segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O BISPO E A SUA REACÇÃO


A 6 de Dezembro de 1775, D. António Caetano da Rocha, 21.º Bispo dos Açore, veio em Visita Pastoral - segundo aquilo que se lê nas páginas 99, 100 e 101 da "História das Igrejas em São Miguel" da autoria do Dr. Urbano de Mendonça Dias - à paroquial de Ponta Garça, e ali lamentou ter sido feita na Ribeira Quente, naquele lugar isolado pela Natureza, a Ermida de São Paulo, dizendo na sua Carta Pastoral:
"O povo da Ribeira Quente, indevidamente se tem conservado naquele lugar em que nada tem de próprio, suposto conseguisse da incomparável piedade de Sua Majestade, a concessão de Cura para aquele lugar, que se o mesmo Senhor fosse legitimamente informado, antes os faria d'ali despejar; não se devem os tais moradores considerar filhos da Paróquia, para a ela acudirem na parte espiritual, pois o Cura que tem é em subsídio para as necessidades urgentes".
Esta forte admoestação ou aviso feita por D. António - que foi mais um evidente ressentimento do, ao tempo, vigário de Nossa Senhora sa Piedade de Ponta Garça - de forma alguma foi compreendida pelo povo do lugar da Ribeira Quente que naquela altura já ia, naturalmente, na terceira geração ali nascida, muito menos podia ser entendida pelos veraneantes que só ali iam em alturas adequadas e não pertenciam àquele lugar. Além disso, já iam decorridos 110 anos desde que a mesma ermida ali havia sido feita e servia o povo daquela localidade.
Na mesma advertência, D. António ainda dizia:
"e outrosim o mesmo povo e habitantes do tal sítio sem que faltem com o devido à Fábrica da Matriz (de Vila Franca e não Ponta Garça) devem à sua custa suprir todo o necessário à dita Ermida de Sam Paulo, no que ao seu património não poder chegar, pela mesma razão de lhe estar servindo de Paróquia em comodidade sua, que se não a tiverem com decência para a celebração do alto sacrifício da missa e os seus ministérios sagrados que nela se celebram, lha mandarei interditar, e que venham à própria Paróquia satisfazer em tudo as obrigações de católicos".
Por falta de melhores conhecimentos e má informação, o mesmo insiste em chamar aos veraneantes que vinham de Vila Franca e de outras localidades, de filhos da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Ponta Garça, mas logo emenda:
"Já fica dito que o povo da Ribeira Quente está obrigado a reparar a Fábrica da Ermida de S. Paulo, pois lhe serve de Paróquia subsidiária, porém não podemos deixar de reflectir na pobreza deste povo e na grande concorrência de gente de Vila Franca que vão povoar aquele sítio grande parte do ano, em que entram muitos sacerdotes, que se ocupam toda a manhã em celebrar".
Como se pode depreender das afirmações do prelado, o lugar da Ribeira Quente, pela segunda vez na sua história oculta, continuava a ser uma isolada zona de lazer, fajãs e praia, mas também já um povoado de fixação permanente.
Mal informado, quer no aspecto social-humano, quer no valor material, tanto ele como o ouvidor de Distrito Eclesiástico, desconheciam, como é obvio, por falta de informação adequada, que a terra de vinha do património da Ermida de São Paulo, como todas as fajãs que lhe ficavam nas imediações, já há muito não existiam porque o mar, passados que eram 145 anos depois da erupção que arrasou aquela localidade, jamais havia deixado de lamber a terra e fazer desaparecer aqueles solos postiços.

PRIMEIRA ERMIDA DE SÃO PAULO


Nunca foi aceita de livre vontade pelos ao tempo vigários de Ponta Garça, ou de Nossa Senhora da Piedade daquela localidade, a criação de uam Ribeira Quente feita povoado independente, porque os mesmos sempre consideraram que esta localidade era, religiosamente falando, a continuação de Ponta Garça, embora a distância que separava as duas localidades fosse muita, e a falta de caminhos de penetração além do mar, fossem quase inexistentes.

Por via desse anacronismo histórico, daquela insistente teimosia, o começo da comunidade sedentária da Ribeira Quente, no aspecto sócio-religioso, foi bastante conturbado. No entanto, depois de ter sido feita a primeira ermida de "Sam Paulo" - por gente de Vila Franca - embora inicialmente ermida particular sem contestação, quando a mesma passou a servir a pequena comunidade de fixação permanente, teve este templo de se tornar sufragâneo da Igreja de Ponta Garça, porque, segundo a lógica, esta era então a paroquial mais perto da referida ermida.

Na sua situação de subjacência religiosa, a Ermida de São Paulo foi por vezes omitida dentro do seu período histórico, não só devido ao ressentimento já focado, que se tornou durável, como também devido ao menosprezo a que este templo foi votado por parte da ouvidoria e centralismo religioso de Vila Franca.

Por exemplo: Frei Agostinho de Monte Alverne, autor das "Crónicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores", nascido a 11 de Fevereiro de 1629, muito meticuloso no pormenor narrativo, quando abordou todas as paróquias da jurisdição da Igreja de São Miguel de Vila Franca e suas ermidas, ao falar das que se situavam a nascente, diz apenas:

"4º - A freguesia de Nossa Senhora da Piedade, de Ponta Garça, tem vigário, cura e tesoureiro, com 130 fogos e 435 pessoas, com duas ermidas, São João de Deus e Nossa Senhora da Vida",

porque nos elementos que lhe foram dados não fugurava ou havia sido mencionado o templo de São Paulo da Ribeira Quente.

Esta omissão tornou-se muito evidente, visto que, quando faleceu Frei Agostinho, em 1726, já este primeiro templo do lugar da Ribeira Quente tinha 61 anos de idade!

Francisco Afonso de Chaves e Melo no seu livro "A Margarita Animada", publicou em 1723 - três anos antes da morte de Frei Agostinho - falando dos templos da Ilha de São Miguel diz-nos que a paroquial de Ponta Garça tem (tinha), duas ermidas, a das Almas Santas e a de São Paulo!

Nunca foi sabido com clareza, a data exacta em que em que este primeiro templo da Ribeira Quente foi bento e licenciado para a prática de actos religiosos. O que é sabido é que, logo que erecto e ao serviço de quem naquela localidade veraneava ou residia, aparece-nos como sufragâneo da igreja de Ponta Garço, mas esta relativa dependência ou subalternidade religiosa não lhe facultava quaisquer regalias materiais, visto que a Igreja de Nossa Senhora da Piedade à qual era sufragâneo, sempre foi uma paróquia muitíssimo pobre. Desde a sua erecção, na primeira metade do século XVI feita a expensas de Lopo Anes de Araújo, era e foi uma igreja pequena e acanhada que passou por muitas situações de ruína, até que, porque a povoação crescia, por volta de 1830 (data no frontespício), esta foi transformada como hoje se a vê, mas depois caiu novamente num estado de pobreza que só por alturas de 1924 a 1928 se veio a alterar devido à grandiosa força de vontade do seu vigário, o Padre Francisco de Medeiros Simas, do povo de Ponta Garça e dos emigrantes dali naturais, então este templo se valorizou. (1)

Baseando-nos nos dados que nos transmitiu o Dr. Urbano de Mendonça Dias em seu trabalho feito acerca dos templos desta nossa ilha, foram vários os visitadores mandatários dos Bispos dos Açores que visitaram a Igreja de Ponta Garça e, por inerência, as suas ermidas. Porém, nem todas estas visitas foram realmente concretizadas in loc, isto no tocante à Ermida da Ribeira Quente, como se pode verificar.

Vinte e seis anos depois de ter sido erecto este primitivo templo da Ribeira Quente, a 15 de Janeiro de 1691, numa altura em que governava a Diocese dos Açores D. Frei Clemente Vieira, o Visitador Licenciado António Pais de Vasconcelos fala deste templo nos seguintes termos:

"A Ermida de Sam Paulo, sita no lugar da Ribeira Quente a esta sufragânea (à igreja de Ponta Garça), está em tão miserável estado a podermos considerar de mais de 20 anos nesta parte, em que já padecia faltas que nela notou em sua visita o Illmº Snr. Bispo D. Frei Lourenço de Castro, o que nem pela sua visita nem pela que fez nesta igreja o Rev. Visitador Simão da Costa Rezendes, se fez coisa alguma".

Foram muito confusos alguns actos de visitação feitos a esta ermida, não só devido ao seu quase isolamento, como também por falta de documentação comprovativa ou verídica. Se fossem reais e não por simples informação de ouvidoria e paroquial, teríamos de aceitar a ideia de que em 6 anos depois de ter sido erecta esta ermida (1665), já a mesma estava em situação lamentável (como atrás se diz), - o que seria sinónimo de abandono por parte dos seus instituidores - mas isto não foi verdade visto que, como sempre, aos domingos, em alturas adequadas, os veraneantes, proprietários ou não, continuavam a ir ali ouvir missa pelos sacerdotes habituais, também estes veraneantes.

Segundo ainda o livro do Dr. Urbano de Mendonça Dias, provavelmente compilado de dados colhidos na ouvidoria de Vila Franca, o atrás mencionado visitador imbuído de poderes que lhe haviam sido conferidos, determinou que fosse notificado o padroeiro João de Frias Pereira, a fim de o obrigar a cumprir com o preceituado na doação. Porque o mesmo já tinha falecido, foi notificada a viúva do mesmo ou quem por direito era responsável pelo legado.

Dando rol dos bens patrimoniais do templo, o visitador diz:

"Tem esta Ermida 3 alqueires de vinha, sitos e junto dela, de fábrica", que o mesmo mandou pôr à venda mas que, por razões compreensíveis, não foi concretizada, visto que dos 3 alqueires de terra de vinha de patrmónio já pouco restava, ou só lhe restava uma nesga de terra, porque o verdadeiro dono daquele espaço, o mar, desde há muito vinha repondo as coisas no seu devido lugar.

O estranho é que nem o vigário de Ponta Garça nem o ouvidor de Vila Franca do Campo, entidade máxima na jurisdição, sabiam da perda daquela terra!

Quarenta anos depois da sua construção e catorze depois do último acto de visitação atrás mencionado, feito pelo licenciado António Pais de Vasconcelos, em 1691, a modestíssima ermida de São Paulo é vistoriada a 16 de Novembro de 1705 pelo Visitador Francisco Berquó, que em nome do Bispo dos Açores (D. António Vieira Leitão), ali se deslocou, tendo este apenas dito, depois deste acto de visitação, que:

" A Ermida de Sam Paulo foi erecta no ano de 1665, e de fábrica lhe doou João de Frias, 1$200 réis, e para pagamento deles obrigou 3 alqueires de vinha".

Descreveu o mesmo dados biográficos do padroeiro, dizendo que este "era casado com D. Maria Soares; veraneava na Ribeira Quente, a fazer o seu vinho e a colher os fructos dos seus terrenos, e naquele ano, ajudado talvez por outros veraneantes, levantou a primeira Ermida de Sam Paulo, nos extremos de um terreno que lá tinha, que media 3 a 4 alqueires, e doou toda a terra à Igreja para património, pondo-lhe o foro de 1$200 réis anuais, ficando a terra na administração da família".

Foi numa dessas alturas de governação eclesiástica conturbada nos Açores que nasceu o primeiro templo religioso no lugar da Ribeira Quente, lugar de veraneio, e foi também num outro período de Sede Vacante que veio a nascer, como se verá, a segunda Igreja no mesmo lugar.

Já iam então decorridos 82 anos desde que a primeira Ermida de São Paulo havia sido erecta, e 42 anos depois do último acto de visitação feito pelo Deão Dr. Francisco Berquó del-Rio - que foi desde 1739 Governador do Bispado na ausência do 20º Bispo dos Açores, D. Frei Valério do Sacramento - quando a 9 de Junho de 1747 outro visitador, o Licenciado Pedro Ferreira de Medeiros abordou as grandes necessidades do templo de São Paulo, e alertou os responsáveis religiosos e civis de Vila Franca, para que os mesmos compreendessem o então já muito notório crescimento da população daquela localidade da Ribeira Quente.

Como se pode observar, o longo período de quarenta e dois anos, desde del-Rio a este último licenciado, é perfeitamente sinónimo de que, religiosamente falando, a comunidade sedentária daquela localidade desde há muito estava esquecida.

Esta desatenção, ou falta de atenção, por parte das autoridades civis e religiosas, era do agrado de alguns proprietários das fajãs que desejavam manter quase só para si aquele lugar de sossego e veraneio, enquanto os vigários de Ponta Garça mantinham sempre a esperança de que o povo da Ribeira Quente devia pertencer à sua paróquia.

Deste visitador pouco ficou dito acerca da ermida de São Paulo, visto que a sua verdadeira missão era de outra dimensão, principalmente a de admoestação ao povo de Vila Franca, ao tempo pouco receptivo aos seus tradicionais bons costumes.

Dois anos depois desta última visitação, a 6 de Setembro de 1749, o Visitador Dr. Caetano Álvares Coelho fala do Curato já criado na Ribeira Quente e lamenta que o Cura, que era ambulante, pelas endoenças exigia que lhe fosse pago como trabalho extraordinário, aquilo que ia fazer à Ribeira Quente (levar a comunhão aos doentes), visto que, ao tempo, a Ermida de São Paulo ainda não possuía relicário!

Até àquela altura nada se sabia acerca de quem era o responsável pelo já relativamente idoso templo daquela localidade, até que, por carta de Visitação de 18 de Dezembro de 1753, o Visitador Licenciado Bernardo Martinz de Medeiros, mandatado pelo então Bispo dos Açores, D. Frei Valério do Sacramento, confirma que a Ermida de São Paulo era Curato, dizendo:

"Visitei as Ermidas pertencentes a esta paroquial (de Ponta Garça) e na de Sam Paulo da Ribeira Quente, porque tem Cura que administra os Divinos Sacramentos aos moradores daquele sítio, necessita de um Relicário para nele se levar o Santíssimo Viático aos enfermos, por não ir, como o tem feito, em um cálice de grave indecência, principalmente por se ir administrar por atalhos e passos dificultuosos, e de haver de passar algumas vezes uma perene e caudalosa ribeira, que é preciso ou passar a cavalo ou aos ombros, por cima de uns paus, que se não podem formar com segurança".

Determinou o mesmo que se fizesse o necessário Relicário - que não foi feito porque essa incumbência foi delegada ao vigário de Ponta Garça sob a orientação da ouvidoria de Vila Franca.

Nessa Carta de Visitação este mandato determina também que fosse pago ao Ermitão (ficou-se a saber que o havia), um subsídio anual de dez tostões, visto que o mesmo além de guardião também servia de sacristão.


(1) - (Estes elementos foram tirados do trabalho feito pelo Dr. Carreira da Costa "HISTÓRIA DAS IGREJAS E ERMIDAS DOS AÇORES").

COMO NASCEU A SOCIEDADE DA RIBEIRA QUENTE


Seria utopia pensar-se que a Comunidade sedentária que se veio a formar no lugar da Ribeira Quente após o cataclismo de 1630, teve na sua formação as mesmas raízes daqueles veraneantes que desde remotos tempos, como nos afirma Gaspar Fructuoso, ali iam gozar o sossego do então abdito lugar de fajãs e praia, ou daqueles que vieram ocupar as terras daquela localidade, após a erupção.

Quer por escrito, quer pela tradição, as fajãs da Ribeira Quente jamais foram da Comunidade piscatória daquela localidade ou de alguém que cedo ali se fixasse.

Por mera suposição houve quem pensasse que a classe piscatória que se veio a formar no litoral da Ribeira Quente podia ter sido originária de Vila Franca do Campo. Mas isso seria totalmente ilógico, visto que nenhum pescador com vida formada e família estabelecido na primitiva capital desta ilha, se fixaria num então logarejo sem quaisquer recursos de sobrevivência, casa para morar e sem porto de mar, a tal se sujeitasse sem ser por imposição.

Como tudo indica, foi na segunda metade do século XVII que se vieram a notar na Ribeira Quente, e no lugar da Ribeira, aqueles que seriam, pela vida fora, chamados de Pescadores da Ribeira Quente, mas que, sem dúvida, ali foram nascendo.

Soltos dos lugares das fajãs e pomares - que eram alodiais e impreterivelmente propriedade de gente de Vila Franca, como o eram todas as então fajãs da costa sul desde esta vila à Fajã do Calhau - só existiam os solos soltos formados por aluviões e acumulação de inertes sedimentares nas duas margens da ribeira, mas mais extensos do lado poente da mesma, os quais se estendiam até à praia e à foz desta.

Esta terra de ninguèm do lado poente, larga e alongada, por isso se chamou e hoje se chama de "ESPRAIADO", pelo povo da Ribeira Quente, foi onde a primitiva comunidade piscatória desta localidade foi montando, com muita resignação, uns barracos de pedra solta de uma só divisão, sem qualquer argamassa e orientação urbana, os quais, no decorrer dos séculos, se foram tornando naquilo que hoje ali vemos devido a muitas alterações. Eram, ainda na primeira metade do século XX, estes pequenos casebres, o ex-libris para quem ali passava.

O CASTELO DA RIBEIRA QUENTE


Segundo documentação existente, podemos verificar que entre os anos de 1598 a 1621 (1), portanto muitos antes da erupção e sismo atrás referidos, no litoral da Ribeira Quente, supõe-se que na direcção ou vertente perpendicular que parte da nova Igreja, foi ali construido um pequeno forte para repelir a pirataria, provavelmente no período filipino nos Açores, o qual veio a ser indirectamente mencionado por volta de 1797.

Da autoria de João Leite de Chaves e Melo Gato, existe um documento que diz:

"No distrito de Vila Franca, poico mais de 3 légoas, a leste de Vila Franca o do ribª quente (forte), 21/2; esta cituado em meio de hûa pequena praia de ceixos miudos, e serve de porto do lug. tem hûma ruina em o flanco direito, Oeste, não tem pottoens, as cazas habitadas; porem em bom estado; tem 7 canhoneiras e 7 peças desmontadas, 'apalamenta e munições nada".

Este precioso apanhado histórico mostra-nos, de forma inegável, que o lugar da Ribeira Quente depois das referências frutuosianas, se veio a tornar num ponto estratégico de defesa militar porque o seu pequeno forte passou a fazer parte do número de fortificações que existiram na costa sul de São Miguel, as quais se estendiam desde poente até ao Faial da Terra.

Se já existia na realidade o mesmo, antes da erupção, como não foi mencionado nos escritos referentes à erupção de 1630?

O certo é que este foi uma realidade indesmentivel porque a tradição perpetuou, até ao presente, aquela zona da Ribeira Quente como "Rua do Castelo".


(1) - Ofício de 10/04/1797, assinado em Ponta Delgada por João Leite de Chaves e Melo Gato, dirigido ao Ministro D. Rodrigo de Sousa. Documento dos Açores, maço n.º 16.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

PONTA DO FOGO


Assim denominada pelo povo após a grande erupção porque matérias telúricas vivas ali produziram efeitos muito espectaculares que ficaram vincadamente retratados; PONTA DA ALBUFEIRA: - Seu nome próprio na indicação geográfica, porque os corrimentos de terra e rochas descidas do alto entraram nas águas do mar e as fecharam, dando-lhe um aspecto de albufeira conforme nos diz o Licenciado João Gonçalves Homem (1), na sua narrativa do acontecimento:


"Em 4 do dito mês se desfez parte dela (matéria vulcânica), juntamente com uma serra e monte, que se chama Rosto Branco que era mui alto e estava à beira mar, levou ao mar esta rebentação de fogo, vinhas e terras entupindo com elas e pedra pomes e alagando, o mar, e fazendo nele repucho tal, que por onde barcos e navios passavam à vela, agora se passeia toda a gente a pé".


Este referido Rosto Branco - já citado por Gaspar Fructuoso cerca de setenta anos antes no seu trabalho toponímico acerca da Ribeira Quente - é o mesmo fundo rochoso que hoje se vê entre a Praia do Fogo e a Ponta da Lobeira, que era muito mais alto como nos diz o já mencionado João Gonçalves Homem.

As terras corridas do Pico das Tesouras em conjunto com os materiais piroclastos (pedre pomes), cobriram as primitivas fajãs "que davam vinho e pão", estenderam-se profundamente sobre o mar, soterrando a alongada praia que ia da Ribeira ao Fogo, formando naquele espaço terras que se tornaram muito vegetativas por isso cedo foram tomadas.

Ali nasceram sobre as mesmas terras novas fajãs "onde com não pequeno gosto" continuaram alguns dos anteriores proprietários, seus herdeiros ou outros "principais da terra", a usufruir os mesmos privilégios que já usufruíam antes os seus maiores.

Embora o Padre Doutor Gaspar Fructuoso no seu trabalho toponímico não faça qualquer referência acerca da existencia de quaisquer possíveis habitações, mesmo que muito rudimentares, no lugar da Ribeira Quente, o certo é que, quando o mesmo diz que era um lugar "ONDE COM NÃO PEQUENO GOSTO E GRANDE PASSATEMPO, FAZEM OS PRINCIPAIS DA TERRA E ALGUNS SACERDOTES E ALGUNS RELIGIOSOS (seculares e regulares), E ALGUNS ESTRANGEIROS, NO VERÃO, GRANDES PESCARIAS", está a transmitir uma clara ideia de que aquele recôndito lugar de sossego, com suas águas, sua praia e fajãs, era um primitivo lugar de veraneio, por isso tem lógica a afirmação de que quando ocorreu a grande tragédia no ano de 1630 que arrasou todo aquele lugar, ali ficaram soterrados alguns veraneantes e trabalhadores ilotas, estes nunca mencionados por não constarem nos registos paroquiais, mas os primeiros sim, visto que no total de mortos de Ponta Garça (os 115), não houveram nomes mas sim quantidades.


(1) - João Gonçalves Homem foi um dos que narraram o grande acontecimento ocorrido na zona da Lagoa Seca no ano de 1630, e suas repercussões. O seu trabalho está escrito no Volume II do Arquivo dos Açores.

ERUPÇÃO VULCÂNICA DE 1630


Segundo o Volume II do Arquivo dos Açores, foram em número de dez narrativas escritas que descreveram o fenomenal acontecimento eruptivo ocorrido nas imediações do hoje chamado Vale das Furnas, no ano acima mencionado.

Embora nesses escritos existam alguns desencontros quanto ao dia da semana e hora em que tiveram início os primeiros abalos de terra que antecederam a grande erupção sísmica que viria a ser a mais violenta e mais espectacular de todas as crises sísmico-eruptíveis dos Açores, a maioria das narrativas dizem que foi por volta das oito horas e meia da noite do dia 2 de Setembro de 1630, que os referidos abalos começaram e que, à maneira que iam crescendo de intensidade também cresciam em frequência, até que, cerca das duas horas e meia do dia seguinte, 3 do mesmo mês, se deu uma tremenda explosão no lugar de uma cratera que havia sido lagoa, denominada historicamente de Lagoa Seca das Furnas, a qual explosão fez sumir as águas de uma outra lagoa que lhe ficava quase adjacente, as da Lagoa Rasa, que tinha uma profundidade aproximada de 55 metros por dois quilómetros de largura.

Já feita depois uma só boca que incluia a área das duas lagoas, o fenómeno manteve-se permanentemente activo por alguns dias, espalhando a morte, o terror, o sofrimento e a dor.

Francisco Affonso Chaves, mais tarde, viria a chamar o mesmo de acontecimento explosivo.

O Vale das Furnas - segundo os mesmos testemunhos - que era muito acidentado com profundas grotas e muitas elevações, ficou com o aspecto de uma chã aplanada, sob a qual ficarram soterrados alguns pastores nómadas e muito gado, já que ao tempo só ali existiam, a fazer vida sedentária os religiosos de uma Ordem Seráfica, os quais, desavindos, se puseram em fuga para o lado norte da ilha, deixando o eremitério sob um manto de cinzas e pedra pomes.

Alguns dos trabalhos históricos que narram a medonha erupção de 1630, são muito elucidativos porque muito narrativos em matéria de pormenores que espelham com muita clareza a razão do porquê da salvação dos frades do eremitério do Vale:


"E foi N. Senhor servido que aquelle monte assim arrancado do seu lugar para que não sepultasse (aos eremitas), debaixo de si, cahisse pra a parte do mar aonde sepultou a outros que ali se encontravam".


Depois em outra passagem:


"Ponta Garça, lugar seu vizinho, tendo 100 fogos se vio sem elles por cahirem uns e ficarem outros debaixo da cinza de mais de 30 palmos. Deste lugar morreram em diluvio de fogo 115 pessoas".


Mais tarde, Frei Agostinho de Monte Alverne, o nosso segundo historiador açoriano, autor das "Cronicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores", também muito metódico no pormenor, no Capítulo Décimo do Volume II do seu livro, nos diz, sobre o mesmo acontecimento:


"Nos lugares da Povoação e Ponta Garça não ficou casa em pé, e na Povoação a terra noventa braças entrou pelo mar."


"Três dias inteiros choveu cinza em tanta quantidade, que em muitas partes de trinta palmos ficou a altura".


"Vindo um barco da Ilha de Santa Maria, embaraçado nela, (pedra pomes) não podendo passar, por onde foi necessário os passageiros deixarem o barco a mais de meia légua (mais de dois quilometros e meio) de mar, e virem para terra por cima dela".


Esta surpreendente extensão de pedra pomes lançada sobre o mar, no lado sul, embora nos pareça exagerada, é mencionada por outros narradores fidedignos.

Portanto, tendo o lugar da Povoação Velha e Ponta Garça, sido, segundo os historiadores, as duas zonas mais atingidas pelas matérias projectadas, é lógico acreditar que o lugar da Ribeira Quente, que lhes ficava de permeio, tivesse sido o mais atingido.

As grandes transformações que ficaram vincadamente retratadas, quer na zona da Praia do Fogo ou Praia da Albufeira quer dali à zona da Ribeira, são viva evidência deste acontecimento passado.

O LUGAR DA RIBEIRA QUENTE


Fazendo parte integrante do Concelho de Povoação desde 1839, e metida na mesma baía de mar que vai da Ponta da Fajã do Cura ou do Faial à Ponta da Lobeira, a hoje freguesia da Ribeira Quente, com uma pequena área administrativa de apenas 9.88 quilómetros quadrados, cedo entrou indirectamente nas páginas da nossa história.

Poucas vezes mencionado pelos nossos primitivos cronistas por ser totalmente isolado devido à sua costa acidentada e por isso quase descontinuada, o lugar da Ribeira Quente logo ganhou a fama de ser um lugar paradisíaco lugar de veraneio com uma recôndita e alongada praia.

O Padre Doutor Gaspar Fructuoso, pai primeiro de toda a nossa História Açoriana, ao descrever no VolumeII do seu Livro Quarto das "Saudades da Terra sobre este lugar, diz-nos:


"Passada a Ponta do Garajau, (Vindo da Povoação), dela até à Ponta de Simão Figueira em uma baixa de um tiro de berço, que se faz antre seu penedo e antre outra ponta chamada Rosto Branco, por ser a mesma ponta de terra branca, onde estão as fajãs que terão cinco moios de terra, que tem vinha e dão pão e pastel, está a Ribeira Quente, de muito boa e copiosa água, por caus que se ajuntam nela as três ribeira das Furnas, sic a Quente e a outra que corre pela fábrica de pedra hume, que se chama Ribeira Que Ferve, e outra chamada Ribeira Fria e alguns regatos pequenos, deles, das mesmas Furnas, e outros de outras partes; na qual ribeira muito pescado, onde com não pequeno gosto e grande passatempo, fazem os principais da terra e alguns sacerdotes e religiosos e alguns nobres estrangeiros, no Verão, grandes e ricas pescarias".


Descrevendo depois a mesma ribeira no Capítulo XLIX do mesmo volume, diz:


"Por esta Ribeira Quente abaixo, meia légua das Furnas, no Cabo do Lombo Frio (que é uma lomba em que a rocha dele, se chama a Felpelhuda, por ter muito musgo e erva), saem desta rocha três tornos de água, perto um do outro, com quantidade de dois côvados antre cada um; o torno do meio é quente, os outros frios.

dali para baixo é a Ribeira Quente tão chã até ao mar, espaço de outra meia légua que vem as tainhas por ela acima até ao Lombo Frio"


"Tão chã até ao mar, espaço de outra meia légua", (2,5 quilometros de extensão), é uma afirmação de que o curso da ribeira, desde a sua foz à zona aproximada dos túneis, era uma rica área de pesca.

Embora a nascente do curso de água quente partisse de dois olhos de àguas turvas e sulfúreas nas imediações de uma Ermida de Nossa Senhora da Consolação do Vale das Furnas, onde está erguida a Igreja de Sant'Ana daquele vale, é a partir da junção das ribeiras acima mensionadas por Gaspar Fructuoso, que nasce o nome de RIBEIRA QUENTE".

A sua configuração física veio ao longo dos séculos a ser vária vezes alterada devido às naturais enxurradas, uma delas ocorrida a 7 de Outubro de 1588.