dentro do povoadao quer no acesso a ele, só possuía modestos atalhos de movimentação humana e animal, por isso na construção dessa muralha só pôde ser usado o musculado braço do homem; os tradicionais sachos, cestos e picaretas. Por essa razão, aquilo que então ali foi feito, foi uma iniludível eructação de desabafo.
Esta muralha partia da boca da "Rua Direita" até ao "Foral do Ouvidor" que ficava em frente do prédio que havia sido do doador dos sinos para a segunda Igreja, o já citado Joze Matheus Nogueira, o qual prédio depois de ter sido vendido a Ilário Félix Barbosa de Gusmão (sem dúvida de Vila Franca do Campo), veio a ficar na posse dos herdeiros de Francisca Vieira de Lima (Tia Chica Vieira).
Larga mas não segura, visto que o fundo em que assentava não era de formação nem a Ribeira Quente então possuía qualquer pedreira de onde se pudesse extrair e conduzir mecanicamente, por falta de caminhos, quaisquer blocos de pedra de apropriada dimensão.

ANO DE 1900



É de um extracto do Livro de Assentos, ou do Tombo, da actual Igreja de São Paulo, que vamos encontrar o nome de um dos seus curas e servidor da Igreja, antes desta data de 1900.


"Em vinte de Março deste ano, conforme o assento de óbito n. 6, faleceu nesta freguesia, o Padre António Jacinto de Melo, natural da Povoação, que paroquiou nesta freguesia a primeira vez de 1869 a 1876 e a segunda vez de 1888 até 1900, data da sua morte".


Como vamos adiante compreender, este acontecimento ocorreu quando este sacerdote e cura do segundo templo da Ribeira Quente, que nessa altura já tinha mais de oitenta anos de idade.


E foi assim metido, numa moldura de sentimento humano, que o povo da Ribeira Quente se moldou e ficou retratado como povo que merecia mais carinho e compreensão por parte de quem o governava, visto que era um povo isolado e com um impressionante espírito de sofrimento sem revolta, que aceitava como natural este seu isolamento de sempre.


Da sede do seu novo concelho pouco podia então esperar, visto que sendo uma vila rodeada de solos ricos, o seu povo era pobre e continuou a ser pobre, porque as terras eram pouco divididas. No entanto, sempre houve uma preocupação e uma esperança da parte dos governantes do concelho, de um dia poderem ver o povoado de pescadores da Ribeira Quente ter uma estrada capaz de o ligar não só à sede do concelho como ao reto da ilha.


Esta esperança quase veio a aflorar quando o Rei D. Carlos visitou esta ilha e este concelho no ano de 1901.


Como no programa da visita régia constava uma visita ao primeiro povoado desta ilha, à Vila da Povoação, mais precisamente ao suposto porto de desembarque dos primeiros povoadores da ilha, fizeram os edis do mesmo os projectos antecipados de pedidos que se iam fazer ao rei.


Um cais e porto na sede do concelho era o mais vincado, visto que as terras da bacia da Povoação estavam na sua mais alta produção de sempre e a exportação só era possível pelo caminho do mar.


O acesso à Ribeira Quente, o único povoado do concelho sem qualquer acesso sem serem os rudimentares já apontados, era a segunda necessidade primária.


Chegada sua majestade então ao lugar da "Chã da Lomba do Cavaleiro" ficou extasiada com tão grande beleza, mas já não quis descer a ziguezagueante estrada que o levaria ao lugar do "Porto Velho", lá no fundo do litoral da pequena vila. Por isso, logo ali se determinou a um dos abismados naturais da terra que fosse buscar um saco de areia à praia do referido porto, a fim de Sua Majestade a pisar.


No regresso a Ponta Delgada, ao chegar à zona da "Ribeira dos Tambores" - onde hoje se bifurca a estrada de acesso à Ribeira Quente com a chamada estrada regional de primeira - foi simbolicamente assentada pelo Rei D. Carlos a pedra de abertura da sonhada estrada de acesso àquele povoado.


Como sempre, houveram foguetes, lágrimas de alegria e agradecimentos, mas só passados cerca de 37 anos é que o povo desta localidade soube o que
era um verdadeiro caminho de circulação livre.

POVO DA RIBEIRA QUENTE - POVO QUE SE MOLDOU



Emquanto o mar ia comendo os solos postiços das fajãs da zona do Fogo e as existentes para nascente, antes da Ponta da Albufeira, as quais iam perdendo a terra e ganhando altura em relação à primitiva praia, deixando aqui e ali descobertas algumas pontas de rocha de formação; enquanto a confuguração da enseada da Ribeira Quente se ia alterando lentamente e voltando parcialmente à sua forma original, tudo se encaminhava para que ficasse a prevalecer a moldagem da Natureza. Só as chamadas terras altas onde se situam alguns pedaços de terra e o "Outeiro das Freiras" - uma área de não muitas dezenas de alqueires de terra que não são fajãs originais, porque essas ficaram submersas devido à erupção de 1630 - no sopé desse outeiro existiam, como acima ficou dito, não só esta segunda Igreja de São Paulo, o seu cemitério e algumas moradias que iam esperando o terminus da sua existência, como também o que restava de alguns pedaços de vinha e pomares.

E foi assim que a comunidade do lugar da Ribeira Quente se foi moldando por si mesma, sem quaisquer caminhos de penetração, entregue a si mesma e sem esperança de alterar a sua lamentável situação, como se não fizesse parte do povo da ilha.

Para atingir este povoado vindo do poente, como já foi dito, só existia um perigoso e estreito atalho que partia de Ponta Garça, e de modo tal era feito que, segundo nos diz o ilustre sacerdote e escritor Bernardino José de Sena Freitas no trabalho "UMA VIAGEM AO VALE DAS FURNAS", um dia, no ano de 1679, os pescadores da Ribeira Quente se apercebendo de que os piratas argelinos tentavam desembarcar naquela localidade onde existia, como já foi dito, um forte, foram alertar o povo de Ponta Garça e Vila Franca para tal acontecimento perigoso.

Segundo o mesmo sacerdote, a "TROPA" - milícias formadas na sua maioria por escravos e gente que nem incluía o povo desta localidade - pôs-se a caminho, mas o atalho era difícil e tortuoso, por isso quando a mesma ali chegou, já da parte da tarde, nem no horizonte se já vislumbrava qualquer sinal de embarcação alguma.

Por volta de 1830, pertencendo ainda o lugar da Ribeira Quente e Furnas ao concelho de Vila Franca, o contra-almirante Francisco de Sousa Prego, então capitão-general dos Açores, mandou abrir um caminho de acesso a esta localidade, não para tirar do isolamento o pobre povo da mesma, mas sim para satisfazer, se necessário, estratégias de defesa militar.

Porque o tentou fazer sem autorização dos morgados e grandes latifundiários das propriedades envolventes, nada deixou feito para bem do povo da Ribeira Quente, nem tão pouco algo que pudesse ficar para a posteridade e história deste povo.

Feita a localidade da Povoação Velha cabeça de concelho por se ter libertado da secular prisão que foi Vila Franca, e depois temporariamente do concelho do Nordeste, passou este novo concelho a abranger também na parte norte os lugares de Achadinha e Fenais d'Ajuda, que logo depois foram desanexados; na parte centro e sul os de Água Retorta, Faial da Terra, toda a bacia do seu original povoado, toda a área das Furnas e da Ribeira Quente.

Embora lhe tivesse ficado a pertencer a maior e mais rica bacia de úberes solos de São Miguel, o seu povo continuou a ser um povo muito pobre, visto que os grandes latifundiários de todo o novo concelho geográfico eram latifundiários que não geravam riqueza local porque os seus vínculos, adquiridos por herança, eram terras alodiais.

Com tamanha riqueza à mão sem lhe poder tocar nem desta tirar qualquer rendimento que lhes permitisse dar os primeiros passos administrativos-sociais, os primeiros gestores do novo município - que inicialmente foi improvisado numa residência particular, e depois noutra, cerca de 25 anos - tiveram de recorrer a empréstimos contraídos perante alguns desses latifundiários, entre os quais se contaram Nicolau Maria Raposo de Amaral; D. Helena Victória Machado e seu neto Francisco Machado de Faria e Maia, porque logo no início uma das grandes necessidades era entrar em contacto com os povoados da sua jurisdição. É que, também a localidade da Povoação Velha sempre foi um lugar isolado.

Os então habitantes da Ribeira Quente, embora melhorassem na distância a sua situação de dependência, visto que o seu agora novo concelho, por mar, lhes ficasse apenas a cerca de 3 quilometros em linha recta, nem por isso viram alterada a sua situação de isolados, porque continuaram a ter a poente os atalhos já mencionados e, para nascente, o mesmo carreiro de pé-posto que, depois de atravessada a vau a ribeira, lhes permitia subir para a perigosa falésia (ainda hoje a mesma), que se estendia até à Ribeira do Agrião, depois de passada a Ponta do Garajau.

Subiam, depois de passada essa ribeira, o ingreme atalho que chamavam de "Caminho do Cabouco" até atingirem a zona da "Chã do Cavaleiro", para depois caminharem temporariamente à beira da rocha já na descida para a sede do seu agora novo concelho, mas sempre por um estreito atalho chamado de "Caminho das Covas" que os levavam à margem da "Ribeira dos Pelames", que era novamente atravessada a vau. Depois subiam para o "Caminho Velho" que os levava ao Porto Velho da agora nova Vila, sua cabeça de concelho.

Portanto, desde 1839, então tornada parte integrante do Concelho de Povoação, a Ribeira Quente continuou a ser a mesma localidade socialmente isolada.

Feito o primeiro acesso da sede do novo concelho para poente, a freguesia das Furnas era uma localidade de mais valia que devia estar em permanente contacto com a Povoação, não pelo rendimento do seu solo, porque além de frutos pouco mais produzia, mas sim porque, histórica e habitualmente era ali que os grandes da terra iam veranear.

Foi por essa razão, feito o grande empreendimento que foi a construção da denominada "Ponte da Lomba do Cavaleiro", logo ali acima da praça do município, a apenas cerca de 300 metros, a qual empoleiraram sobre o fundo rochoso da foz da atrás mencionada "Ribeira dos Pelames", cujas rochas laterais lhe serviam de contraforte, a qual se mantém sem qualquer outro travamento ou reforço, desde então, até ao presente, e é considerada uma das mais altas pontes de parede crua desta ilha.

A partir desta ponte, seguindo curvas de nível de sujeição, foi aberto um caminho-estrada de não grande largura, para gente, carroças e animais, a qual depois foi corrigida e mais alargada com a entrada do primeiro Governo Autónomo dos Açores.

Foi a partir de uma das mais apertadas curvas dessa primitiva estrada, a "Curva do Redondo", assim denominada por essa razão, que o município da Povoação, aproveitando parte da vertente poente da cumieira que divide o Vale do Agrião e o da Ribeira Quente, por meios rudimentares, alargou uma vereda de pé-posto que passou a servir o povo desta localidade.

Embora de pouca largura este caminho passou a chamar-se de "Caminho do Redondo". Foi este o primeiro caminho feito propositadamente para servir o povo da Ribeira Quente, o qual junto da foz da ribeira possuía uma tosca ponte de madeira cujas extremidades assentavam sobre dois socalcos de pedra, a fim de lhe permitir safar das cheias. Esta, há não muitas décadas, ainda ali existia.

Como já foi referido, a 24 de Setembro de 1831 foi concedido pelo Governo Eclesiástico da Diocese dos Açores a autorização para ser construído um Sacrário no segundo templo erecto no lugar da Ribeira Quente, porque embora fosse nessa altura já uma Igreja com cerca de 34 anos, ainda alguns sacramentos recebidos pelo povo desta localidade eram sacramentos emprestados.

Para concretização, desta grandiosa necessidade e sonho que o povo tinha, e porque o mesmo sem ajuda não o podia concretizar, apareceu um casal, benemérito, como atrás se lê, que chamou a si toda a despesa da construção do Sacrário que foi construido, mas pouco de concreto se sabe acerca da sua entronização, como se desconhece, por razões obvias, quem foram os primeiros Curas que ali prestaram o seu múnus sacerdotal.

Como atrás se disse, 8 anos depois desse acontecimento, a localidade da Ribeira Quente passou a ser parte integrante do novo concelho de Povoação, sem contudo deixar a sua Igreja de ser sufragânea à paroquial de Ponta Garça, para depois, entre 1896 e 1898, conforme nos diz o Dr. Ernesto do Canto em "PRETO NO BRANCO" (I 84), ser esta Igreja sufragânea a Sant'Ana, das Furnas!

Como e por quê?

Porque embora a Vila da Povoação já fosse Vila e comarca desde há muito, devido a anomalias e teimas, só a partir de 1916 foi criada a Ouvidoria Eclesiástica do Concelho de Povoação, sendo para tal nomeado o Padre Ernesto Jacinto raposo, um dos mais ilustres filhos da Povoação Velha, que na altura era o pastor da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus. Então, a partir dessa data, porque a Ribeira Quente ainda não era freguesia, os filhos desta paróquia autónoma passaram a pertencer a esta matriz referida, e São Paulo, Igreja sufragânea da antiga paroquial povoacense.

SEGUNDA ERMIDA DE SÃO PAULO


Desde há muito o povo do lugar da Ribeira Quente sentia a necessidade imediata de construir uma nova ermida visto que o velho templo, além de ser insuficiente, se ia arruinando cada vez mais devido à sua proximidade do mar que o ia minando dia-a-dia.

Embora se não saiba quem foi o incentivador ou empreendedor de uma nova ermida naquele lugar, que ainda continuava a ser de veraneio, o Dr. Urbano de Mendonça Dias diz-nos no seu trabalho sobre os templos em São Miguel que:

"O povo então da Ribeira Quente, os que lá moravam e os que para lá iam veranear, com outras esmolas que tiraram por toda a ilha, levantaram, por isso, outra Ermida, com a mesma invocação".

Decorridos alguns anos, a 15 de Abril de 1799, o Licenciado João Bento Pacheco d'Arruda, possivelmente mandado por D. João Marcelino dos Santos Aparício, 22.º Bispo dos Açores, fala-nos da Igreja da Ribeira Quente, dizendo:

"Visitei a Ermida de Sam Paulo da Ribeira Quente, Curato sufragâneo desta Paroquial, e achei a Igreja feita de novo, com grandeza e segurança e boa proporção".

Nessa data já havia sido ercta a segunda Ermida de São Paulo, provavelmente entre 1796/1798.

Como se pode depreender das palavras deste visitador, este novo templo já era uma igreja apropriada para a população de então.

Era um templo com uma torre de quatro sinos, um dos quais retirado atempadamente da primitiva ermida, e mais 3 que foram oferecidos por um médico (phisico), de Vila Franca, de nome Joze Matheus Nogueira e sua esposa D. Maria Jacinta, proprietários naquele lugar.

Este parece ter sido um dos maiores e mais compreensíveis beneméritos da pobre e isolada gente da Ribeira Quente, o qual, condoído com a situação daquele povo, porque embora já fossem passados cerca de 160 anos desde que foi erguido o primeiro templo, e 32 depois deste segundo, nunca, até então, havia esta gente tido uma Igreja com Sacrário.

Para que este segundo templo fosse entronizado, foi este benemérito que concorreu com todas as despesas necessárias para a criação de um Sacrário e a sustentação de uma lâmpada para o Santíssimo. Para tal o mesmo fez uma doação de 250$000 réis.

Porque não dependia apenas dos fundos necessários a construção desse Sacrário, mas sim também da razão do porquê da sua construção, então este médico benemérito nomeou seu procurador, para esse fim, em Angra, o Desembargador João José da Costa Ferraz, o qual no seu requerimento de justificação disse:

"Faço saber que tendo representado Joze Matheus Nogueira e sua mulher D. Maria Jacinta, de Vila Franca do Campo, da Ilha de S. Miguel, que eles residindo parte do ano no lugar da Ribeira Quente, e vendo o quanto aqueles povos sofrem na administração do Divino Sacramento da Eucaristia, por distar aquele lugar, da Paróquia, mais de duas léguas de péssimo caminho, por isso eles requerentes se ofereciam a fazer na Ermida de Sam Paulo, sita na Ribeira Quente, um Sacrário, e darem a Poma, Lâmpada, e doarem ao Santíssimo Sacramento 250$ooo réis", etc.

Esta concessão foi feita a 24 de Setembro de 1831, ficando o povo da Ribeira Quente liberto do pesadelo de ter uma Igreja onde só se podia efectuar simples actos religiosos.

Segundo o autor da "História das Igrejas Micaelenses" já citado, a páginas 105 desse livro, e bebido da tradição, o mesmo fala-nos de um acontecimento ocorrido no lugar da Ribeira Quente, nestes termos:

"... e consta-se que um dia caiu de cama um homem, na Ribeira Quente, o Padre Cura foi chamado, confessou-o e ficou capacitado que ele não escaparia, e disse em casa à família do doente:

- Não escapa, e eu desejaria ungi-lo!

Mas os Santos óleos estavam em Ponta Garça, a 2 léguas de distância, de maus caminhos, e por isso um filho do doente prontificou-se:

- Passe o Snr. Padre um bilhetinho, e eu vou num pulo lá, e trago os Santos óleos dentro do saquinho, como é costume.

Parece que isso se fazia, o Pe. Cura passou o bilhetinho e o rapaz pôs-se a caminho, mas, quando vinha já de volta com os Santos óleos dentro do saquinho, veio-lhe ao encontro um vizinho:

- Tem paciência, já não são precisos os Santos óleos, teu pai deu a alma ao Criador!

O rapaz ficou impressionadíssimo, caiu numa ira tamanha, que até atirou o saquinho pela rocha abaixo".

Pormenores como este, que provavelmente foram muitos, quase idênticos ou não, denotam com que sacrifício se mantinham fiéis a Deus aqueles cristãos isolados!

É que nunca houve da parte do governo de Vila Franca qualquer sinal de boa vontade que tirasse do isolamento aquela localidade. Também a Povoação Velha, igualmente dependente administrativamente de Vila Franca, reclamava permanentemente acesso a esta vila, visto que nunca o teve desde que passou a ser parte integrante do poder administrativo de Vila Franca - desde tempos primitivos - só o conseguindo através de uma acção jurídica. Ainda assim aquilo que foi feito, foi um rudimentar atalho chamado de "Caminho da Gaiteira" do qual foi ramificado um modestíssimo atalho para a falésia da Zona do Fogo.

Ainda hoje se nota, na zona dos "Covões", sinais desse trabalho-miséria que as entidades governativas de Vila Franca conceberam, mas isto sem grande benefício para a enseada da Ribeira Quente.

Voltando à reocupação das novas terras que se haviam estendido sobre aquele espaço - que sempre foi de veraneio e de fajãs mas se transformou num lugar misto com o aparecimento ali de uma comunidade piscatória - os então novos proprietários da após erupção de 1630, abismados com os extensos terrenos que haviam sido criados pela imensa força da Natureza, por desconhecimento de solos e falta de aviso de qualquer ecólogo, numa altura em que a maioria do povo, porque era analfabeta, só conhecia aquilo que via, lançaram-se os mesmos ao cultivo daquelas férteis terras obtidas, sobre as quais foram construindo algumas habitações na mesma zona onde já haviam construído o primeiro templo de São Paulo. Foi nesta mesma localidade e zona que foi construida esta segunda Igreja da Ribeira Quente, sobre os mesmos terrenos falsos. Isto mostra-nos que existia uma grande separação entre quem devia ser um pouco responsável e os ignorantes irresponsáveis, mas bem intencionados, que construiram este segundo templo.

Quando do acto de visitação feita pelo atrás mencionado João Bento Pacheco d'Arruda, este licenciado apenas se limitou a dizer, além daquilo que já foi mencionado:

"...faz-se porem preciso que a Igreja antiga, que fica um pouco separada e de que se conservam ainda as paredes, ou se fechem estas de modo, ponde-se uma Cruz no meio do plano para a conservação do respeito daquele lugar, ou ex-causa, se possam demolir, fazendo-se então profanção real, cavando-se a terra, e conduzindo-se os ossos dos cadáveres que ali foram sepultados, a serem enterrados no adro da nova Igreja, com as cerimónias e preces competentes".

Não houve transladação para o novo adro porque foi feito um cemitério adjacente à nova Igreja (o 1.º na localidade), que mais tarde também foi varrido pelo mar.

Como é fácil de notar, os mortos da Ribeira Quente nunca foram sepultados em Ponta Garça!

Este segundo templo de São Paulo situava-se, como o primeiro, ao fundo da então "Canada da Igreja Velha".

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O BISPO E A SUA REACÇÃO


A 6 de Dezembro de 1775, D. António Caetano da Rocha, 21.º Bispo dos Açore, veio em Visita Pastoral - segundo aquilo que se lê nas páginas 99, 100 e 101 da "História das Igrejas em São Miguel" da autoria do Dr. Urbano de Mendonça Dias - à paroquial de Ponta Garça, e ali lamentou ter sido feita na Ribeira Quente, naquele lugar isolado pela Natureza, a Ermida de São Paulo, dizendo na sua Carta Pastoral:
"O povo da Ribeira Quente, indevidamente se tem conservado naquele lugar em que nada tem de próprio, suposto conseguisse da incomparável piedade de Sua Majestade, a concessão de Cura para aquele lugar, que se o mesmo Senhor fosse legitimamente informado, antes os faria d'ali despejar; não se devem os tais moradores considerar filhos da Paróquia, para a ela acudirem na parte espiritual, pois o Cura que tem é em subsídio para as necessidades urgentes".
Esta forte admoestação ou aviso feita por D. António - que foi mais um evidente ressentimento do, ao tempo, vigário de Nossa Senhora sa Piedade de Ponta Garça - de forma alguma foi compreendida pelo povo do lugar da Ribeira Quente que naquela altura já ia, naturalmente, na terceira geração ali nascida, muito menos podia ser entendida pelos veraneantes que só ali iam em alturas adequadas e não pertenciam àquele lugar. Além disso, já iam decorridos 110 anos desde que a mesma ermida ali havia sido feita e servia o povo daquela localidade.
Na mesma advertência, D. António ainda dizia:
"e outrosim o mesmo povo e habitantes do tal sítio sem que faltem com o devido à Fábrica da Matriz (de Vila Franca e não Ponta Garça) devem à sua custa suprir todo o necessário à dita Ermida de Sam Paulo, no que ao seu património não poder chegar, pela mesma razão de lhe estar servindo de Paróquia em comodidade sua, que se não a tiverem com decência para a celebração do alto sacrifício da missa e os seus ministérios sagrados que nela se celebram, lha mandarei interditar, e que venham à própria Paróquia satisfazer em tudo as obrigações de católicos".
Por falta de melhores conhecimentos e má informação, o mesmo insiste em chamar aos veraneantes que vinham de Vila Franca e de outras localidades, de filhos da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Ponta Garça, mas logo emenda:
"Já fica dito que o povo da Ribeira Quente está obrigado a reparar a Fábrica da Ermida de S. Paulo, pois lhe serve de Paróquia subsidiária, porém não podemos deixar de reflectir na pobreza deste povo e na grande concorrência de gente de Vila Franca que vão povoar aquele sítio grande parte do ano, em que entram muitos sacerdotes, que se ocupam toda a manhã em celebrar".
Como se pode depreender das afirmações do prelado, o lugar da Ribeira Quente, pela segunda vez na sua história oculta, continuava a ser uma isolada zona de lazer, fajãs e praia, mas também já um povoado de fixação permanente.
Mal informado, quer no aspecto social-humano, quer no valor material, tanto ele como o ouvidor de Distrito Eclesiástico, desconheciam, como é obvio, por falta de informação adequada, que a terra de vinha do património da Ermida de São Paulo, como todas as fajãs que lhe ficavam nas imediações, já há muito não existiam porque o mar, passados que eram 145 anos depois da erupção que arrasou aquela localidade, jamais havia deixado de lamber a terra e fazer desaparecer aqueles solos postiços.

PRIMEIRA ERMIDA DE SÃO PAULO


Nunca foi aceita de livre vontade pelos ao tempo vigários de Ponta Garça, ou de Nossa Senhora da Piedade daquela localidade, a criação de uam Ribeira Quente feita povoado independente, porque os mesmos sempre consideraram que esta localidade era, religiosamente falando, a continuação de Ponta Garça, embora a distância que separava as duas localidades fosse muita, e a falta de caminhos de penetração além do mar, fossem quase inexistentes.

Por via desse anacronismo histórico, daquela insistente teimosia, o começo da comunidade sedentária da Ribeira Quente, no aspecto sócio-religioso, foi bastante conturbado. No entanto, depois de ter sido feita a primeira ermida de "Sam Paulo" - por gente de Vila Franca - embora inicialmente ermida particular sem contestação, quando a mesma passou a servir a pequena comunidade de fixação permanente, teve este templo de se tornar sufragâneo da Igreja de Ponta Garça, porque, segundo a lógica, esta era então a paroquial mais perto da referida ermida.

Na sua situação de subjacência religiosa, a Ermida de São Paulo foi por vezes omitida dentro do seu período histórico, não só devido ao ressentimento já focado, que se tornou durável, como também devido ao menosprezo a que este templo foi votado por parte da ouvidoria e centralismo religioso de Vila Franca.

Por exemplo: Frei Agostinho de Monte Alverne, autor das "Crónicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores", nascido a 11 de Fevereiro de 1629, muito meticuloso no pormenor narrativo, quando abordou todas as paróquias da jurisdição da Igreja de São Miguel de Vila Franca e suas ermidas, ao falar das que se situavam a nascente, diz apenas:

"4º - A freguesia de Nossa Senhora da Piedade, de Ponta Garça, tem vigário, cura e tesoureiro, com 130 fogos e 435 pessoas, com duas ermidas, São João de Deus e Nossa Senhora da Vida",

porque nos elementos que lhe foram dados não fugurava ou havia sido mencionado o templo de São Paulo da Ribeira Quente.

Esta omissão tornou-se muito evidente, visto que, quando faleceu Frei Agostinho, em 1726, já este primeiro templo do lugar da Ribeira Quente tinha 61 anos de idade!

Francisco Afonso de Chaves e Melo no seu livro "A Margarita Animada", publicou em 1723 - três anos antes da morte de Frei Agostinho - falando dos templos da Ilha de São Miguel diz-nos que a paroquial de Ponta Garça tem (tinha), duas ermidas, a das Almas Santas e a de São Paulo!

Nunca foi sabido com clareza, a data exacta em que em que este primeiro templo da Ribeira Quente foi bento e licenciado para a prática de actos religiosos. O que é sabido é que, logo que erecto e ao serviço de quem naquela localidade veraneava ou residia, aparece-nos como sufragâneo da igreja de Ponta Garço, mas esta relativa dependência ou subalternidade religiosa não lhe facultava quaisquer regalias materiais, visto que a Igreja de Nossa Senhora da Piedade à qual era sufragâneo, sempre foi uma paróquia muitíssimo pobre. Desde a sua erecção, na primeira metade do século XVI feita a expensas de Lopo Anes de Araújo, era e foi uma igreja pequena e acanhada que passou por muitas situações de ruína, até que, porque a povoação crescia, por volta de 1830 (data no frontespício), esta foi transformada como hoje se a vê, mas depois caiu novamente num estado de pobreza que só por alturas de 1924 a 1928 se veio a alterar devido à grandiosa força de vontade do seu vigário, o Padre Francisco de Medeiros Simas, do povo de Ponta Garça e dos emigrantes dali naturais, então este templo se valorizou. (1)

Baseando-nos nos dados que nos transmitiu o Dr. Urbano de Mendonça Dias em seu trabalho feito acerca dos templos desta nossa ilha, foram vários os visitadores mandatários dos Bispos dos Açores que visitaram a Igreja de Ponta Garça e, por inerência, as suas ermidas. Porém, nem todas estas visitas foram realmente concretizadas in loc, isto no tocante à Ermida da Ribeira Quente, como se pode verificar.

Vinte e seis anos depois de ter sido erecto este primitivo templo da Ribeira Quente, a 15 de Janeiro de 1691, numa altura em que governava a Diocese dos Açores D. Frei Clemente Vieira, o Visitador Licenciado António Pais de Vasconcelos fala deste templo nos seguintes termos:

"A Ermida de Sam Paulo, sita no lugar da Ribeira Quente a esta sufragânea (à igreja de Ponta Garça), está em tão miserável estado a podermos considerar de mais de 20 anos nesta parte, em que já padecia faltas que nela notou em sua visita o Illmº Snr. Bispo D. Frei Lourenço de Castro, o que nem pela sua visita nem pela que fez nesta igreja o Rev. Visitador Simão da Costa Rezendes, se fez coisa alguma".

Foram muito confusos alguns actos de visitação feitos a esta ermida, não só devido ao seu quase isolamento, como também por falta de documentação comprovativa ou verídica. Se fossem reais e não por simples informação de ouvidoria e paroquial, teríamos de aceitar a ideia de que em 6 anos depois de ter sido erecta esta ermida (1665), já a mesma estava em situação lamentável (como atrás se diz), - o que seria sinónimo de abandono por parte dos seus instituidores - mas isto não foi verdade visto que, como sempre, aos domingos, em alturas adequadas, os veraneantes, proprietários ou não, continuavam a ir ali ouvir missa pelos sacerdotes habituais, também estes veraneantes.

Segundo ainda o livro do Dr. Urbano de Mendonça Dias, provavelmente compilado de dados colhidos na ouvidoria de Vila Franca, o atrás mencionado visitador imbuído de poderes que lhe haviam sido conferidos, determinou que fosse notificado o padroeiro João de Frias Pereira, a fim de o obrigar a cumprir com o preceituado na doação. Porque o mesmo já tinha falecido, foi notificada a viúva do mesmo ou quem por direito era responsável pelo legado.

Dando rol dos bens patrimoniais do templo, o visitador diz:

"Tem esta Ermida 3 alqueires de vinha, sitos e junto dela, de fábrica", que o mesmo mandou pôr à venda mas que, por razões compreensíveis, não foi concretizada, visto que dos 3 alqueires de terra de vinha de patrmónio já pouco restava, ou só lhe restava uma nesga de terra, porque o verdadeiro dono daquele espaço, o mar, desde há muito vinha repondo as coisas no seu devido lugar.

O estranho é que nem o vigário de Ponta Garça nem o ouvidor de Vila Franca do Campo, entidade máxima na jurisdição, sabiam da perda daquela terra!

Quarenta anos depois da sua construção e catorze depois do último acto de visitação atrás mencionado, feito pelo licenciado António Pais de Vasconcelos, em 1691, a modestíssima ermida de São Paulo é vistoriada a 16 de Novembro de 1705 pelo Visitador Francisco Berquó, que em nome do Bispo dos Açores (D. António Vieira Leitão), ali se deslocou, tendo este apenas dito, depois deste acto de visitação, que:

" A Ermida de Sam Paulo foi erecta no ano de 1665, e de fábrica lhe doou João de Frias, 1$200 réis, e para pagamento deles obrigou 3 alqueires de vinha".

Descreveu o mesmo dados biográficos do padroeiro, dizendo que este "era casado com D. Maria Soares; veraneava na Ribeira Quente, a fazer o seu vinho e a colher os fructos dos seus terrenos, e naquele ano, ajudado talvez por outros veraneantes, levantou a primeira Ermida de Sam Paulo, nos extremos de um terreno que lá tinha, que media 3 a 4 alqueires, e doou toda a terra à Igreja para património, pondo-lhe o foro de 1$200 réis anuais, ficando a terra na administração da família".

Foi numa dessas alturas de governação eclesiástica conturbada nos Açores que nasceu o primeiro templo religioso no lugar da Ribeira Quente, lugar de veraneio, e foi também num outro período de Sede Vacante que veio a nascer, como se verá, a segunda Igreja no mesmo lugar.

Já iam então decorridos 82 anos desde que a primeira Ermida de São Paulo havia sido erecta, e 42 anos depois do último acto de visitação feito pelo Deão Dr. Francisco Berquó del-Rio - que foi desde 1739 Governador do Bispado na ausência do 20º Bispo dos Açores, D. Frei Valério do Sacramento - quando a 9 de Junho de 1747 outro visitador, o Licenciado Pedro Ferreira de Medeiros abordou as grandes necessidades do templo de São Paulo, e alertou os responsáveis religiosos e civis de Vila Franca, para que os mesmos compreendessem o então já muito notório crescimento da população daquela localidade da Ribeira Quente.

Como se pode observar, o longo período de quarenta e dois anos, desde del-Rio a este último licenciado, é perfeitamente sinónimo de que, religiosamente falando, a comunidade sedentária daquela localidade desde há muito estava esquecida.

Esta desatenção, ou falta de atenção, por parte das autoridades civis e religiosas, era do agrado de alguns proprietários das fajãs que desejavam manter quase só para si aquele lugar de sossego e veraneio, enquanto os vigários de Ponta Garça mantinham sempre a esperança de que o povo da Ribeira Quente devia pertencer à sua paróquia.

Deste visitador pouco ficou dito acerca da ermida de São Paulo, visto que a sua verdadeira missão era de outra dimensão, principalmente a de admoestação ao povo de Vila Franca, ao tempo pouco receptivo aos seus tradicionais bons costumes.

Dois anos depois desta última visitação, a 6 de Setembro de 1749, o Visitador Dr. Caetano Álvares Coelho fala do Curato já criado na Ribeira Quente e lamenta que o Cura, que era ambulante, pelas endoenças exigia que lhe fosse pago como trabalho extraordinário, aquilo que ia fazer à Ribeira Quente (levar a comunhão aos doentes), visto que, ao tempo, a Ermida de São Paulo ainda não possuía relicário!

Até àquela altura nada se sabia acerca de quem era o responsável pelo já relativamente idoso templo daquela localidade, até que, por carta de Visitação de 18 de Dezembro de 1753, o Visitador Licenciado Bernardo Martinz de Medeiros, mandatado pelo então Bispo dos Açores, D. Frei Valério do Sacramento, confirma que a Ermida de São Paulo era Curato, dizendo:

"Visitei as Ermidas pertencentes a esta paroquial (de Ponta Garça) e na de Sam Paulo da Ribeira Quente, porque tem Cura que administra os Divinos Sacramentos aos moradores daquele sítio, necessita de um Relicário para nele se levar o Santíssimo Viático aos enfermos, por não ir, como o tem feito, em um cálice de grave indecência, principalmente por se ir administrar por atalhos e passos dificultuosos, e de haver de passar algumas vezes uma perene e caudalosa ribeira, que é preciso ou passar a cavalo ou aos ombros, por cima de uns paus, que se não podem formar com segurança".

Determinou o mesmo que se fizesse o necessário Relicário - que não foi feito porque essa incumbência foi delegada ao vigário de Ponta Garça sob a orientação da ouvidoria de Vila Franca.

Nessa Carta de Visitação este mandato determina também que fosse pago ao Ermitão (ficou-se a saber que o havia), um subsídio anual de dez tostões, visto que o mesmo além de guardião também servia de sacristão.


(1) - (Estes elementos foram tirados do trabalho feito pelo Dr. Carreira da Costa "HISTÓRIA DAS IGREJAS E ERMIDAS DOS AÇORES").

COMO NASCEU A SOCIEDADE DA RIBEIRA QUENTE


Seria utopia pensar-se que a Comunidade sedentária que se veio a formar no lugar da Ribeira Quente após o cataclismo de 1630, teve na sua formação as mesmas raízes daqueles veraneantes que desde remotos tempos, como nos afirma Gaspar Fructuoso, ali iam gozar o sossego do então abdito lugar de fajãs e praia, ou daqueles que vieram ocupar as terras daquela localidade, após a erupção.

Quer por escrito, quer pela tradição, as fajãs da Ribeira Quente jamais foram da Comunidade piscatória daquela localidade ou de alguém que cedo ali se fixasse.

Por mera suposição houve quem pensasse que a classe piscatória que se veio a formar no litoral da Ribeira Quente podia ter sido originária de Vila Franca do Campo. Mas isso seria totalmente ilógico, visto que nenhum pescador com vida formada e família estabelecido na primitiva capital desta ilha, se fixaria num então logarejo sem quaisquer recursos de sobrevivência, casa para morar e sem porto de mar, a tal se sujeitasse sem ser por imposição.

Como tudo indica, foi na segunda metade do século XVII que se vieram a notar na Ribeira Quente, e no lugar da Ribeira, aqueles que seriam, pela vida fora, chamados de Pescadores da Ribeira Quente, mas que, sem dúvida, ali foram nascendo.

Soltos dos lugares das fajãs e pomares - que eram alodiais e impreterivelmente propriedade de gente de Vila Franca, como o eram todas as então fajãs da costa sul desde esta vila à Fajã do Calhau - só existiam os solos soltos formados por aluviões e acumulação de inertes sedimentares nas duas margens da ribeira, mas mais extensos do lado poente da mesma, os quais se estendiam até à praia e à foz desta.

Esta terra de ninguèm do lado poente, larga e alongada, por isso se chamou e hoje se chama de "ESPRAIADO", pelo povo da Ribeira Quente, foi onde a primitiva comunidade piscatória desta localidade foi montando, com muita resignação, uns barracos de pedra solta de uma só divisão, sem qualquer argamassa e orientação urbana, os quais, no decorrer dos séculos, se foram tornando naquilo que hoje ali vemos devido a muitas alterações. Eram, ainda na primeira metade do século XX, estes pequenos casebres, o ex-libris para quem ali passava.

O CASTELO DA RIBEIRA QUENTE


Segundo documentação existente, podemos verificar que entre os anos de 1598 a 1621 (1), portanto muitos antes da erupção e sismo atrás referidos, no litoral da Ribeira Quente, supõe-se que na direcção ou vertente perpendicular que parte da nova Igreja, foi ali construido um pequeno forte para repelir a pirataria, provavelmente no período filipino nos Açores, o qual veio a ser indirectamente mencionado por volta de 1797.

Da autoria de João Leite de Chaves e Melo Gato, existe um documento que diz:

"No distrito de Vila Franca, poico mais de 3 légoas, a leste de Vila Franca o do ribª quente (forte), 21/2; esta cituado em meio de hûa pequena praia de ceixos miudos, e serve de porto do lug. tem hûma ruina em o flanco direito, Oeste, não tem pottoens, as cazas habitadas; porem em bom estado; tem 7 canhoneiras e 7 peças desmontadas, 'apalamenta e munições nada".

Este precioso apanhado histórico mostra-nos, de forma inegável, que o lugar da Ribeira Quente depois das referências frutuosianas, se veio a tornar num ponto estratégico de defesa militar porque o seu pequeno forte passou a fazer parte do número de fortificações que existiram na costa sul de São Miguel, as quais se estendiam desde poente até ao Faial da Terra.

Se já existia na realidade o mesmo, antes da erupção, como não foi mencionado nos escritos referentes à erupção de 1630?

O certo é que este foi uma realidade indesmentivel porque a tradição perpetuou, até ao presente, aquela zona da Ribeira Quente como "Rua do Castelo".


(1) - Ofício de 10/04/1797, assinado em Ponta Delgada por João Leite de Chaves e Melo Gato, dirigido ao Ministro D. Rodrigo de Sousa. Documento dos Açores, maço n.º 16.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

PONTA DO FOGO


Assim denominada pelo povo após a grande erupção porque matérias telúricas vivas ali produziram efeitos muito espectaculares que ficaram vincadamente retratados; PONTA DA ALBUFEIRA: - Seu nome próprio na indicação geográfica, porque os corrimentos de terra e rochas descidas do alto entraram nas águas do mar e as fecharam, dando-lhe um aspecto de albufeira conforme nos diz o Licenciado João Gonçalves Homem (1), na sua narrativa do acontecimento:


"Em 4 do dito mês se desfez parte dela (matéria vulcânica), juntamente com uma serra e monte, que se chama Rosto Branco que era mui alto e estava à beira mar, levou ao mar esta rebentação de fogo, vinhas e terras entupindo com elas e pedra pomes e alagando, o mar, e fazendo nele repucho tal, que por onde barcos e navios passavam à vela, agora se passeia toda a gente a pé".


Este referido Rosto Branco - já citado por Gaspar Fructuoso cerca de setenta anos antes no seu trabalho toponímico acerca da Ribeira Quente - é o mesmo fundo rochoso que hoje se vê entre a Praia do Fogo e a Ponta da Lobeira, que era muito mais alto como nos diz o já mencionado João Gonçalves Homem.

As terras corridas do Pico das Tesouras em conjunto com os materiais piroclastos (pedre pomes), cobriram as primitivas fajãs "que davam vinho e pão", estenderam-se profundamente sobre o mar, soterrando a alongada praia que ia da Ribeira ao Fogo, formando naquele espaço terras que se tornaram muito vegetativas por isso cedo foram tomadas.

Ali nasceram sobre as mesmas terras novas fajãs "onde com não pequeno gosto" continuaram alguns dos anteriores proprietários, seus herdeiros ou outros "principais da terra", a usufruir os mesmos privilégios que já usufruíam antes os seus maiores.

Embora o Padre Doutor Gaspar Fructuoso no seu trabalho toponímico não faça qualquer referência acerca da existencia de quaisquer possíveis habitações, mesmo que muito rudimentares, no lugar da Ribeira Quente, o certo é que, quando o mesmo diz que era um lugar "ONDE COM NÃO PEQUENO GOSTO E GRANDE PASSATEMPO, FAZEM OS PRINCIPAIS DA TERRA E ALGUNS SACERDOTES E ALGUNS RELIGIOSOS (seculares e regulares), E ALGUNS ESTRANGEIROS, NO VERÃO, GRANDES PESCARIAS", está a transmitir uma clara ideia de que aquele recôndito lugar de sossego, com suas águas, sua praia e fajãs, era um primitivo lugar de veraneio, por isso tem lógica a afirmação de que quando ocorreu a grande tragédia no ano de 1630 que arrasou todo aquele lugar, ali ficaram soterrados alguns veraneantes e trabalhadores ilotas, estes nunca mencionados por não constarem nos registos paroquiais, mas os primeiros sim, visto que no total de mortos de Ponta Garça (os 115), não houveram nomes mas sim quantidades.


(1) - João Gonçalves Homem foi um dos que narraram o grande acontecimento ocorrido na zona da Lagoa Seca no ano de 1630, e suas repercussões. O seu trabalho está escrito no Volume II do Arquivo dos Açores.

ERUPÇÃO VULCÂNICA DE 1630


Segundo o Volume II do Arquivo dos Açores, foram em número de dez narrativas escritas que descreveram o fenomenal acontecimento eruptivo ocorrido nas imediações do hoje chamado Vale das Furnas, no ano acima mencionado.

Embora nesses escritos existam alguns desencontros quanto ao dia da semana e hora em que tiveram início os primeiros abalos de terra que antecederam a grande erupção sísmica que viria a ser a mais violenta e mais espectacular de todas as crises sísmico-eruptíveis dos Açores, a maioria das narrativas dizem que foi por volta das oito horas e meia da noite do dia 2 de Setembro de 1630, que os referidos abalos começaram e que, à maneira que iam crescendo de intensidade também cresciam em frequência, até que, cerca das duas horas e meia do dia seguinte, 3 do mesmo mês, se deu uma tremenda explosão no lugar de uma cratera que havia sido lagoa, denominada historicamente de Lagoa Seca das Furnas, a qual explosão fez sumir as águas de uma outra lagoa que lhe ficava quase adjacente, as da Lagoa Rasa, que tinha uma profundidade aproximada de 55 metros por dois quilómetros de largura.

Já feita depois uma só boca que incluia a área das duas lagoas, o fenómeno manteve-se permanentemente activo por alguns dias, espalhando a morte, o terror, o sofrimento e a dor.

Francisco Affonso Chaves, mais tarde, viria a chamar o mesmo de acontecimento explosivo.

O Vale das Furnas - segundo os mesmos testemunhos - que era muito acidentado com profundas grotas e muitas elevações, ficou com o aspecto de uma chã aplanada, sob a qual ficarram soterrados alguns pastores nómadas e muito gado, já que ao tempo só ali existiam, a fazer vida sedentária os religiosos de uma Ordem Seráfica, os quais, desavindos, se puseram em fuga para o lado norte da ilha, deixando o eremitério sob um manto de cinzas e pedra pomes.

Alguns dos trabalhos históricos que narram a medonha erupção de 1630, são muito elucidativos porque muito narrativos em matéria de pormenores que espelham com muita clareza a razão do porquê da salvação dos frades do eremitério do Vale:


"E foi N. Senhor servido que aquelle monte assim arrancado do seu lugar para que não sepultasse (aos eremitas), debaixo de si, cahisse pra a parte do mar aonde sepultou a outros que ali se encontravam".


Depois em outra passagem:


"Ponta Garça, lugar seu vizinho, tendo 100 fogos se vio sem elles por cahirem uns e ficarem outros debaixo da cinza de mais de 30 palmos. Deste lugar morreram em diluvio de fogo 115 pessoas".


Mais tarde, Frei Agostinho de Monte Alverne, o nosso segundo historiador açoriano, autor das "Cronicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores", também muito metódico no pormenor, no Capítulo Décimo do Volume II do seu livro, nos diz, sobre o mesmo acontecimento:


"Nos lugares da Povoação e Ponta Garça não ficou casa em pé, e na Povoação a terra noventa braças entrou pelo mar."


"Três dias inteiros choveu cinza em tanta quantidade, que em muitas partes de trinta palmos ficou a altura".


"Vindo um barco da Ilha de Santa Maria, embaraçado nela, (pedra pomes) não podendo passar, por onde foi necessário os passageiros deixarem o barco a mais de meia légua (mais de dois quilometros e meio) de mar, e virem para terra por cima dela".


Esta surpreendente extensão de pedra pomes lançada sobre o mar, no lado sul, embora nos pareça exagerada, é mencionada por outros narradores fidedignos.

Portanto, tendo o lugar da Povoação Velha e Ponta Garça, sido, segundo os historiadores, as duas zonas mais atingidas pelas matérias projectadas, é lógico acreditar que o lugar da Ribeira Quente, que lhes ficava de permeio, tivesse sido o mais atingido.

As grandes transformações que ficaram vincadamente retratadas, quer na zona da Praia do Fogo ou Praia da Albufeira quer dali à zona da Ribeira, são viva evidência deste acontecimento passado.

O LUGAR DA RIBEIRA QUENTE


Fazendo parte integrante do Concelho de Povoação desde 1839, e metida na mesma baía de mar que vai da Ponta da Fajã do Cura ou do Faial à Ponta da Lobeira, a hoje freguesia da Ribeira Quente, com uma pequena área administrativa de apenas 9.88 quilómetros quadrados, cedo entrou indirectamente nas páginas da nossa história.

Poucas vezes mencionado pelos nossos primitivos cronistas por ser totalmente isolado devido à sua costa acidentada e por isso quase descontinuada, o lugar da Ribeira Quente logo ganhou a fama de ser um lugar paradisíaco lugar de veraneio com uma recôndita e alongada praia.

O Padre Doutor Gaspar Fructuoso, pai primeiro de toda a nossa História Açoriana, ao descrever no VolumeII do seu Livro Quarto das "Saudades da Terra sobre este lugar, diz-nos:


"Passada a Ponta do Garajau, (Vindo da Povoação), dela até à Ponta de Simão Figueira em uma baixa de um tiro de berço, que se faz antre seu penedo e antre outra ponta chamada Rosto Branco, por ser a mesma ponta de terra branca, onde estão as fajãs que terão cinco moios de terra, que tem vinha e dão pão e pastel, está a Ribeira Quente, de muito boa e copiosa água, por caus que se ajuntam nela as três ribeira das Furnas, sic a Quente e a outra que corre pela fábrica de pedra hume, que se chama Ribeira Que Ferve, e outra chamada Ribeira Fria e alguns regatos pequenos, deles, das mesmas Furnas, e outros de outras partes; na qual ribeira muito pescado, onde com não pequeno gosto e grande passatempo, fazem os principais da terra e alguns sacerdotes e religiosos e alguns nobres estrangeiros, no Verão, grandes e ricas pescarias".


Descrevendo depois a mesma ribeira no Capítulo XLIX do mesmo volume, diz:


"Por esta Ribeira Quente abaixo, meia légua das Furnas, no Cabo do Lombo Frio (que é uma lomba em que a rocha dele, se chama a Felpelhuda, por ter muito musgo e erva), saem desta rocha três tornos de água, perto um do outro, com quantidade de dois côvados antre cada um; o torno do meio é quente, os outros frios.

dali para baixo é a Ribeira Quente tão chã até ao mar, espaço de outra meia légua que vem as tainhas por ela acima até ao Lombo Frio"


"Tão chã até ao mar, espaço de outra meia légua", (2,5 quilometros de extensão), é uma afirmação de que o curso da ribeira, desde a sua foz à zona aproximada dos túneis, era uma rica área de pesca.

Embora a nascente do curso de água quente partisse de dois olhos de àguas turvas e sulfúreas nas imediações de uma Ermida de Nossa Senhora da Consolação do Vale das Furnas, onde está erguida a Igreja de Sant'Ana daquele vale, é a partir da junção das ribeiras acima mensionadas por Gaspar Fructuoso, que nasce o nome de RIBEIRA QUENTE".

A sua configuração física veio ao longo dos séculos a ser vária vezes alterada devido às naturais enxurradas, uma delas ocorrida a 7 de Outubro de 1588.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

CRIAÇÃO DO POSTO DE REGISTO CIVIL


Diário do Governo II Série n.º 64 de 19-3-1945

2.ª Secção

Ministério da Justiça

Rectificação

“Para os devidos efeitos se rectifica que o posto do registo civil criado por despacho ministerial de 8 de Dezembro de 1944, publicado no Diário do Governo n.º 289, 2.ª série, de 30 do mesmo mês e ano, o foi na freguesia da Ribeira Quente, do Concelho de Povoação.
Direcção Geral da Justiça, 15 de Março de 1945 – Servindo de Director Geral, Guilherme P. S. Viana”.

A nomeação do primeiro ajudante de Registo Civil da Ribeira Quente foi feita pelo Ministério da Justiça no Diário do Governo II Série n.º 118 de 23-5-1945, e foi Abel Inácio de Lima, filho deste lugar, o empossado, o qual foi tomar posse do lugar ao Tribunal Judicial da Vila da Povoação, do qual era Juiz o Dr. Leonildio Martins Coelho Lopes, tendo assistido a esta tomada de posse o então Conservador do Registo Civil da Povoação, o Dr. Hugo Nunes da Silva.

(Por razões óbvias, algum tempo mais tarde, este posto do registo civil foi extinto).

PRIMEIRA JUNTA DE FREGUESIA




Eleitos para presidir aos destinos da primeira Junta de Freguesia da Ribeira Quente, foram escolhidos os filhos desta localidade, Luiz Linhares de Deus, presidente; João Jacinto Linhares Rita, tesoureiro e João Vieira Jerónimo, secretário.
A Sede desta Junta de Freguesia, inicialmente, foi estabelecida numa dependência da própria Igreja de São Paulo.
O primeiro Regedor (autoridade policial), foi Francisco Pacheco de Medeiros, mais conhecido pelo apelido de Senhor Fonseca e, como substituto, o então já influente comerciante António Inácio Flor de Lima.
Como substitutos da Junta foram eleitos os cidadãos António de Medeiros Couto, Horácio Jacinto Linhares e Manuel Furtado Cidade.

LIMITES DA NOVA FREGUESIA DE RIBEIRA QUENTE


NORTE: - Herdeiros de José do Canto, Matas dos Castelos, Terras da Misericórdia de Furnas e Pico dos Bodes;
SUL: - Mar;
NASCENTE: - Ribeira do Agrião;
POENTE: - Grota do Tufo.

O total de toda esta área é de 9.88 Km2, o mais pequeno das 6 freguesias do Concelho.

ELEVAÇÃO DO LUGAR DA RIBEIRA QUENTE A FREGUESIA


Como resultado do requerimento enviado ao Ministério do Interior no ano de 1941, pelo Dec.-Lei n.º 328,67, de 24 de Junho deste mesmo ano de 1943, n.º 131 – I Série, foi o lugar da Ribeira Quente elevado a freguesia, do seguinte modo:

MINISTÉRIO DO INTERIOR

Direcção Geral da Administração Política e Civil
Decreto-Lei n.º 32867

“ A povoação da Ribeira Quente, pertencente à freguesia de Mãe de Deus, da Vila e Concelho de Povoação, districto de Ponta Delgada, tem uma população de cerca de 1.800 habitantes e constitue de há muito uma paróquia eclesiástica autónoma.
Os chefes de família eleitores requerem ao Governo a criação de uma nova freguesia constituída pelo referido lugar, alegando para isso razões de ordem económica e administrativa e demonstrando a conveniência que adviria para a população se se criasse e circunscrição administrativa como desejavam.
Em face ao exposto, das vantagens já reconhecidas e confirmadas pelas autoridades locais e tendo em vista o que dispõem os artigos 7.º e 9.º do Código Administrativo; Usando da faculdade conferida pela 2.ª parte do n.º 2.º do artigo 109.º da Constituição, o Governo decreta e eu promulgo, para valer como lei, o seguinte:
ARTIGO ÚNICO: - É criada no dito districto autónomo de Ponta Delgada uma nova freguesia; com sede na povoação de Ribeira Quente:

Rubrique-se e cumpra-se como nele se contém. Paços do Governo da Republica, 24 de Junho de 1943 – António Óscar de Fragoso Carmona – António de Oliveira Salazar – Mário Pais de Sousa – Adriano Pais da Silva Vaz Serra – João Pinto da Costa Leite – Manuel Ortins de Bettencourt – Duarte Pacheco – Francisco José Vieira Machado – Rafael da Silva Neves Duque”.